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Pedro Rebelo de Sousa

O meu irmão Marcelo

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No dia em que Marcelo tomou posse, Pedro Rebelo de Sousa (de gabardina beije), assitiu à chegada do novo Presidente a Belém

O advogado Pedro Rebelo de Sousa escreve sobre o Presidente da República no Dia dos Irmãos

Falar de um irmão é falar um pouco de nós. É falar de um irmão no contexto de uma família católica, sem conservadorismos, onde os progenitores tentaram concretizar algo que não tiveram — um lar feliz. Uma relação de clã muito cioso de afetos e solidariedade, em que o “amor ao próximo” era o esteio para as relações com terceiros; e outro vetor matricial era criar cidadãos do mundo com amor à pátria e orgulho na lusofonia.

É lembrar a distância do mais velho, protetor e líder das brincadeiras, muitas dominadas por peculiar pendor político — a invasão simulada do “Santa Maria”, as contendas na autodeterminação argelina etc… Subjacente, creio, estava um sentido de consciência cívica e patriótica latente.

Sempre bom aluno, era o paradigma (nem sempre cómodo) que guiava o nosso desempenho escolar. Recordo o carinho da oferta dos álbuns do “Asterix” no dia em que saíam e a paciência para as minhas insónias adolescentes, onde me deixava a ouvir o seu “declinar” das páginas das sebentas a preparar os exames. Será por isso que escolhi Direito? Era também o guia nas viagens familiares de carro à Europa e seus locais históricos.

Vem, em 1967, Moçambique, com a distância a testar a saudade até aí nunca sentida, e as cumplicidades com o momento único ali vivido pelo território e pela família. Marcelo ajudava a descodificar o inevitável e o tardio nas entrelinhas do diálogo paterno.Na complementaridade com o irmão António (mais próximo de mim pela idade e um ser de inteligência superior), acabámos por ver nele o wise young man que nos inspirava.

Marcelismo, namoros, casamento do irmão mais velho, Expresso, SEDES, necessidade de abertura do sistema, nele encontrei apoio para prefaciar o que a censura proibiria — o “Contributo para o estudo das eleições para Assembleia Nacional”, a ser lançado nas vésperas do ato eleitoral de 1973, defendendo a abertura pluripartidária.

Abril veio e não consegui identificar-me com a adesão de Marcelo e António ao PPD. Cético sobre o devir de um país em convulsão e no meio da Faculdade de Direito de Lisboa em caos, tive o meu último exame em grupo — curiosamente, como já confessou, o professor Marcelo decidiu discriminar, dando-me um valor abaixo dos demais membros do grupo, sendo que o trabalho assentou essencialmente no meu esforço e de outro colega. Foi uma mostra de independência: ser e parecer.

Depois, separação de dez anos no Brasil e cinco em Nova Iorque, sempre pautados por visitas recíprocas e contactos epistolares. Crescia o respeito recíproco e a constatação de Marcelo ser uma estrela cintilante. Os meus filhos ansiavam pelas férias em Portugal — a parcela passada com o tio Marcelo era o reino da maior liberdade.

Em torno do objetivo de voltar a congregar o clã, os três irmãos, avós e filhos retornaram ao convívio diário em Lisboa na década de 90. Foram os dez anos finais dos pais, vividos intensamente. Marcelo era, no cenário nacional, a par de António Guterres no quadrante socialista, aquele que, para as gerações dos anos 60 e 70, representava uma completude e abrangência dificilmente igualáveis. O consenso à volta da sua craveira intelectual, estatura humanística, cultura polifacetada, sentido patriótico e conhecimento de Portugal, a par de um percurso político peculiar fez-me vibrar ao vê-lo eleito Presidente, não só como irmão, sobretudo como português.

No Dia dos Irmãos, 31 de maio, eis o meu testemunho!