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Teoria dos jogos ou teoria do caos

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1. Esta semana o Politico, num artigo de David Patrikarakos, analisou o referendo grego à luz da teoria e da estratégia políticas. A leitura de “Será Tsipras um génio?” permite perceber que, qualquer que seja o resultado, Tsipras e o Syrisa sairão a ganhar. Se vencer o “não”, Tsipras verá a sua legitimidade reforçada – um facto que a Europa não poderá ignorar em futuras negociações – e mantém a sua palavra junto do povo grego: prometeu combater as políticas de austeridade e, mesmo à beira do abismo, relegitimou essa promessa. Se ganhar o “sim”, o governo grego passa a ter um mandato para aceitar as condições dos credores sem comprometer a sua credibilidade. Tsipras lavou as mãos como Pilatos. Em qualquer dos casos, para o Syrisa, do ponto de vista estritamente político, o cenário é melhor que permanecer encurralado entre as promessas de desagravamento feitas em campanha eleitoral e as promessas de rigor que, desde o início da crise, os governos do norte da europa têm feito aos seus cidadãos.

Certo, porém, é que, como normalmente sucede com os planos estribados em visões utilitárias da política, a estratégia de Tsipras, porventura inteligente, esgota-se no curto prazo. Uma vitória do “não” pode bem conduzir ao cenário Grexit (saída da Grécia da Zona Euro) com consequências gravíssimas para o País e resultados imprevisíveis para o resto da Europa, e uma vitória do “sim” fere de morte o governo grego e tudo aquilo que ele representa, relegitimando, em certo sentido, o próprio projecto europeu. É verdade que, como diria Keynes, “no longo prazo estamos todos mortos”, mas a morte política de Tsipras começou a desenhar-se no dia em que convocou o referendo.

2. Sucede, porém, que o falhanço da Grécia corresponde, em larga medida, ao falhanço da própria Europa. E Tsipras e Varoufakis sabem bem que se a Grécia for empurrada para o abismo não cairá sozinha. Mais do que as consequências de natureza económica e financeira, uma saída da Grécia da Zona Euro abriria um precedente com consequências imprevisíveis no futuro da União Europeia. Desde a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço que a Europa caminhou sem retrocessos no sentido de uma maior integração: uma integração política, económica e, em certo sentido, social. Um primeiro passo atrás pode bem desencadear uma tendência de sentido inverso, alimentando movimentos secessionistas noutros Estados-Membros, em especial no Reino Unido cujo referendo sobre a permanência na União terá lugar até 2017.

Por outro lado, uma eventual saída da Grécia da Zona Euro, ou mesmo a sua hostilização pelos parceiros europeus, motivará por certo uma ainda maior aproximação à Rússia de Putin. Historicamente, muito mais é o que une Rússia e Grécia do que aquilo que as separa. E num eventual “divórcio” entre a Grécia e a UE o reforço desta aliança surge no interesse das duas partes. A Rússia pode assegurar o resgate grego - apesar da sua economia estar a sofrer com a queda do preço do petróleo e do gás, e com as sanções internacionais - e a Grécia pode constituir-se como a porta de entrada da influência Russa na União Europeia. Basta pensar que, como apontou David Patrikarakos, a Rússia integra o Conselho de Segurança da ONU e a Grécia é um membro da NATO. A coordenação de posições entre os dois países beneficia ambos. Do ponto de vista geopolítico a saída da Grécia pode sair cara à Europa. E tanto Washington como Pequim já perceberam essa externalidade geoestratégica e o seu impacto no xadrez diplomático internacional.

3. O louvor de António Costa ao Syrisa de Tsipras foi e é agora acrescidamente inquietante. Dizer que "é importante que outros países europeus dêem força a esses resultados na Grécia, que dão força a essa mudança” é, no mínimo, irresponsável. Bem sei que, com o tempo, Costa foi recuando na glorificação do Syrisa, mas não era difícil antever que o novo governo grego se faria mais de revolucionários do que de reformistas. Estava visto que o Syrisa compreendia melhor o que tinha de fazer para chegar ao poder do que o que fazer com ele. As afinidades entre o Partido Socialista e o Syrisa e, bem assim a associação dos socialistas ao desfecho grego – basta pensar nas recentes declarações de Carlos César ou de Sérgio Sousa Pinto – para além de constituírem uma perigosa estratégia política são um péssimo prenúncio.

Uma questão se impõe colocar ainda à “nossa” esquerda que, um pouco por todo o lado, vem exaltando o referendo grego, aclamando-o como exemplo último da índole democrática “Syrisista”. A mesma esquerda que por muito, por pouco e por quase tudo não hesita em brandir e replicar com nossa Constituição e com o papão da inconstitucionalidade. Se a coerência imperasse não teriam esquecido que a nossa Lei Fundamental – que lêem a gosto e que lhes serve de bitola para tudo – proíbe, no seu artigo 115.º, a realização de referendos sobre “as questões e os actos de conteúdo orçamental, tributário ou financeiro”. Falta saber se tendo Pedro Passos Coelho convocado idêntico referendo agitariam com o mesmo vigor os pergaminhos da Constituição.