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Opinião

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Uma líder muito pop

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O discurso de Assunção Cristas sobre a sua história de vida e a música com que subiu ao palco na hora da consagração são todo um programa

Comecemos pelo óbvio: Assunção Cristas não é Paulo Portas. O ex-líder saiu ao fim de 16 anos de liderança e sete anos de governação - e os números, neste caso, são uma boa medida da capacidade que tem e do sucesso que alcançou num partido com uma história que não é assim tão pródiga em pontos altos. Mas Portas conseguiu mais do que o desempenho contabilizável: impôs-se como um dos solistas mais virtuosos da política portuguesa pós-25 de abril e várias vezes esse virtuosismo condicionou o jogo, tanto na sua encarnação como jornalista-comentador-diretor d'O Independente, como na sua reinvenção como líder do CDS e governante. O seu discurso de despedida no sábado, com o instinto apurado e os soundbites na medida certa, foi só a sua forma de nos lembrar que sai de cena mas não perdeu o jeito.

Voltando ao óbvio, Cristas sabe, melhor do que ninguém, que não é Portas. Esta constatação acarta vantagens e desvantagens. Não, Assunção não tem o faro político aguçado e treinado de Portas, nem o seu talento para fazer títulos, nem o seu conhecimento de como pensam os jornalistas, nem o seu traquejo de análise, antecipação e cenarização. Certo.

Mas Assunção tem muito que Paulo não tinha: tem uma frescura que o ex-líder há muito perdeu. Tem um estilo terra-a-terra simultaneamente genuíno e pensado. Tem a desenvoltura da mãe-de-família-e-mulher-trabalhadora que sabe que tem de orientar o jantar e o partido. Tem quatro filhos, e um marido, e os pais, e as irmãs, e o irmão, e os sobrinhos, que aparecem no final do congresso. Tudo somado dá uma história que Assunção faz questão de contar, porque sabe que é uma história com que muitos se podem identificar. Isso, Portas nunca teve. A sério: algum eleitor se identificava com a história de vida do menino queque que cresceu a pensar em política, aos 15 anos já era processado pelo Presidente da República e aos 25 dirigia o jornal que aterrorizava uma maioria absoluta? Pois...

Assunção Cristas pode não ter o talento de Portas para frases assassinas, e quem o admirava por isso (sobretudo jornalistas, políticos e outros viciados no House of Cards - que, por muito influentes que sejam, não constituem um enorme pecúlio eleitoral...) achará sempre que a nova líder do CDS sabe a pouco. Mas Cristas não entra sequer nesse campeonato. O jogo dela é outro: é o de quem, às oito da noite, entra nos telejornais, não para maçar as pessoas com a política, mas para lhes apresentar a pessoa. Já Marcelo tinha percebido o mesmo.

Sim, o jogo mudou. Já tinha mudado, aliás, e isso não dependeu nem de Portas nem da sua sucessora. Mas ambos perceberam os sinais: o desgaste do antigo líder, a volatilidade do eleitorado, a nova bipolarização provocada pela "geringonça", já não entre PSD e PS, mas entre esquerda e direita - e a hipótese, a que os centristas se agarram, de isso libertar os eleitores da pressão do voto útil. Já aconteceu à esquerda, com o BE, por que não há de acontecer à direita?, questionam-se no CDS. Basta que Cristas dê certo, como Catarina Martins deu certo - e as variáveis para que isso aconteça são tantas que é escusado tentar adivinhá-las já.

Todo o talento que ninguém regateia a Paulo Portas chegou-lhe para dar um choque vital a um partido que se podia ter extinguido mas, em vez disso, cresceu até aos 12%. Porém, por alguma razão, tendo superado a barreira psicológica dos dois dígitos, bateu no teto. E dificilmente conseguiria crescer mais com Portas.

Cristas começa agora o seu caminho, ao seu estilo. A música dos XX, que nos últimos anos foi a banda sonora das subidas de Portas ao palco, foi substituída, no momento da consagração da nova líder, pelo tema "Changes", de Faul & Wad Ad & Pnau. Como escolha musical, não é tão cool nem cosmopolita. Mas é mais pop e abana mais. Vale todo um programa.

A sucessora de Portas ambiciona um mercado eleitoral muito mais vasto do que aquele que o CDS teve até agora. O discurso em que contou a sua história foi, depreciativamente, classificado por alguns críticos como um "estilo Cristina Ferreira" - uma referência à apresentadora de televisão que, no dia da mulher, esteve no Parlamento precisamente a convite da nova líder centrista.

Ao querer alargar o espetro Cristas corre riscos? Claro que sim. O CDS de Portas já não era o partido dos quadros e dos professores-doutores do tempo de Freitas e Adriano, mas ainda não era o partido dos programas televisivos da manhã. Mas se tem a ambição de liderar um partido que fala para todos, porque quer ser como os grandes, Cristas terá de saber segurar os que já eram os seus eleitores tradicionais. Para isso, precisa de equipa. Mais do que Portas precisava (e até ele precisava). Necessita de um partido com vários rostos e de saber aproveitar as mais-valias de gente tão diferente como Nuno Melo, Adolfo Mesquita Nunes ou Cecília Meireles (para referir apenas os que escolheu para seus vice-presidentes). Ninguém disse que será fácil.

Ouvindo as críticas que este fim de semana eram feitas nos bastidores do congresso, não é óbvio que a comparação de Assunção Cristas com Cristina Ferreira seja necessariamente depreciativa. Afinal de contas, a apresentadora é uma das mulheres mais populares e, em certa medida, mais influentes do país. Não nas elites, é certo. Mas há mais país para além das elites. E mais votos.