Siga-nos

Perfil

Expresso

Porque não falas, Ronaldo?

  • 333

Um jornalista da CNN e Cristiano Ronaldo juntaram-se para uma entrevista:

Pergunta: Como é que o escândalo de corrupção na FIFA afeta a forma como joga? É algo que o preocupe?

Resposta: Quer que eu seja honesto? Não me preocupa nada. Faço o que tenho a fazer, dou tudo pelo meu clube. O resto não me interessa.

[…]

Pergunta: Não me diga que os jogadores não falam disto no balneário.

Resposta: Quer saber a verdade? Não falamos sobre isso.

[…]

Pergunta: Então, de que falam?

Resposta: Música, mulheres, moda, sapatos, malas, joias... quer que lhe faça a lista?

Pergunta: É difícil acreditar nisso. Cristiano, o mundo inteiro anda a falar nisso.

Resposta: Sim, mas eu não falo nisso.

[…]

Pergunta: Cristiano, uma das questões que se coloca é sobre o Mundial do Qatar. Muitas personalidades do desporto dizem que...

Resposta: Isto, isto é uma m****. Não posso falar assim. Isto é uma m****. Falar sobre a FIFA. E sobre o Qatar.... Estou-me a f****** para o Qatar. O que quer que faça? Fale do produto... ele fala-me da FIFA...

Cristiano Ronaldo queria falar da linha de auriculares e headphones que vai comercializar, e levou um par deles pendurados no pescoço para que ninguém se esquecesse de que era por eles que ele estava ali. Mas a conversa saiu do tom - e ele virou costas a quem lhe fazia perguntas.

Foi a segunda vez que Ronaldo fez isto no espaço de um mês e em nenhuma delas foi questionado sobre coisas que levam tipos como ele a aborrecer-se. Não lhe falaram das namoradas. Não lhe falaram dos carros. Não lhe falaram de dinheiro. Não lhe falaram sequer de Messi - e toda a gente sabe como ele fica quando lhe falam de Messi.

Falaram-lhe, sim, de Sergio Ramos, o capitão da equipa do clube que lhe paga €17 milhões por ano; e falaram-lhe, também, da corrupção na FIFA, onde estão registados os votos das suas três Bolas de Ouro e que tem um presidente que até gozou com ele.

Nessa altura, convém não esquecer, Ronaldo respondeu (ou responderam por ele) no Facebook.Porque aquilo dizia-lhe diretamente respeito. Porque havia um prémio para ganhar. E porque aquela era uma oportunidade para interpretar o papel do bonzinho injustiçado - e pôr Blatter do lado dos maus.

Aparentemente, o futebol que não passa pelos seus pés não lhe diz respeito. Nem a ele nem aos outros que estão nos balneário da moda e dos sapatos e das malas e das joias e da lista de trivialidades que se conversam enquanto tudo à volta está a cair de podre. O argumento dele é o do trabalhador que faz o que tem de fazer, recebe pelo que faz e não faz caso do que outros fazem. É um fazedor. De golos e de dinheiro.

Acontece que Ronaldo não é um trabalhador qualquer, nem um homem qualquer. Tem 107 milhões de fãs no Facebook, o equivalente à população da Alemanha e três vezes a nossa juntas, atrás dele. Lá, encontram as chuteiras novas, o equipamento xpto do patrocinador, o corte de cabelo, as fotografias com os amigos, o vídeo com o filho ao lado dele e o vídeo com o filho atrás dele a pedir para ser deixado em paz. São likes atrás de likes de força Ronaldo, estamos contigo Ronaldo, és o maior Ronaldo, e o mais bonito também, Ronaldo, não lhes ligues, Ronaldo, continua assim que vais longe, Ronaldo. Zero politiquices.

Ronaldo é a pessoa do planeta Terra com mais seguidores. Está à frente de Shakira, de Vin Diesel, de Eminem, da Coca-Cola, do Barcelona e do Real Madrid, de Rihanna, do YouTube, de Messi, de Will Smith e de Justin Bieber e de Katy Perry. E de Barack Obama, o presidente mais popular da História. A cara e o nome de Ronaldo são mais conhecidos do que os de qualquer ator de Hollywood e, não havendo medidor oficial, arrisco que Ronaldo pode ser o tipo mais reconhecido no mundo. Se não for, anda lá perto.

E isso significa duas coisas, poder e responsabilidade, e se para a primeira já está avisado, ainda ninguém o terá alertado para a segunda. Talvez Ronaldo precise de um momento Bob Dylan, de alguém que lhe diga que tem de fazer a diferença e deixar-se dos yé-yé, como Dylan disse a Lennon e aos Beatles.

Se critica Blatter quando este o ridiculariza, porque não critica a FIFA que corrompe e se deixa corromper quando ‘escolhe’ pôr jogadores a competir no Qatar com quarenta e tal graus à tarde e à sombra? Dizer que se está a f****** para o Mundial do Qatar é o mesmo que dizer para os outros se amanharem com isso, que 2022 é longe e ele não está a ir para novo. É egoísmo. E irresponsabilidade.

Não se pode estar dentro do sistema quando dá jeito e fora dele quando aborrece. Porque esse é um modo de vida confortável que não cola com a imagem do rapaz que deixou a Madeira e a pobreza e se tornou o maior na profissão dele à custa do talento e, sobretudo, do trabalho.

Ronaldo tem de falar. Por ele e pelos que ele representa.