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Expresso

Crónica do benfiquista Henrique Raposo: Não gostar de perder

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O meu benfiquismo foi desde sempre marcado pelo trauma das Antas. O Porto era Sodoma, Gomorra, Babilónia e Niníve numa só cidade. Assim que passavam a linha do Douro, os jogadores do Benfica eram invadidos por um sentimento de impotência inexplicável. Eram como Jonas (o profeta bíblico, não o jogador): achavam que era impossível vergar os pagãos que vestem de azul e branco. É por isto que me fazia impressão a conversa do meu avô sobre o tempo em que o Benfica levava pancada do Sporting. Se o Porto tinha o bombo de Paulinho Santos, parece que o Sporting tinha a música celestial de Cinco Violinos. Investiguei e - sim senhora - existiu de facto uma era em que o Sporting ganhou títulos em barda. Mas, apesar da confirmação empírica, continuo a achar que esse domínio leonino faz parte da fantasia e não da realidade.

Pressupor conquistas do Sporting exige da nossa parte um esforço mental atroz, é como ver o mundo ao contrário, é fazer história virtual, é inventar futuros alternativos. Assumir que o Sporting pode ganhar é o mesmo que imaginar um mundo onde franceses conseguem vencer uma guerra aos alemães ou um mundo onde os alemães conseguem fazer comida remotamente saborosa. Ora, num ato de profunda generosidade, costumo dizer à minha filha que ela até pode ser do FC Porto (sempre ganha de vez em quando), não pode é ser do Sporting. Repare-se que o problema - a meu ver - não é o Sporting perder. O problema é a arrogância moral do lagarto, que está sempre a projetar vitórias morais ou martírios às mãos de teorias da conspiração. Ele é o lero-lero de que têm o melhor futebol e que, por isso, são os verdadeiros campeões. Ele é a constante vitimização às mãos de um “sistema” que se reúne num sótão escuro só para tramar o Sporting; tiveram finalmente um futebol aceitável, mas passaram mais tempo a falar de árbitros do que da classe de João Mário. Ele é a mania de que são os melhores adeptos do mundo.

Não, não são. Aliás, as derrotas do Sporting começam precisamente nesta arrogância dos seus adeptos, que só conseguem criticar o exterior, nunca o interior. Às vezes, vejo bola com amigos sportinguistas e percebo o porquê do seu fracasso. Eles são demasiado fofinhos com os seus próprios jogadores, nunca assobiam, nunca punem, não são exigentes. Um sportinguista aplaude um central só porque ele cortou uma bola. O benfiquista aplaude o central se ele subir no terreno para marcar golo. E esta diferente visão do jogo está relacionada com a grande diferença: a relação com a derrota. Quando sofre um golo, quando perde, o sportinguista aceita a situação com naturalidade. Quando sofre um golo, quando perde, o benfiquista fica com uma azia insuportável. O sportinguista gosta de ganhar. Eu também. Mas o que me define é não suportar perder. Acabei de ver os dois jogos decisivos num espaço partilhado por benfiquistas e sportinguistas. Quando se tornou evidente que o Benfica era campeão (3-0), os sportinguistas não saíram do local, ficaram até ao fim e, em consequência, foram devidamente humilhados. Nós nunca suportaríamos semelhante humilhação. Os sportinguistas já gostam de ganhar; agora só precisam de odiar a derrota.