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Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Atenas delenda est

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YANNIS BEHRAKIS / Reuters

Um acordo para a Grécia foi conseguido já para lá da 17ª hora. Um acordo que surge como uma humilhação para os gregos, a lembrar Versalhes. Leia o que o diretor do Expresso, Ricardo Costa, escreveu sobre os decisivos acontecimentos das últimas horas e dos últimos dias

Desconfiança, provocação, linguagem desabrida, legitimação nacional, ir além dos limites, usar e abusar da posição. Aquilo que Alexis Tsipras fez durante meses e meses recebeu este fim de semana em dobro na maratona de reuniões em Bruxelas. O documento que saiu do Eurogrupo era excessivo na linguagem, nos prazos, no unilateralismo, na superioridade moral. Mas Tsipras foi isso tudo durante estes meses todos: abusou da linguagem, testou os prazos, foi unilateral, irresponsável na aproximação a Putin e usou a sua inequívoca popularidade doméstica até ao limite.

O efeito do referendo grego valeu-lhe de muito pouco em Bruxelas. Do ponto de vista da política grega foi uma das jogadas mais geniais e arriscadas dos últimos anos europeus, só possível num político de mão cheia, que tem tanto de corajoso como de inconsciente. Tsipras apostou tudo e arrasou no resultado, implodiu o único partido que lhe podia ser alternativa e conseguiu unir a oposição numa espécie de frente nacionalista. Esqueceu-se de um pormenor (não tinha dinheiro) e desvalorizou a capacidade de retaliação da linha dura do Eurogrupo.

As propostas que, na tarde de domingo, saltaram para a mesa das negociações são uma humilhação propositada. Uma a uma, são um lento mas inequívoco guião para o ajoelhar de Atenas. Tomadas em conjunto são a base de uma rendição total, uma espécie de Tratado de Versalhes escrito em alemão, com a Grécia totalmente encostada às tábuas. Como se diz, manda quem pode, obedece quem deve. E neste caso, quem deve deve muito e tem os bolsos vazios.

STRINGER / POOL / EPA

É verdade que, uma a uma, muitas daquelas medidas já estavam nos documentos anteriores. Mas agora vieram todas de uma vez, numa linguagem duríssima e com um parágrafo final dramático. Em duas linhas apenas, e entre parêntesis rectos, o Eurogrupo escreveu pela primeira vez que a Grécia podia sair temporariamente do Euro. E foi assim que, em apenas duas linhas, com direito a parêntesis rectos, o Grexit foi, pela primeira vez, admitido num documento oficial do Eurogrupo.

Quem conhece Bruxelas sabe que quando um documento tem frases entre parêntesis rectos é porque aquelas ainda não representam a posição oficial. Mas, neste caso, a simples publicação da hipótese da "saída temporária" foi a passagem oficial à fase seguinte, o atravessar de um rubicão europeu que admite que o Plano B, o da saída da Grécia, existe mesmo. A partir deste domingo passou a ser oficial: a Grécia pode mesmo sair do Euro. Está escrito.

Ao final da noite de domingo este polémico parágrafo foi retirado e algumas medidas atenuadas. Faz parte da coreografia europeia, primeiro os falcões marcam o terreno, depois as pombas aparecem para tentar um acordo de última hora. Mas a coreografia dos últimos dias complicou-se em dois eixos fundamentais: Hollande (com Renzi) afastou-se dramaticamente de Angela Merkel e, mais grave, Wolfgang Schäuble ganhou muita autonomia em relação à sua chanceler.

FABRIZIO BENSCH / Reuters

É verdade que Schäuble sabe bem que não pode desafiar permanentemente Merkel. Mas o todo-poderoso ministro das Finanças alemão sabe também que, neste momento, pode testar essa lealdade: é o segundo político mais popular da Alemanha e tem uma grande parte da opinião pública consigo e, já agora, uma boa parte dos deputados no Bundestag.

Wolfgang Schäuble entrou este fim de semana na fase em que Catão, o Censor, começou a achar que só havia uma solução para Cartago, a arqui-inimiga de Roma. Depois de vários armistícios e acordos de paz, as duas potências do Mediterrâneo acabavam sempre por se enfrentar em longas guerras. A "paz de Cartago" ficou assim conhecida como uma paz transitória, em que ninguém acreditava, apenas usada para os contendores ganharem tempo e se rearmarem.

Pois bem, Catão, cujo partido dominava Roma naquela época, perdeu a paciência com os cartagineses, que gostavam de abusar da paz assinada, e passou a terminar todos os discursos com a mesma frase: "Quanto ao resto, acho que Cartago deve ser destruída". Cartago delenda est.

Quando perceberam que Catão falava a sério, os cartagineses ainda tentaram negociar, mas era tarde demais. Depois de anos e anos de hesitações, Roma tinha passado ao plano B. E foi assim que Roma arrasou Cartago, que ardeu durante dezassete dias até que não restasse um vestígio. Este fim de semana, Schäuble entrou na sua fase Catão e perdeu o medo do Grexit, num processo dificilmente reversível. Atenas delenda est.

IAN LANGSDON / EPA