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José Rodrigues dos Santos

José Rodrigues dos Santos: “O fascismo tem mesmo origem no marxismo”

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O grande cisma dos ‘ismos’ tem novo capítulo. O autor português mais vendido na atualidade responde ao historiador António Araújo. No centro da discussão estão dois conceitos que marcaram o século XX

Keystone-France

O debate sobre as origens do fascismo, desencadeado pelos romances “As Flores de Lótus” e “O Pavilhão Púrpura”, mostra a importância da ficção na discussão de ideias. A literatura quer-se amiúde provocadora, capaz de nos interpelar e fazer pensar, pois por vezes obriga-nos a questionar a realidade, a pôr em causa noções e até valores, a concordar ou a discordar, a clarificar e a esclarecer conceitos e preconceitos. Flaubert fê-lo em “Madame Bovary”, Eça em “O Crime do Padre Amaro”, Orwell em “1984” e “Animal Farm”, D.H. Lawrence em “O Amante de Lady Chaterlley”, Saramago em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Caim”.

Os debates suscitados pela literatura têm tendência a ser apaixonados, e este a que assistimos não escapa à regra. Nada de anormal, pois, nas reações que os meus dois últimos romances têm suscitado. Já sei que vão aproveitar para dizer “olhem para ele, a equiparar-se a Eça e a Saramago e a Orwell” e mais não sei quê, mas é evidente que não tenho a menor pretensão de me comparar. Se os menciono é apenas para sublinhar que é normal os romances desafiarem consensos e suscitarem polémica. Já aconteceu no passado, está a acontecer agora e acontecerá no futuro. Ainda bem.

A isso há a acrescentar o facto de que estamos a lidar com conceitos que não são rigorosos nem consensuais, nem sequer entre os académicos. O que é exatamente o marxismo? É unicamente a tese inicial de Marx e Engels? As sucessivas revisões, protagonizadas por Bernstein, Kautsky, Sorel, Bauer, Lenine, Trotsky, Estaline, Mao e tantos outros, apresentando tantas e cada vez maiores diferenças entre elas e cada uma a reivindicar-se a legítima sucessora, podem ser consideradas marxismos? O que é o leninismo? O leninismo prevê a passagem direta do feudalismo para comunismo, como defendia Lenine até certa altura, ou prevê a fase intermediária do capitalismo, como Lenine pareceu defender quando posteriormente criou a NEP? E o que é o fascismo? Até que ponto um revisionismo ainda é marxista e a partir de que ponto deixa de o ser? A verdade é que nem os académicos se entendem sobre todas estas definições e catalogações.

O terreno é, por conseguinte, fértil para discussão. Encaro com naturalidade reações exaltadas de pessoas que tenham fé no sistema de ideias que qualquer livro coloque em causa, quer se trate de um sistema de natureza moral, religiosa ou ideológica, até porque os “crentes”, por assim dizer, têm um investimento emocional em tais assuntos e não é impunemente que se toca neles. De resto, conheci essa faceta pessoalmente quando o meu romance “O Último Segredo” questionou o Cristo apresentado aos fiéis e foi criticado com violência pela Igreja.

De todas as intervenções neste debate, a única que verdadeiramente me surpreendeu foi a do historiador António Araújo. Quando leio o texto de um académico, confesso estar mais à espera de uma exposição desapaixonada, lógica e estruturada, não de um panfleto inflamado com expressões a roçar o acinte (“tóxico”, “mitómano”, “pavorosa bibliografia”, etc.). Os debates intelectuais requerem elevação e podemos estar em desacordo sobre as ideias sem andarmos a achincalhar-nos uns aos outros. Poderia aliás neste particular António Araújo aprender com Francisco Louçã, que também me dirigiu um texto muito crítico, mas com elegância, graça e inteligência.

Agora as questões de substância, começando pelas acessórias.

António Araújo diz que num recente artigo que assinei para o “Público sustentei” que “o ‘fascismo alemão’ se chamava ‘nacional-socialismo’ por uma razão muito simples: o sufixo ‘socialismo’ significa que o nazismo é um movimento de origem marxista.” Além de ser uma tentativa pouco hábil de desviar a conversa para o nazismo, não me parece correto pôr-me na boca (ou no teclado) afirmações que não produzi. A associação entre socialismo e nacionalismo foi pela primeira vez feita pelo marxista Otto Bauer e a minha referência ao nacional-socialismo em fecho de artigo serviu para lembrar que a associação entre as duas palavras não é um acaso. Os fascistas opunham-se aos marxistas por vários motivos, mas não devido ao socialismo, que perfilhavam na versão nacionalista como o próprio Mussolini esclareceu e que consta da expressão nacional-socialismo.

Quanto às origens do nazismo, elas são variadas e tema de uma outra discussão que não me parece caber aqui. Mencionei numa entrevista ao “i” a eugenia como desempenhando um importantíssimo papel e Francisco Louçã, com a fineza e argúcia que lhe reconheço, logo insinuou haver aí uma contradição — ou o nazismo tinha as origens no marxismo ou na eugenia. Ora, as origens de um sistema de pensamento são em geral múltiplas e variadas, como acontece com o nazismo, sendo que esta ideologia não foi buscar a questão racial ao fascismo, mas à eugenia então em voga e ainda ao esoterismo e a tradições volkische alemãs.

Mas isso é outra conversa que nos afasta da questão central: tem ou não o fascismo origem no marxismo? Os críticos continuam sem desmentir os factos que expus na minha obra e que sucintamente mencionei no meu artigo no “Público” sobre este assunto. António Araújo acha que fiz aí uma “amálgama confusa de referências e factos históricos”, sem aliás negar um único desses factos e referências.

Devo dizer que se há alguma coisa de que me orgulho é de escrever de uma forma clara, mas se António Araújo ficou confuso vou fazer um esforço de ser ainda mais claro e assinalar esquematicamente os principais pontos da viagem intelectual do marxismo para o fascismo, um percurso feito em etapas, com sucessivas mutações, revisões e sínteses.

1. O marxista Georges Sorel defendeu que a revolução do proletariado prevista por Marx e Engels teria de ser provocada por uma vanguarda com recurso à violência.

2. A ideia de Sorel foi acolhida por alguns movimentos marxistas, como os bolcheviques na Rússia e os sindicalistas revolucionários em Itália.

3. O marxista Otto Bauer concluiu que o sentimento de nação era mais galvanizador do proletariado do que o sentimento de classe e propôs que se incutisse nacionalismo nos operários para os convencer a derrubar o capitalismo.

4. As ideias de Bauer entraram em Itália pela pena do marxista Roberto Michels e foram adotadas pelos sin- dicalistas revolucionários de Labriola.

5. Mussolini era um marxista elogiado por Lenine e diretor do “Avanti!”, órgão oficial do partido socialista italiano. Descreveu Marx como “o maior teórico do socialismo” e o marxismo como “a doutrina científica da revolução das classes”.

6. O entusiasmo manifestado em 1911 pelos operários italianos com as vitórias de Itália na guerra ítalo-otomana pela Tripolitânia convenceram Mussolini de que, de facto, o nacionalismo galvanizava mais os operários do que o conceito de classe.

7. Quando a Grande Guerra começou, em 1914, os sindicalistas revolucionários quiseram que a Itália entrasse no conflito pois acreditavam que seria ele que levaria o proletariado a desencadear a revolução. Ou seja, a guerra era revolucionária.
8. A 1 de outubro de 1914 os socialistas pró-guerra criaram o Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, o primeiro movimento fascista.

9. Mussolini começou por se manter fiel à linha do partido socialista italiano e opor-se à entrada de Itália na guerra, mas acabou por aderir às ideias dos sindicalistas revolucionários e advogar a guerra (a exemplo do que faziam os marxistas alemães, franceses e britânicos), o que lhe valeu a saída do partido e a adesão ao Fascio.

10. Depois da guerra, Mussolini e os sindicalistas revolucionários pró-guerra regressaram a casa e enfrentaram a hostilidade dos socialistas antiguerra.

11. Os socialistas pró-guerra empenharam-se então nos Fascios Italianos de Combate, que misturava nacionalismo com socialismo e juntava outros ex-combatentes, incluindo os arditi.

12. Os Fascios Italianos de Combate reivindicaram logo em 1919 o salário mínimo, o horário laboral de oito horas, o direito de voto para as mulheres, a participação dos trabalhadores na gestão das fábricas, a reforma aos 55 anos e a confiscação dos bens das congregações religiosas, reivindicações de clara origem marxista.

13. Os fascistas estabeleceram que a luta de classes não fazia sentido numa nação proletária (a Itália) que era explorada por nações capitalistas, e que, sendo a nação a “classe das classes”, a luta de classes apenas a enfraqueceria, pelo que em vez de luta teria de haver cooperação entre classes.

14. O Biennio Rosso de 1919-1920, com ocupações selvagens de fábricas e propriedades rurais, agravou o antagonismo entre as duas fações, ao ponto de os sindicalistas revolucionários evoluírem ainda mais e se apresentarem abertamente como sindicalistas nacionalistas e antimarxistas.

15. Mussolini esclareceu que o fascismo se opunha ao marxismo não por este ser socialista, mas por ser antinacional.

A pergunta é muito simples: qual destes pontos é falso? Como nenhum deles foi desmentido, presumo que sejam todos dados como verdadeiros. António Araújo limitou-se a argumentar que a exposição destes factos “pode conduzir a conclusões erradas”. Conclusões erradas? Não. Os factos conduzem às conclusões certas — e esse é que é o problema.

Que os sindicalistas revolucionários, provenientes do partido socialista italiano marxista, estão na génese do fascismo é um facto indesmentível. Historiadores como Sternhell, Sznajder e Ashéri, depois de passarem centenas de páginas de “Naissance de l’idéologie fasciste” a analisarem os sucessivos revisionismos que a partir de uma corrente marxista criaram o fascismo, não hesitam em dizer que “é o sindicalismo revolucionário que fornece ao fascismo nascente o seu conteúdo ideológico.” O mesmo constatou James Gregor em Marxism, Fascism and Totalitarianism. “O apelo de Mussolini ao sentimento nacional (...) baseia-se num corpo de literatura no qual Mussolini estava familiarizado — literatura essencialmente marxista na origem”, escreveu este historiador, concluindo: “Por 1925, tanto o leninismo como o fascismo, variantes do marxismo, tinham criado sistemas políticos e económicos que partilhavam propriedades singulares” (itálico meu). Está claro?

Como a questão das origens marxistas do fascismo cria desconforto, pois limitei-me a dizer uma verdade inconveniente, procurou-se a todo o custo transportar o debate para a fase madura do movimento fascista, insistindo-se que o fascismo não era marxista (como se eu alguma vez tivesse defendido que era). Estou de acordo que na sua fase madura não era — mas é uma mera opinião.

Há historiadores que consideram que o fascismo, mesmo nessa fase quando já se declarava antimarxista, continuava a ser uma corrente marxista revisionista. Acham esses historiadores que não existe um marxismo mas muitos marxismos, uns mais revisionistas do que outros em relação à tese original de Marx e Engels, e que o fascismo é apenas uma das versões mais heréticas do marxismo. Ainda que aceitando a legitimidade de tal conclusão e reconhecendo que as duas correntes mantinham de facto pontos em comum, os argumentos aduzidos não me parecem convincentes, razão pela qual não acho, nem nunca afirmei, que na sua fase madura o fascismo fosse marxista.

O que eu afirmei, e mantenho, é que as origens do fascismo estão no marxismo. Depois de proclamar que julgo ter feito “descobertas revolucionárias, assombrosas” sobre o assunto, António Araújo constatou, e referindo-se a mim, que afinal... afinal... “nada apresenta de novo”. Ah! Estamos de acordo! O estabelecimento do marxismo como origem do fascismo não é de facto novo, pois a ligação é feita pelos próprios historiadores, não por mim. Quando digo que estas matérias são novas, são-no apenas para o público em geral (e pelos vistos também para alguns “intelectuais” da nossa praça), que só agora deve ter ouvido dizer que Mussolini era originalmente um marxista elogiado por Lenine ou que o fascismo tem as suas origens no marxismo. Como sempre, sou um divulgador — e eficaz, como se vê.

Então qual a prova dos factos? Ao fim de toda uma esforçada argumentação a expor dados que nunca pus em causa e disfarçando com graçolas sobre as influências de Newton no nazismo e penáltis do Beira-Mar, e ainda alusões despropositadas à Wikipedia, que pelos vistos é uma das suas referências bibliográficas, e alegando que isso não quer dizer nada “do ponto de vista historiográfico ou poliotológico”, António Araújo lá acabou por reconhecer que “dizer que ‘o fascismo tem origem no marxismo’ estará correto, num certo sentido”.

Ah!