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Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Mr. T contra Super Mario

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Tsipras pode ser o Mr. T da política grega, todo poderoso e absolutamente legitimado. Mas é Mario Draghi quem tem a bomba atómica na mão. A análise de Ricardo Costa à situação europeia depois do referendo na Grécia 

Pode um líder político que convoca um referendo de forma unilateral, com uma pergunta difusa sobre um programa que já não existe, desafiando os credores de quem depende, sair politicamente reforçado? Pode. E pode, apesar de ter varrido a oposição nacional, numa votação inesperada, ficar em muito piores lençóis com os seus parceiros europeus? Pode. E pode passar de uma vitória estrondosa em casa para uma derrota sem apelo na mesa das negociações com o Eurogrupo e ficar sem bancos, sem dinheiro e ser obrigado a começar a emitir uma moeda paralela? Sim. E pode, apesar disto tudo, conseguir um acordo com base num texto que enviou a destempo para os seus parceiros a poucas horas de falhar um pagamento ao FMI, num ambiente de profunda desconfiança? Talvez.

Na última semana defendi que o referendo era um erro grave de Alexis Tsipras, um gesto unilateral que dificultava as negociações e levava a Grécia para a beira do abismo. O encerramento dos bancos e controlo de capitais deram-me razão por uns dias. Mas o resultado do referendo atropelou completamente o que eu pensava.

Com um gesto arriscadíssimo, Tsipras mostrou que, neste momento, é dono e senhor da política grega. Não tem oposição formal, os partidos clássicos estão quase todos implodidos e até Antonis Samaras – o anterior primeiro-ministro – teve ontem que se demitir da liderança da Nova Democracia. Até a demissão de Varoufakis confirma a habilidade política do primeiro-ministro grego. Deixou-o o ficar até ganhar em casa e deixou-o cair para ganhar fora de casa.

A política grega está nas mãos de Alexis Tsipras e Bruxelas sabe isso: a bem ou a mal, ele é e será o seu interlocutor por algum tempo. Tsipras é o Mr. T da política grega. Todo poderoso, destemido, popular e imprevisível. Tem uma força política interna incrível e está a viver o seu momentum, depois de um referendo que tinha muito para lhe correr mal. Mas ser o Mr. T em casa, de pouco vale. Tsipras é líder de um país falido, com os bancos a um passo do colapso, que precisa desesperadamente dos credores. E é aqui que começam os verdadeiros problemas do primeiro-ministro grego.

Hoje é dia de encontros, teleconferências e reuniões de urgência. Os protagonistas são os mesmos e devem estar surpreendidos com o resultado do referendo. Mas a surpresa não os faz necessariamente mudar de posição. Ontem já vimos isso com vários políticos europeus. Os mais importantes, a começar por Merkel e Hollande resguardaram-se e só fala hoje. São eles que têm que fazer a ponte entre a política e as finanças. E são eles que vão decidir o que deve fazer o homem que tem, neste momento, a bomba atómica na mão: Mario Draghi.

Super Mario tem tido um papel central em toda a gestão da crise das dívidas públicas. Em momentos de enorme hesitação política foi o governador do Banco Central Europeu que salvou a integridade do Euro. Mas no caso grego, é altamente improvável que tome alguma decisão sem apoio ou conselho político. Nada disto está escrito nos tratados, mas é impossível que Draghi dê o tiro de misericórdia sem estar absolutamente coordenado com Merkel e Hollande, pelo menos.

Mas não tenhamos qualquer dúvida. A situação do sistema financeiro grego é dramática. Os levantamentos no multibanco estão à beira de ser reduzidos a €20 diários e já há documentos do BCE a falarem num bail in bancário, com cortes em todos os depósitos acima de €8 mil. Repito, €8 mil. Só para estarmos enquadrados, o bail in cipriota só afetou as contas acima de €100 mil euros.

Perante o resultado do referendo, ou as negociações avançam ou Mario Draghi pode mesmo ter que limitar a concessão de liquidez aos bancos, para evitar perdas maiores. Se fizer isso, a Grécia estará a um passo de ter que emitir uma forma de pagamento paralela, pelo menos para funcionários públicos e pensionistas. Daí a uma moeda própria paralela é um passo. Tudo isso pode ainda ser evitado, mas a margem é incrivelmente estreita e um tempo muito escasso. Tsipras sabe isso. E Draghi também.