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E agora OPA

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O diretor do Expresso aborda em artigo de opinião a oferta pública de aquisição que o Caixabank espanhol lançou ao BPI e diz que Isabel dos Santos “não é mole, e às hostilidades há de responder com hostilidades”

Não era uma bomba relógio, era um relógio bomba. Quando acabou a corda, não acabou o acordo, o governo interveio a favor dos espanhóis e contra os angolanos no BPI, no que pode ser colateralmente também contra os do BCP. Se Isabel dos Santos não voltar atrás, é a grande perdedora no conflito no BPI. A não ser que ande para a frente.

Foram meses de tensões, semanas de negociações e dias de separações. La Caixa e Isabel dos Santos chegaram a acertar condições para que os espanhóis ficassem donos do BPI. Falhou. Agora OPA.

A OPA é má para Isabel dos Santos, primeiro porque é lançada a um preço inferior ao que o Caixabank propunha no acordo que esteve em cima da mesa. Mas sobretudo porque afasta a empresária sem ser nos seus termos e rodeada de adversários: o Caixabank, que perdeu a paciência negocial; o governo português, que aprovou um diploma para desblindar estatutos de bancos com esse propósito; o Banco de Portugal, que chumbou a lista dos seus administradores para o BIC; o Banco Central Europeu, intolerante para a ligação entre bancos europeus e angolanos; o próprio BPI, que no fim pode nem vender o angolano BFA pois, uma vez integrado no gigante espanhol, essa exposição dilui-se e torna-se tolerável pelo Banco Central Europeu.

Sabendo isto, o La Caixa está disponível para que Isabel dos Santos regresse às negociações. Se assim não for, a OPA avança como oferta hostil. E a não ser que Isabel dos Santos lance uma OPA alternativa, que no entanto terá dificuldade em financiar, a empresária vai perder - a liderança do negócio e influência.

A decisão do governo de aprovar legislação que acabe com as desblindagens de estatutos dos bancos é mais suave do que a versão inicial. Depende de proposta do Conselho de Administração de cada instituição (há oito em Portugal) e passa por submissão ao Banco de Portugal de planos de cinco anos de "trancas" nos poderes de voto. Mesmo assim, esta desblindagem vai facilitar operações semelhantes no BCP, ou seja, entradas de acionistas contra o poder da Sonangol. Pelo caminho pode bem ficar o interesse do banco de Nuno Amado pelo Novo Banco, que está à venda e tem no BPI um interessado.

Falta saber a reação de Angola. Primeiro-ministro e Presidente da República não quiseram hostilizar os africanos mas o diploma contra as desblindagens não é outra coisa. Isabel dos Santos tem uma OPA hostil, tem diploma do governo hostil e tem o BCE hostil, que há de ter mandado o Banco de Portugal vetar nomes no BIC. Mas a empresária não é mole, e às hostilidades há de responder com hostilidades. O BPI, esse, tem a caminha feita. Em espanhol.