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Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Dez lições para a vida a partir de 25 de janeiro ( e o adeus a Cavaco)

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1. Abstenção. Alguém faz alguma coisa?

O valor da abstenção nestas eleições não foi o mais elevado de sempre em Presidenciais. Em 2011 tinha sido maior. Mas foi de longe o maior valor de sempre numa primeira eleição para chefe do Estado (normalmente as reeleições têm menos competitividade e emoção e por isso menos gente vota). Se na primeira eleição de Marcelo, metade dos portugueses não votaram, como será daqui a cinco anos?

Posto isto, vamos ficar de braços cruzados? Perante mais um sinal de alerta não é hora de se pensar, debater e discutir sobre o que fazer? De se colocar em cima da mesa o voto eletrónico? Ou até a obrigatoriedade do voto?

2. Segunda volta

Esta foi a nona vez que os portugueses votaram em democracia para escolher um Presidente da República. Nos nove escrutínios, só por uma vez houve segunda volta, em 1986. Ou seja, apesar de o tema segunda volta ser recorrente (até por ajudar a dar emoção a uma eleição) a verdade é que a nossa história política mostra que é muito mais provável não haver uma segunda volta. Quase nunca há.

3. A derrota da esquerda

Muito se falou da derrota da esquerda nestas eleições. Factual, factual é que com a eleição de Marcelo a esquerda se arrisca seriamente a ficar vinte anos seguidos fora de Belém. O tempo de uma geração. A direita une-se. A esquerda divide-se. O resultado é este.

4. Belém humilhada

A candidatura de Maria de Belém surgiu como uma resposta de certos sectores do PS ao avanço de Sampaio da Nóvoa. O ex-reitor não se estava a afirmar, avançou a antiga presidente do PS. A sua campanha foi fraca. A última semana então foi verdadeiramente penosa. E vir fazer discursos ressabiados, arranjando culpados em meio mundo em vez de se olhar para as falhas próprias, não faz qualquer sentido. Não houve uma campanha de assassínio político. O que houve foi um suicídio político.

5. Costa derrotado?

António Costa já perdeu desde que é líder do PS três eleições. As regionais na Madeira, as legislativas e agora as presidenciais. Só que (e este “só que” é o decisivo aqui) as primeiras não contam para nada a nível nacional. Nas segundas, foi o que foi: Costa perdeu mas é hoje o primeiro-ministro. Nas presidenciais, Costa não se comprometeu excessivamente. Vê ser eleito alguém que lhe promete paz e não parou de apoiar o seu governo durante a campanha. E além disso vê a candidatura “de facção” que surgiu no PS impulsionada pelo sector mais próximo de Seguro ser verdadeiramente humilhada nas urnas. António Vitorino dizia que a vitória de Marcelo não vai tirar o sono a Costa. Eu digo mais: O PM tem razões para poder dormir bem tranquilo nos próximos tempos.

6. Marisa, o arraso

Há um ano, o Bloco estava em convulsão. Com uma liderança bicéfala e órfão de Louçã. Um ano depois, encontrou uma verdadeira líder, teve um excelente resultado nas legislativas, faz parte de um acordo de governação e agora teve o seu melhor resultado de sempre. Marisa Matias chegou aos dois dígitos e mais que duplicou a votação da candidatura vinda do PCP. Além do mais, com este resultado Marisa Matias confirma-se como uma política de primeira linha no seu partido. Vamos ouvir falar mais dela.

7. PCPzinho

Há um daqueles chavões na vida política nacional que diz que o eleitorado comunista é fiel e vota sempre no seu partido ou em quem o partido manda votar. Pois, esse mito acabou esta noite. Edgar Silva foi uma fraca escolha e um candidato fraco e apagado e o seu resultado é cerca de metade do que vale hoje o partido no País. Um alerta para quem manda no PCP: ou escolhem e apoiam candidaturas acertadas ou daqui em diante já perceberam que o seu eleitorado já não é assim tão fiel.

Há ainda outro ponto importante sobre o resultado do candidato do PCP. Tenho para mim que quanto mais fraco os comunistas estiverem nas urnas (ficaram atrás do BE nas legislativas e agora levaram uma abada) maior será a sua tentação para forçar a barra onde ainda acreditam ter força: na contestação social e nas ruas. Qual é o problema? É que se o fizerem enfraquecem o governo… que apoiam no Parlamento. Veremos como se comporta o PCP nos próximos tempos e se este resultado não pode acelerar a saída de Jerónimo.

8. Nóvoa veio para ficar?

O ex-reitor beneficiou de uma campanha muito profissional, com claro dedo de máquina partidária. Mas além disso Sampaio da Nóvoa foi crescendo com a campanha. Isso via-se e era notório. Como político vale hoje bastante mais do que há seis meses. Ao conseguir passar os vinte por cento dos votos e atingir um milhão de cruzinhas no seu nome, há uma questão que fica: o que fará Sampaio da Nóvoa com estes votos? Alguém acredita que vai voltar à universidade? Nãããããã…

9. Marcelo I

Ele não era o candidato natural da direita mas conseguiu ir afastando todos os opositores. Fez uma campanha diferente e por vezes até bizarra (para os moldes do que sempre se fez em Portugal), sem cartazes, sem dinheiro, sem partidos por trás. E, como muita gente constatou, sem grande mensagem política e centrando tudo no que chamou de campanha “dos afectos”. Olhe-se por onde se olhe, ganhou a aposta em toda a linha. Vai ser Presidente da República a partir de 9 de março. E no discurso de vitória que fez esta noite houve política e não foi pouca. Mostrou como quer ser diferente de Cavaco e incentivar acordos, consensos e uma cultura de diálogo e de pontes. E falou muito de justiça social. A própria forma como fez a campanha ajudou a acalmar o clima de ressentimento que se sentiu em muita direita nos últimos meses, depois das legislativas. Chega a Belém de mãos livres e com muito, muito poder. Ao contrário do que muitos pensam, não tenho dúvidas que Marcelo, que é um institucionalista, adoptará uma pose de Estado. E ajudará o atual governo. Pelo menos nos primeiros anos. O que não quer dizer que o “namoro” com Costa seja eterno…

10. Tino, a surpresa

Entre os candidatos que tiveram menos votos, destaque para Vitorino Silva, o calceteiro de Rans, que ficou claramente à frente de nomes com outra experiência política e partidária, como Paulo Morais (o seu discurso do “são todos corruptos” só lhe valeu dois por cento) e Henrique Neto.

E mais uma…

O fim de Cavaco e do cavaquismo

Este 24 de janeiro marca o fim político de Cavaco e do cavaquismo ao fim de três décadas em que foi absolutamente central na vida política nacional (ministro das Finanças com Sá Carneiro, dez anos primeiro-ministro, outros tantos em Belém). Cavaco deixa a presidência como o mais impopular chefe de Estado de sempre. Deixa poucas saudades e muito por culpa própria. Ao contrário de muita gente, não acho que Cavaco tenha decidido mal em nenhum dos momentos decisivos que teve de enfrentar (crise de 2011, irrevogável em 2013, pós-eleições em 2015). O grande, grande problema de Cavaco foi a absoluta descolagem que revelou face ao comum dos cidadãos. Repare-se que o grande trambolhão na sua popularidade deu-se quando em 2012, no pico da crise, disse que o que ganhava mal lhe dava para as despesas. Os portugueses, em aperto, não lhe perdoaram. Até Passos, o primeiro-ministro que aplicou a austeridade que aplicou, saiu do poder com muito mais capital político. Cavaco sai mal. Sai muito mal e sem conseguir terminar o mandato com dignidade.