Siga-nos

Perfil

Expresso

Opinião

O chão que lhes foge dos pés

  • 333

Manifestante segura na bandeira helénica, com um "não" escrito na testa, na Praça Syntagma, em Atenas, onde milhares de gregos reuniram-se para apoiar o governo do Syriza

YANNIS BEHRAKIS / REUTERS

Sotiris Alexopoulos, quadro superior de uma seguradora, desempregado há cinco anos e um dos principais voluntários do movimento Solidariedade Pireu, um braço de apoio social do Syriza nos subúrbios portuários de Atenas, não consegue disfarçar a sua irritação: “vai-se para um referendo destes para ter 75 por cento, não para chegar aqui com isto dividido 50/50”. Responsabiliza as televisões privadas pela indesmentível propaganda, claro. O cerco europeu, evidentemente. Mas também o seu próprio partido: “Foi um erro deixar a Europa jogar ao rato e ao gato e só marcar o referendo quando o programa ia acabar. Fazer o referendo com os bancos fechados durante uma semana teve um efeito psicológico brutal.” Está a preparar-se para o pior, mas ainda acha que o “não” vai ganhar.

Lefteris Nikolakakis, de fato de macaco sujo, entra esbaforido na “loja” onde estão alinhadas centenas de sacos com vegetais e comida, para os desempregados, sem-abrigo e refugiados que se associam ao trabalho do Solidariedade Pireu. Interrompe a nossa conversa. Está possesso de raiva. É mecânico, militante do Syriza, vice-presidente do Sindicato dos Mecânicos (os que trabalham por conta própria) e o presidente acabou de anunciar, sem perguntar nada a ninguém, que o sindicato apela ao voto no “sim”. Diz que isto está a acontecer em vários sindicatos.

A sensação de chão a fugir debaixo dos pés, enquanto mantêm a esperança que o cerco que dizem sentir não vença o “não”, contrasta com a euforia da véspera, na praça Syntagma a abarrotar de gente. Aí todos pareciam respirar de alívio. Muito mais do que senti no comício do “sim”, ao lado do Estado Panatenaico, onde os estratos sociais mais altos marcaram presença de forma bastante evidente, com a roupa de férias com que costumam ir para as ilhas. Dirão que é preconceito meu. Não é. É piada nacional ver aquelas pessoas, que nunca participaram numa manifestação nas suas vidas, a tentar descobrir como se faz. Mas, ainda assim, sinal da vitalidade política e democrática da Grécia. Só que não são elas que vão decidir quem ganha. Nem o “povo de esquerda” que esteve no comício do “não” a aplaudir o seu adorado Alexis Tsipras. São os que estão assustados e que todos os dias vão mudando dum “não” que expressa a sua irritação para um “sim” que reflete os seus medos.

A última sondagem da Alco dava 44,8% ao “sim” e 43,4% ao “não”, enquanto a Bloomberg fala de 43% para o “não” e 42,5% para o “sim”. Resumindo, cada voto conta. Uma sensação estranha para quem passeia por Atenas. Na rua, nas conversas, as pessoas que explicitam de forma clara o seu sentido de voto são maioritariamente pelo “não”.  Do pequeno comerciante ao taxista, do trabalhador ao desempregado. Falo com outros jornalistas que me confirmam a mesma sensação. Percebe-se que é um voto orgulhoso. Que resistiu não apenas às imagens das filas em frente às caixas multibancos mas à sua própria experiência das filas. E ao medo de que esta semana se prolongue por muito mais tempo, indefinidamente.

O espírito do cercado fez-se sentir. Houve quem fosse comprar grandes quantidades de comida sem chegar a perceber muito bem porquê. O medo de segunda-feira é geral, entre os eleitores de um lado e do outro. “Tenho de começar a pensar que provavelmente vou ficar desempregada depois deste fim-de-semana”, diz-me Eleni, uma votante sem vacilações no “não”. Um amigo acabou de lhe explicar que tem cinco euros no bolso e, destroçado, decidiu que vai votar “sim”. Quer que regresse a desgraça que ele já conhecia. Outros, no entanto, não vacilam. Preferem mesmo uma desgraça diferente. E até há uns tempos era esse “espírito grego” de resistência que dominava. Pode estar a deixar de ser.

Nas bases do “não” preparam-se para a possibilidade do “sim” vencer, o que era impensável no dia seguinte a ser anunciado o referendo. Sobretudo preparam-se para a possibilidade do “sim” vencer por muito pouco. As bases do Syriza não querem que Tsipras se demita nessas condições. “Seria um suicídio sem qualquer justificação constitucional”, diz-me Sotiris, especado ao lado de um panelão de carne que será servido, ao ar livre, aos sem-abrigo e desempregados de Pireu. No topo do partido, parece-me, pensa-se da mesma forma. Num gabinete acanhado da sede nacional do Syriza, no meio de um bairro pobre de Atenas, o responsável pelas relações internacionais do partido, Yannis Bournous, é elíptico, repete-me a fórmula do primeiro-ministro em relação ao respeito pelo resultado do referendo e pela Constituição, mas recusa-se a falar, de forma clara, de demissão. Mas outros dirigentes são, em conversas informais, um pouco mais claros: num cenário de derrota à tangente há muita gente no partido que é contra uma demissão. Mas todos sabem, de Alexis Tsipras no governo a Sotiris Alexopoulos ao lado do panelão de carne, que a posição do Syriza passará a ser mais fraca.

Não é apenas no Syriza que há quem ache que a demissão não deve acontecer. Estão acompanhados por algumas pessoas mais moderadas à direita. Sentado no seu gabinete de político retirado, Evangelos Antonaros, ex-jornalista, ex-ministro e ex-porta-voz do governo de Kostas Karamanlis, de quem se mantém muito próximo, defende que Tsipras não se deve demitir. Os argumentos são institucionais: “Temos de perder este hábito de não levar os mandatos até ao fim. Há uma maioria clara, tem legitimidade e é Tsipras, com uma posição mais realista, que tem de resolver os problemas que criou.” Mas pressinto que há outras razões. Antonaros sabe, toda a gente sabe, que a Nova Democracia não tem um rosto para ganhar as eleições: “Neste momento, com os mesmos partidos, teremos resultados semelhantes”. É preciso mais tempo e, para além da direita não ter recuperado dos últimos cinco anos, o Syriza ainda não está muito desagastado. Talvez o fique depois desta semana, se o “sim” vencer.

Se vencer o “não” é outra história. Uma história que fará história, e não apenas a da Grécia. Muitos pensam que, no fim, vai dar tudo ao mesmo. São os que teimam em ignorar a parte política de tudo isto. Se o “não” vencer foi um povo, e não um governo, que respondeu às instituições europeias. Isola-se um governo, é mais difícil, aos olhos das opiniões públicas europeias, isolar um povo inteiro. E é por isso que amanhã se joga muito mais do que o futuro da Grécia. Joga-se até mais do que esta crise. Está em jogo a Europa enquanto projeto democrático.