A rede eléctrica permite, há largos anos, que todos os habitantes de uma sociedade medianamente desenvolvida comprem energia online. Os fios que asseguram o transporte da electricidade da central eléctrica até à tomada na parede têm feito mais para aumentar a eficiência e baixar os custos da energia que todos os melhoramentos feitos no motor de combustão desde o lançamento do Ford Modelo T em 1908.
Para dinamizar a rede eléctrica é preciso dotá-la dos meios indispensáveis à prossecução das suas finalidades, operando-a de forma cada vez mais inteligente. A rede é uma infra-estrutura de enorme valia económica, sendo o investimento realizado gerador de retorno garantido: o consumo de energia vai sempre aumentando - mau grado os ganhos de eficiência -, deslocando outras formas menos valiosas de energia final.
A electricidade não é uma fonte mas um veículo energético. São necessárias centrais com capacidade e disponibilidade suficientes para fornecer a potência indispensável para satisfazer todos os caprichos dos consumidores - que não pedem licença para se ligarem à rede e exigem que a energia lhes seja fornecida prontamente e sem filas de espera.
As opções de geração de energia para entrega à rede são várias. E deverá sempre optar-se por um cabaz diversificado - a melhor garantia de segurança no abastecimento. O Protocolo de Quioto tornou caro o carvão, que à partida seria o combustível mais em conta, ao penalizar as emissões de CO2. O petróleo, na sequência dos choques petrolíferos das décadas de 70 e 80 do século XX, viu o seu uso na produção de electricidade substancialmente reduzido. O gás natural é hoje a estrela dos combustíveis fósseis, face à sua relativa benignidade ambiental.
À escala global, os combustíveis fósseis asseguram 2/3 da produção de electricidade. Na UE esta contribuição é de 55%, em Espanha 58% e em Portugal 64%. Note-se o peso importante do nuclear na UE (30%) e Espanha (20%). Em Portugal, no ano 2008 (hidrologicamente seco), e com referência ao consumo, as energias fósseis contribuíram com 54% (carvão 21%, gás natural 28%, petróleo 5%) e as renováveis com 28%, tendo os restantes 18% sido assegurados pela importação.
A dependência crescente do gás natural deve ser motivo de preocupação, face à sua previsível carestia e à subordinação aos interesses estratégicos dos países e regiões produtoras. As renováveis têm limites impostos pela operação da rede eléctrica, em virtude da sua volatilidade e intermitência. O carvão com captura e armazenamento do CO2 não parece, em tempo útil, vir a constituir uma alternativa com que se possa verdadeiramente contar.
A opção a considerar é o nuclear, que está disponível hoje, que tem dado provas de robustez e segurança ao longo de cinco décadas (com a desditosa excepção de Chernobyl) e que usa em quantidades diminutas um combustível abundante e distribuído pelo planeta (inclusive em Portugal): o urânio. Uma central nuclear de última geração (1000-1500 MW) pode ser integrada na rede eléctrica ibérica, com reforços modestos. Poderia mesmo encarar-se uma parceria com uma das empresas eléctricas espanholas, para tirar partido dos meios humanos e materiais existentes na Península Ibérica, os quais não são abundantes deste lado da fronteira, face ao abandono a que esta área tecnológica tem sido votada.
Neste contexto, a rede eléctrica seria alimentada por centrais de base nucleares, centrais hidroeléctricas e centrais a gás natural para acompanhamento do diagrama de carga, e ainda por fontes renováveis - eólica, solar, biomassa e ondas - para aproveitamento dos recursos energéticos endógenos.
O nuclear não pode ser afastado do debate energético, por força dos seus méritos técnicos e económicos. Num número apreciável de países, a oposição de sectores da opinião pública tem vindo a ser mitigada ou mesmo invertida, face à preocupação com a segurança do abastecimento de energia e aos riscos inerentes ao aquecimento global.





