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Opinião

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

O Ai Jesus e os energúmenos

As redes sociais estão para a publicidade como uma praga de gafanhotos para um campo de cereais. Destroem tudo o que lhes aparece à frente, de forma acéfala e em bando. Tanto fazem troça de campanhas absurdas ou tontas, como dos cartazes do PS, como obrigam a retirar do ar uma extraordinária promo de televisão, como era o caso da que a RTP fez para a Supertaça, totalmente centrada em Jorge Jesus. A promo era tão bem feita que a estupidez nacional não a conseguiu perceber.

Antes de prosseguir, uma curtíssima declaração de interesse. Trabalhei meia dúzia de meses com o Gonçalo Morais Leitão - o autor desta promo - nos primeiros anos da SIC. O trabalho dele era tão bom que foi imediatamente contratado por uma agência de publicidade, área onde fez uma excelente carreira. Há poucos anos foi o autor e apresentador de um dos melhores e mais originais programas da televisão portuguesa, “Os filhos da PUB” (SIC Radical). Nestes anos, falámos uma ou outra vez sobre o sonho que tinha de 'regressar' à televisão. A RTP soube agora agarrá-lo, melhorando de forma brutal a qualidade média das suas autopromoções (ou promos, como dizemos na nossa gíria). Trabalhei dezassete anos em televisão, sempre na SIC, e sei a importância que uma promo tem e como o risco e o golpe de asa podem fazer toda a diferença.

Foi com os mesmos olhos com que durante anos assisti a magníficos trabalhos na SIC e na SIC Notícias - alguns radicais e polémicos, e ainda bem porque a vida é curta - que espreitei a promo da RTP sobre a Supertaça, a tal do “Ai Jesus”. A promo não era boa, era excelente e corajosa. Esquecia os equilíbrios entre clubes e treinadores e passava a única mensagem que interessava a todos.

Não interessa se se é do Sporting, do Benfica, do Porto ou de outro clube qualquer. O que estava em causa nesta Supertaça era Jorge Jesus. E a autopromoção que a RTP fez era absolutamente brilhante no alvo e na forma. É claro que os energúmenos se incomodaram e que os clubes protestaram. É claro que as redes sociais se incendiaram. As manadas correm sempre juntas e na mesma direção.

A RTP fez mal em tirar a promo da Supertaça. Era a melhor em muito anos, era boa publicidade, bem feita, com estilo e com uma boa punch line: “a supertaça vai ser um Ai Jesus”. Viram o que aconteceu domingo? E não estou a falar do resultado, estou a falar do epicentro daquele jogo. Tudo girou à volta de Jesus, como era óbvio. A promo estava certa, quem deu cabo dela mostrou a tolerância da inquisição, a inteligência de uma parede e o estilo de um arquiteto de restaurante da Nacional 1.

Portugal detesta o risco e odeia quem pisa o risco. Este pequeno exemplo mostra como somos fracos de espírito. O jogo foi um “Ai Jesus”, como todos sabiam mas ninguém queria admitir. E a promo estava certa. Os energúmenos, bem, só estavam a ser eles próprios.