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Dia Um de Portugal

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Todos os anos, no dia 24 de Junho, comemora-se, em vários pontos do País, o dia de São João. Trata-se, oficialmente, de uma celebração cristã que evoca o nascimento de São João Baptista, pregador, precursor do baptismo como prática na conversão de gentios, que posteriormente veio a ser adoptado pelo cristianismo. Foi, aliás, São João Baptista quem baptizou Jesus. Hoje, porém (como, de resto, nos primórdios), a festa é mais pagã que cristã e evoca as sardinhas, os martelinhos e os balões de ar quente.

Por muito que me divirta no São João, o meu 24 de Junho será sempre o vimaranense, o de 1128, o da Batalha de S. Mamede, o do dia um de Portugal. Em Guimarães celebramos o dia em que D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique e de D. Teresa, apoiado pelos Barões Portugueses, travou contra as tropas de sua mãe e do conde galego Fernão Peres de Trava, a batalha que abriu caminho à independência do reino. Na sequência desta vitória, Afonso Henriques assumiu o governo do Condado Portucalense, dando por terminada a vassalagem a seu primo Afonso VII, Rei de Leão e Castela. Assim nasceu Portugal.

O significado histórico da batalha de S. Mamede impunha que a data se assinalasse para lá das “muralhas” da cidade de Guimarães. É verdade que o País não está para feriados – embora a efeméride inegavelmente o justificasse, como de resto já defendi – mas quando existem “dias” de tudo e para tudo e o seu contrário (esta semana, por exemplo, foi aprovado no Parlamento o da “Gastronomia”), não se vê por que razão a agenda do Senhor Presidente da República (do actual e de todos os que o precederam) não assinala, de uma forma ou de outra, uma das mais determinantes (senão a mais determinante) data alusiva à fundação do nosso País. Republicana convicta, sou absolutamente insuspeita de qualquer simpatia pelo regime monárquico, mas não posso deixar de notar que, do ponto de vista histórico, o dia 24 de Junho nada fica a dever, pelo contrário, ao dia 10 do mesmo mês, que corresponde à data da morte do poeta Luiz de Camões e ao dia litúrgico do anjo da Paz, da Pátria e da Eucaristia, padroeiro do nosso País.

Não se trata, bem se vê, de uma aclamação patriótica bacoca – que o patriotismo bacoco é a negação do verdadeiro patriotismo - mas de um exercício de dignificação e de justíssimo reconhecimento da nossa história. Ademais, há algo de audaz num País que nasce de uma disputa entre mãe e filho e que mais tarde se afirma a “dar novos mundos ao mundo”. E esse arrojo tem de ser celebrado.

Agora que António Costa se propõe repor todos os feriados – pelo menos já não são os tribunais! – fica o repto ao o líder socialista e aos os demais partidos, incluindo, claro está, o PSD: comecemos por assinalar devidamente o Dia Um de Portugal. Já não era pouca coisa.