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Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Uma semana que não vamos esquecer

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A opinião de Ricardo Costa, diretor do Expresso, sobre os últimos acontecimentos na Grécia

Bancos fechados, controlo de capitais, um “corralito” sem prazo. Situações que já vimos na Argentina ou na Islândia e que tiveram a sua única versão na zona Euro em Chipre, quando o impensável aconteceu. Mas o impensável grego é de muito maior alcance. Para a Grécia e para toda a Europa. Sabemos como começou, não fazemos ideia de como ou onde vai parar.   

A Grécia entra esta semana numa sequência de acontecimentos e consequências inimagináveis. O anúncio unilateral de um referendo para dia 5 acelerou tudo além do precipício. E é aí que a Grécia já está neste momento, com a Europa toda – em particular os outros 18 países do Euro – a olhar atenta, sem perceber se é só espetadora ou mais do que isso. É que num acontecimento desta dimensão é muito difícil alguém pensar que é só espetador. Os estilhaços serão muitos. 

A manhã de segunda chega sem bancos abertos, aflição generalizada e natural dos gregos, tudo isto num mar de interrogações e praticamente sem certezas. E as poucas certezas que há apenas levam a novas interrogações: 

1. Vai haver um referendo no próximo dia 5 sobre as propostas que os credores (Eurogrupo, BCE e FMI) tinham apresentado à Grécia 

2. Os eleitores gregos vão referendar uma proposta que tecnicamente já não existe. Ou seja, assim que o referendo foi anunciado pelo governo grego, o Eurogrupo recusou a extensão do programa de assistência

3. Além disso, a extensão teria que ser aprovada em alguns parlamentos nacionais, nomeadamente o Bundestag, o que numa situação parece impossível 

4. Sem a extensão do programa, o governo grego vai seguramente falhar um pagamento de €1,5 mil milhões ao FMI esta terça-feira 

5. Ao falhar o pagamento, entra em incumprimento, assumindo um default dentro da Zona Euro, situação que não está prevista nos tratados  

6. Os gregos vão, assim, votar no domingo dia 5, propostas que formalmente já não existem e depois de já terem incumprido um pagamento ao FMI 

7. O referendo acaba por ser essencialmente político e sem qualquer valor formal ou técnico 

8. Tudo isto vai acontecer depois de uma semana sem bancos, sem bolsa, com controlo de capitais. E com situações dramáticas e muito difíceis de resolver no imediato e uma economia em colapso acelerado 

Além de toda esta situação bizarra, as questões políticas que se levantam são imensas. Tsipras e o Syriza vão fazer campanha pelo “não”, mas o “sim” está à frente nas sondagens. Se o “sim” ganhar, o que faz Tsipras? Muitos defendem que  governará e estará disposto a aceitar as propostas que até agora tinha recusado. 

Além disso ser politicamente estranho, pode levar a uma cisão no próprio Syriza, visto que a ala mais dura da coligação, que tem 1/3 da sua representação parlamentar, nunca aceitará as propostas, mesmo que o referendo dê uma clara vitória ao sim. Há quem defenda que essa é a jogada de mestre de Tsipras, a de poder fazer uma pirueta política, legitimado por um referendo, conseguindo rasgar parte do seu programa político, dispensar os deputados e ministros mais radicais e formar governo com outras forças mais moderadas. 

Este cenário, além de um pouco mirabolante e maquiavélico, tem duas contrariedades práticas: a primeira é que Tsipras vai fazer campanha pelo “não”, o que dificilmente o legitimará como posterior gestor de políticas definidas pelo “sim”. A segunda é a mais importante de todas: se era isto que Alexis Tsipras queria, ou seja um referendo popular às imposições externas, porque é que não o fez dentro dos prazos da negociação? Afinal, há um mês e meio foi Schauble quem defendeu que a Grécia devia fazer um referendo, sugestão que foi rejeitada de imediato… 

Deixo para o fim, aquilo que mais vai assustar os gregos e os “espetadores” europeus: a corrida às caixas multibanco, os balcões dos bancos fechados, o controlo de capitais, uma economia que se aproxima perigosamente da zona zombie. Há vários mecanismos previstos para este tipo de situações, que se aprendem nas Faculdades de Economia mas que raramente vemos em prática. A primeira está aí, a não abertura dos bancos, com controlo de capitais a caminho, e a bolsa fechada. 

Depois disto vem o quê? SE o BCE fechar a torneira pode vir uma moeda paralela, pelo menos para pagar salários aos funcionários públicos e as pensões. E depois disso a Grécia estará a um passo de uma moeda própria. E isso será um passo extremamente difícil para a União Europeia e para a zona Euro. Toda a gestão da crise das dívidas públicas na Europa desde 2010 passou por duas variáveis: a ideia de que a zona Euro devia ficar intacta e a certeza de que os governos dos países resgatados aceitariam todas as medidas que garantissem a integralidade da Zona Euro. 

O governo grego quebrou esse ciclo e apostou numa estratégia negocial difícil de perceber, mas é obrigatório reconhecer que a economia grega também já o tinha quebrado. A queda do PIB, da procura interna, o número de desempregados e de excluídos do Estado Social, entre muitas outras coisas, atingiram valores que nenhuma previsão do FMI ou de Bruxelas sonharam ser possíveis. Mas a verdade é que aconteceram. O caso grego tem sido um desfiladeiro de impossíveis, mas este é muito para lá do que pode ser racional. Não vamos esquecer esta semana por muito tempo.