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Expresso

Fim do intervalo de vinte minutos para sonhar

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Marcos Borga

O título parte de Raul Brandão, “escreveu na parede a lápis: intervalo de vinte minutos para sonhar”. O intervalo da campanha eleitoral acabou, Cavaco apagou com borracha o sonho a lápis. Que a economia estava bem, o emprego prosperando, que as contas públicas e externas estavam controladas. Mas o que era a salvação é afinal uma aflição. Livrámo-nos do último resgate, não nos livrámos do próximo. Acudam!

Percebe-se agora por que razão o Presidente da República não quis discursar no 5 de Outubro. Para Cavaco, o dia de reflexão não foi antes, foi depois das eleições. E assim bastaram dois dias para acordar quem quis dormir.

É “necessário assegurar a sustentabilidade da dívida pública, o equilíbrio das contas externas, a redução do endividamento para com o estrangeiro e a competitividade da nossa economia”. Então mas não estava a correr bem? É preciso uma “trajetória sustentável de crescimento da economia e criação de emprego, que permita a eliminação dos sacrifícios que foram exigidos aos portugueses e o combate às situações de pobreza.” Mas porque não disse isto há um mês? Para não condicionar a campanha mas condicionar o seu desfecho?

Cavaco Silva disse a verdade, a propaganda feita na campanha é que era mentira. O “Portugal, caso de sucesso” é uma história que inventámos para nós próprios, satisfazendo pelo caminho a frágil política de Bruxelas, que ainda esta segunda feira pediu... um acordo político para as pensões.

Fez-se muito em Portugal nos últimos quatro anos, o que nos levou à “saída limpa”, a aumentar exportações de forma espetacular e que aparecessem novos projetos e empresas. Mas aqui chegados continuamos dependentes de cortes de salários para baixar o défice, de reduzir pensões para equilibrar a Segurança Social, de impostos altos que aniquilam a economia. Dizê-lo não é uma crueldade para a coligação de Direita. A crueldade é sobre o povo. Abateram-se os portugueses, não se abateu a dívida. A pública; a privada; a externa.

Cavaco suplica um acordo entre o PS, PSD e CDS que traga estabilidade política e condições de governabilidade. Que evite um governo fraco e eleições antecipadas. Repete a proposta falhada de salvação nacional feita, e desfeita, em 2013. Teria sido bom ter havido esse acordo, não houve. Seria bom havê-lo agora, haverá? E serve para quê? Serve para prolongar cortes da despesa pública. Serve para reformar o mercado de trabalho. Serve para mudar a Constituição, se não na letra, no espírito. Serve para uma reforma da Segurança Social que corte pensões, atuais ou futuras, aumentando os anos de trabalho e incentivando poupanças no privado. Serve para tentar conseguir o que falhou nestes quatro anos: condições perenes de sustentabilidade das contas públicas que permitam finalmente baixar impostos para libertar os contribuintes do esbulho e a economia das algemas.

Passos Coelho e António Costa pareciam saber ou adivinhar o repto quando, no domingo, discursaram, na vitória de um e derrota do outro. O que disseram assenta na perfeição na proposta do Presidente. E os programas económicos que propuseram encaixam um no outro como duas peças de puzzle imperfeitas, não é preciso limar muito. O que não encaixa é o que disseram um do outro. O que não encaixa é o poder que António Costa perdeu no PS e que o PS perdeu no Parlamento.

Nenhum cenário pode ser excluído, mas o de constituir uma coligação governativa a três é muito mais improvável do que passar semanas a negociar um acordo parlamentar, que permita aprovar Orçamentos de Estado e inclua a reforma das pensões para resolver o buraco de 600 milhões que o governo se recusou a explicar na campanha. Daí talvez a explicação detalhada do caso sueco, feita num artigo de opinião ontem publicado, de dois consultores de Cavaco Silva. Só que Portugal não tem uma cultura de acordos políticos. O Pacto de Justiça, por exemplo: foi celebrado entre PS e PSD há uma dúzia de anos, para fazer a reforma estrutural do sistema. Foi rasgado pouco depois.

O que Cavaco Silva quer não é uma reforma do sistema político, é uma mudança de mentalidades dos partidos. A sua argumentação, e a dos seus conselheiros, tanto estimula um pacto entre PS/PSD/CDS como justifica um governo PS/PCP/BE, pois entre os 13 países europeus citados que são governados por pelo menos três partidos, quase metade são-no com partidos que não venceram as eleições. Só que juntar PS, BE, PCP e Cavaco é como juntar carbono, hidrogénio, oxigénio e nitrogénio: dá uma combinação química explosiva, nitrogénio político. E juntar PS, CDS e PSD é reduzir o espaço político de quem governa o país há 40 anos, o que dificilmente os partidos aceitarão, começando pelo esfrangalhado PS.

O Presidente da República endossou a negociação para o PSD e colocou o ónus da governabilidade e da estabilidade política no PS, que sintomaticamente foi o único dos maiores partidos que não comentou imediatamente a declaração do Presidente. Só com muito rasgo o PS não se deixará rasgar neste processo. Só com uma negociação complexa se conseguirá o acordo mínimo que evite eleições mais ou menos antecipadas. Fim do intervalo de vinte minutos para sonhar, acordámos nós para a realidade, acordarão eles chegar a acordo? Vão ser umas ricas semanas. Ou como escreve Raul Brandão, “e como eIe ficasse absorto, de olhar perdido, n’um esforço de imaginação para ver”…