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Denúncia

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A direita está a fazer uma campanha com a reconhecida eficácia da encenação.

A encenação devia ser sempre espuma, mas a história ensina que espuma permite deixar na sombra a realidade, sobretudo no mundo moderno da comunicação.

A essa eficácia deve contrapor-se não só a seriedade de um programa de governo estruturado economicamente- como o PS fez, e muito bem – mas a chamada de atenção, sem contemplações, para o que nos reservaria o futuro se a coligação de direita vencesse as eleições.

Essa chamada de atenção ultrapassa a dimensão das propostas dos vários partidos.

Essa chamada de atenção tem de ir fundo no que toca a uma linha ideológica de regressão civilizacional, escondida na tal eficácia da encenação.

Tem de ser posto em evidência que nunca, como hoje, a vitória da direita representa um perigo violentíssimo para conquistas basilares que se tornaram estruturantes de uma sociedade.

Tem de ser posto em evidência que se a direita ganhar as eleições vai, finalmente, esta direita, pôr em prática um desígnio ideológico que nos atinge na moral da cidade.

Se a direita vencer as eleições, o Estado social regressará ao ultrapassadíssimo Estado “guarda-noturno” do século XIX, um Estado que entrega cada um a si próprio e que se reserva ao mínimo de intervenção possível. A história provou o horror desta visão e, por isso mesmo, as Constituições modernas, como a nossa, assentam nos valores da dignidade da pessoa humana e na presença do Estado na realização do desenvolvimento social e económico, pressupostos da eficácia dos direitos fundamentais sociais que traduzem o enraizado Estado social.

Frases como “são as empresas que criam emprego” (Paulo Portas) não são apenas frases: são demissões.

No palco cénico do discurso da direita, capta-se o eleitorado, por exemplo no que toca à segurança social pública, provada e testada como boa e assente na solidariedade inter-geracional, com a expressão “livre escolha”. Ora, esta expressão não é apenas uma expressão: é a antecipação de um plano que arrasará o avanço histórico de um sistema, substituindo-o pela demissão, mais uma vez, do Estado: cada um por si, e a última fase da vida de cada um, resultará, então, da tal “livre escolha”, inevitavelmente um abandono de todos, porque o Estado se demite e regressa a “guarda-noturno”.

Quando se aprova há última hora uma regressão civilizacional em matéria de IVG, cuja legislação estava a ser aplicada com um sucesso que ninguém previu, sujeitando as mulheres ao terrorismo psicológico de serem acompanhadas por objetores de consciência e de as forçarem a consultas compulsivas (até agora inexistentes na ordem jurídica), o que se faz sair cá para fora é o “valor das taxas moderadoras”, escondendo um dos momentos mais degradantes desta legislatura.

A encenação não pode deixar de calar a denúncia: se a direita vencer as eleições, é provável que o consenso social em torno de uma lei que acabou com a morte das mulheres nos corredores da clandestinidade seja atacado por uma coligação que veste discretamente a roupa do movimento Tea Party (movimento radical do partido republicano) para amanhã acordarmos oito anos atrás.

Não são escolhas pontuais. É uma linha de acantonamento estratégico de grupos que merecia mais atenção. A diabolização dos funcionários públicos operada desde o início da anterior legislatura serve o plano de destruir o Estado como o conhecemos, porque essa classe profissional é o rosto do Estado social. Gente que foi alvo de mentiras sucessivas quanto ao seu alegado estatuto, gente que foi torturada nos serviços que concentraram os desaparecidos, sem substituição dos aposentados, gente que foi insultada, humilhada, porque a desmotivação também é uma arma.

Não são escolhas pontuais. É uma linha de acantonamento estratégico de grupos que merecia mais atenção. O particular extremismo do processo legislativo da co-adoção ou a notícia da doação de sangue por homossexuais que esconde que a discriminação não foi eliminada, mas acentuada, não é uma notícia, nem uma escolha isolada: é a antecipação da possibilidade de regressão na legislação, mais uma vez enraizada, em matéria de direitos LGBT, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não me admiraria que num cenário de vitória, a direita mais conservadora de que tenho memoria se atrevesse a reabrir um debate que está encerrado.

Para perceber isto tem de ser ler os sinais atrás da eficácia da encenação: a direita sabe da arte miserável de acantonar categorias de pessoas para depois lhes retirar a voz.

A denúncia é esta: se a direita chegasse ao poder finalmente ligaria as pontas todas que foi soltando e Portugal passaria a Estado mínimo, à cidade do desamparo, à normalização comportamental forçada de retrocesso civilizacional de décadas.

Quem quer travar este plano ideológico escondido na eficácia da encenação não pode ficar em casa e demitir-se da cidadania de votar, não pode dispersar os votos à esquerda dando força à direita.

O travão a fundo num caminho de regresso difícil só pode passar pelo PS.