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Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Portas não fica. E faz bem

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O anúncio esta segunda-feira à noite de Paulo Portas, perante os seus, de que vai deixar a liderança do partido, é uma boa notícia. E ao contrário do que possa parecer numa leitura imediatista, é uma boa notícia sobretudo para o CDS.

Portas sai, reconhecendo implicitamente que o ciclo de Costa provavelmente vai ser mais longo do que inicialmente se previa.

É verdade que a liderança de Portas no CDS/PP é irrepetível.

Quem lhe suceder não terá os seus dotes de oratória. O seu talento para o soundbyte. Nem sequer o killer instinct nos debates televisivos ou parlamentares. Quem lhe suceder viverá os primeiros largos tempos sempre com a sombra do antecessor a pairar: que não controla o partido como Portas controlava; que não domina a agenda como Portas dominava; que não fala como ele; que não escreve discursos como ele; que não marca a agenda como ele...

Enfim, que não passa de um clone. De um "Portas b", recauchutado, sem o talento da versão original.

Mas estes suspiros portistas, e hão de surgir muitos nos próximos tempos, são um erro político.

Porquê?

Primeiro, porque em democracia nenhum líder é insubstituível: O PS conseguiu a sua primeira maioria depois do afastamento do fundador e líder histórico. O PSD teve o mais longo período de poder depois do desaparecimento do seu carismático fundador. Os comunistas não declinaram irreversivelmente depois da saída de Cunhal e aí estão em pleno século XXI vivos e de boa saúde. O próprio CDS de Portas é um bom exemplo de como um partido sobrevive aos seus líderes históricos.

Depois, é difícil não concluir que o ciclo de liderança de Portas estava no fim. Ele foi líder na oposição. No poder. Na oposição. Novamente no poder. Agora, uma vez mais na oposição. O desgaste é inevitável. A frescura já não pode ser a mesma. Como escrevia o Filipe Santos Costa no Expresso Diário, quando Portas chegou a líder do CDS ainda Clinton era presidente dos EUA, ainda Mourinho era adjunto de Van Gaal no Barcelona, ainda nós fazíamos as contas em escudos.

Foi há uma eternidade.

Perpetuar esta liderança, ao estilo soviético, seria uma cedência mirífica a promessas de vitórias de curto prazo sem cuidar de olhar mais além.

Portas, aliás, já uma vez saiu da liderança.

Mas aí cometeu o erro de querer manter a mão na panela e controlar o ciclo seguinte. Agora não o pode mesmo fazer. E aí do líder que deixe que isso aconteça.

Pode ser doloroso, pode trazer dificuldades no curto prazo, mas há um CDS para lá do PP. Tem de haver. Irrevogavelmente.