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Prémio Carlos Magno para o Papa Francisco: Por uma Europa Unida

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MAX ROSSI/REUTERS

Presidentes do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia elogiam a vista do Sumo Pontífice a Lesbos e a exortação à União para atuar

Martin Schulz e Jean-Claude Juncker

A atribuição este ano do Prémio Carlos Magno ao Papa Francisco constitui uma decisão muito especial. Alguns poderão ironicamente pensar que a União Europeia deve estar em muito má forma para necessitar de ajuda papal e outros poderão interrogar-se por que razão um Papa argentino é agraciado com um prémio que se destina a distinguir os esforços em prol da unificação pacífica da Europa. Estamos convictos de que o Papa Francisco foi merecedor deste prémio por ter endereçado a sua mensagem de esperança à Europa.

Talvez seja necessário que um argentino observe, com o olhar de alguém que está de fora, aquilo que, a nós Europeus, nos une no nosso âmago para tomarmos consciência da nossa força. Numa época em que as palavras "Europa" e "crise" são, com excessiva frequência, colocadas no mesmo plano, rapidamente esquecemos o que a Europa já conseguiu construir e aquilo que ainda é capaz de fazer. Os nossos pais e as nossas mães construíram, a partir das ruínas do pós-guerra, um projeto alicerçado na paz e na humanidade. Renegaram conscientemente a propaganda belicista, o desejo de destruição e a desumanidade que caracterizaram a primeira metade do século XX. Uniram, sim, as suas forças a favor de uma Europa na qual não houvesse vitoriosos nem derrotados mas apenas vencedores. Ao fazê-lo, extraíram ensinamentos da História. Sempre que nós Europeus nos defrontamos no passado, as consequências foram desastrosas para todos; pelo contrário, sempre que nos mantivemos unidos, todos beneficiamos.

A alma da Europa reside nos seus valores. Quando o Papa Francisco nos recorda que uma Europa que cuida, defende e protege cada ser humano é um ponto de referência valioso para toda a Humanidade, está a lembrar-nos, a nós Europeus, estes valores. Precisamente num momento em que, na Europa, as cimeiras de emergência se sucedem a um ritmo vertiginoso e em que as pessoas se interrogam às vezes se, na Europa, ainda partilhamos os mesmos valores, torna-se tanto mais importante lembrar a nossa força comum. Nesta era da globalização, necessitamos mais do que nunca uns dos outros para fazer face aos três desafios que enfrentamos atualmente:

Em primeiro lugar, preservar o nosso estilo de vida europeu. Num mundo cada vez mais interligado, em que emergem de forma imparável outros países e regiões, temos de unir os nossos esforços. A quota da Europa e das suas nações no desempenho económico mundial e na população mundial está a diminuir. Quem, perante este panorama, pense que chegou a hora dos Estados nacionais, perdeu a noção da realidade. Poderemos não gostar desta evolução mas não nos será dado invertê-la. Podemos, sim, moldá-la à nossa visão, se permanecermos unidos. Um Estado-Membro, por mais influente que seja, não pode, por si só, impor os seus interesses e os seus valores. Na competição entre as potências mundiais, só unidos nos será dado participar na definição das regras do jogo.

Pelas razões aduzidas, vale a pena mantermo-nos unidos. Está em jogo o nosso modelo social europeu, que assenta na democracia, no Estado de direito, na solidariedade e nos direitos humanos. Na Europa respeitamos os direitos civis, a liberdade de imprensa e o direito à greve, não se pratica a tortura, não existe trabalho infantil nem pena de morte. A nossa força económica advém do mercado interno cuja pujança nos permitirá consolidar e melhorar uma ordem social europeia baseada nos nossos valores.

Em segundo lugar, para garantir a segurança e a paz. Se nós, Europeus, atuarmos em conjunto, muito estará ao nosso alcance. Tal ficou demonstrado pelo acordo nuclear com o Irão ou pelo acordo de Paris sobre as alterações climáticas. Estes exemplos deveriam incitar-nos a atuar em conjunto e a assumir uma maior responsabilidade a nível mundial. É que o mundo se está a tornar cada vez mais incompreensível e, para alguns, ainda mais perigoso. Os Estados Unidos da América reduzem cada vez mais o seu empenho a nível internacional, a Rússia comporta-se de forma cada vez mais agressiva e a China está a ganhar influência na Ásia Oriental. Conflitos e guerras têm lugar na nossa vizinhança imediata: na Síria morrem diariamente pessoas e a situação no Leste da Ucrânia continua preocupante. Os atentados, tanto de Bruxelas como de Lahore, de Istambul como de Paris, recordaram-nos de forma dolorosa que o terrorismo islâmico constitui uma ameaça global.

Perante esta realidade mundial, não nos podemos permitir desperdiçar as nossas forças em orgulhos nacionais, temos de falar a uma só voz, só assim poderemos multiplicar a nossa influência.

Em terceiro lugar, gerir a migração. Hoje em dia fogem mais pessoas de guerras, conflitos e perseguição do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. Homens, mulheres e crianças vêm para a Europa em busca de proteção contra a brutalidade do Estado Islâmico e as bombas de barril de Bashar al-Assad. O desafio é de tal ordem que nenhum Estado-Membro pode, por si só, vencê-lo. Mas juntos, enquanto continente com mais de 500 milhões de habitantes, podemos partilhar esta responsabilidade.

A visita do Papa Francisco a Lesbos foi mais do que um gesto simbólico. O Papa acolheu doze refugiados sírios, agindo assim de forma mais concreta e mais solidária do que muitos Estados-Membros da UE. Ao fazê-lo, o Papa apelou-nos a agir. Solidariedade e amor ao próximo não são mera retórica de conveniência: são valores que, para tal, têm de ser vividos.

É precisamente o que fazem milhares de voluntários todos os dias ao ajudarem, amiúde até ao seu próprio esgotamento, a proteger as pessoas do terror, da guerra e da violência. Trazem alimentos aos refugiados, preocupam-se em que estes tenham algo para vestir e lecionam as crianças para lhes garantir um futuro. Estes voluntários mostram aos refugiados e ao mundo o rosto humano da Europa.

Tal é também tarefa da política, sobretudo num continente que, ao longo da sua História, já foi testemunha de muitos muros e cercas, fossos e fronteiras. Contam-se entre as nossas conquistas o facto de termos superado estas divisões em benefício da paz e do bem estar. Cada um de nós tira proveito desta realidade quando, nomeadamente, viaja ou efetua transações além fronteiras.

O Papa Francisco deposita, a este respeito, grande confiança em nós. Espera que tiremos maior proveito do nosso potencial, pois a nossa maneira europeia de trabalhar em conjunto e de construir pontes entre pessoas e países já nos permitiu ultrapassar a cisão do continente. Agora, mais do que nunca, esta nossa qualidade ser-nos-á de grande utilidade, tendo em conta a multiplicidade de crises que enfrentamos atualmente. As condições para tal são, porventura, melhores do que julgamos. Seja como for, o Papa encoraja-nos fortemente, ao afirmar: «As dificuldades podem tornar-se poderosos promotores da unificação». Chegou, por isso, o momento de os Europeus se erguerem e de nós, em conjunto, lutarmos pela nossa Europa comum.

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