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Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

Desta vez, o adeus de Portas é irrevogável

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Se houve alguém a quem o acordo das esquerdas bateu forte foi a Paulo Portas. Ele que é conhecido por ser um arguto jogador político, foi ultrapassado pela “mestria” negocial de António Costa que ao alinhar as esquerdas desalinhou a direita. E despedaçou o líder centrista.

Portas saiu arrasado da “derrota política”. Ganhou, mas perdeu. Atarantou-se. E pior, viu à sua frente o recomeçar de um filme que conhece de cor: passou à oposição com a perspetiva de ter de aguentar o barco num ciclo que pode ser longo. E que no cenário mais otimista terminará sempre com ele a ser número dois de um governo liderado por alguém com quem, muito provavelmente, acabaria por desafinar. Como aconteceu com Passos, com Santana, com Barroso.

Pesou demais o regresso ao Parlamento, ao lugar de deputado. Ao confronto com Costa. Às discussões partidárias, ao vota aqui e abstém-se ali. Guerras que agora parecem pequenas para quem andou nos altos voos da governação. Para quem anda nisto há demasiado tempo. Ao contrário de Passos Coelho, Portas é um líder antigo. Dezasseis anos. Já não há novidade. Nem para ele, nem para nós. Nem para o partido, que por mais que desminta, já fazia contas à sua saída.

Nas últimas semanas, Paulo Portas foi dando sinais de que tinha chegado a sua hora. A chamada de Adriano Moreira para o Conselho de Estado. A escolha da nova geração centrista para o confronto com o primeiro-ministro nos debates quinzenais. O chumbo ao Retificativo/Banif – sabendo ele que a comissão de inquérito será um palco importante para o partido. Ao mesmo tempo que quis garantir espaço de manobra e autonomia para o “novo CDS”, Portas ia delineando a sua saída de cena. Da cena partidária. E agora sim, parece ser irrevogável.

Portas fez bem em sair, salvaguarda o que ainda lhe resta de margem política. Continuar seria desgastar-se. A ligação ao PSD na governação é marca profunda demais. Diluiu a identidade ao CDS. E Portas sabe que se ficasse o seu espaço de manobra ficaria comprometido. Os projetos políticos que ainda tem seriam queimados no confronto com o seu passado de governante. Com o que fez. Mas acima de tudo com o que não fez. E houve muitas linhas vermelhas ultrapassadas.

É óbvio que há muitas críticas a fazer a Paulo Portas e às decisões que foi tomando na sua longa vida política, mas há também um elogio que não pode deixar de ser feito: o CDS que deixa é hoje um partido altamente qualificado e com uma nova geração de dirigentes muito acima da média. Agora é a vez deles. O CDS já não é o partido de um homem só.

Portas acabará por regressar. Como já se disse, tem sete vidas (senão mais), mas será que ainda lhe resta alguma para cumprir o velho sonho de um dia se candidatar à Presidência da República? É difícil, mas desde os tempos do Independente que Portas nos mostrou como é mestre em dar a volta ao texto.