26/05/2012 atualizado às 19:00
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Opinião: Contra e a favor do nuclear

A criação da Associação para a Divulgação da Energia Nuclear, noticiada na última edição do Expresso, marca a reabertura do debate sobre o tema no nosso país. A Bnomics vai também lançar o livro "Energia Nuclear: Uma Opção para Portugal", de Paulo Correia. Dois conhecidos professores do IST, um a favor (Sucena Paiva) e outro contra (Delgado Domingos), confrontam aqui os seus argumentos.

0:01 Sexta feira, 10 de abril de 2009
A rede eléctrica e a opção nuclear

A rede eléctrica permite, há largos anos, que todos os habitantes de uma sociedade medianamente desenvolvida comprem energia online. Os fios que asseguram o transporte da electricidade da central eléctrica até à tomada na parede têm feito mais para aumentar a eficiência e baixar os custos da energia que todos os melhoramentos feitos no motor de combustão desde o lançamento do Ford Modelo T em 1908.

Para dinamizar a rede eléctrica é preciso dotá-la dos meios indispensáveis à prossecução das suas finalidades, operando-a de forma cada vez mais inteligente. A rede é uma infra-estrutura de enorme valia económica, sendo o investimento realizado gerador de retorno garantido: o consumo de energia vai sempre aumentando - mau grado os ganhos de eficiência -, deslocando outras formas menos valiosas de energia final.

A electricidade não é uma fonte mas um veículo energético. São necessárias centrais com capacidade e disponibilidade suficientes para fornecer a potência indispensável para satisfazer todos os caprichos dos consumidores - que não pedem licença para se ligarem à rede e exigem que a energia lhes seja fornecida prontamente e sem filas de espera.

As opções de geração de energia para entrega à rede são várias. E deverá sempre optar-se por um cabaz diversificado - a melhor garantia de segurança no abastecimento. O Protocolo de Quioto tornou caro o carvão, que à partida seria o combustível mais em conta, ao penalizar as emissões de CO2. O petróleo, na sequência dos choques petrolíferos das décadas de 70 e 80 do século XX, viu o seu uso na produção de electricidade substancialmente reduzido. O gás natural é hoje a estrela dos combustíveis fósseis, face à sua relativa benignidade ambiental.

À escala global, os combustíveis fósseis asseguram 2/3 da produção de electricidade. Na UE esta contribuição é de 55%, em Espanha 58% e em Portugal 64%. Note-se o peso importante do nuclear na UE (30%) e Espanha (20%). Em Portugal, no ano 2008 (hidrologicamente seco), e com referência ao consumo, as energias fósseis contribuíram com 54% (carvão 21%, gás natural 28%, petróleo 5%) e as renováveis com 28%, tendo os restantes 18% sido assegurados pela importação.

A dependência crescente do gás natural deve ser motivo de preocupação, face à sua previsível carestia e à subordinação aos interesses estratégicos dos países e regiões produtoras. As renováveis têm limites impostos pela operação da rede eléctrica, em virtude da sua volatilidade e intermitência. O carvão com captura e armazenamento do CO2 não parece, em tempo útil, vir a constituir uma alternativa com que se possa verdadeiramente contar.

A opção a considerar é o nuclear, que está disponível hoje, que tem dado provas de robustez e segurança ao longo de cinco décadas (com a desditosa excepção de Chernobyl) e que usa em quantidades diminutas um combustível abundante e distribuído pelo planeta (inclusive em Portugal): o urânio. Uma central nuclear de última geração (1000-1500 MW) pode ser integrada na rede eléctrica ibérica, com reforços modestos. Poderia mesmo encarar-se uma parceria com uma das empresas eléctricas espanholas, para tirar partido dos meios humanos e materiais existentes na Península Ibérica, os quais não são abundantes deste lado da fronteira, face ao abandono a que esta área tecnológica tem sido votada.

Neste contexto, a rede eléctrica seria alimentada por centrais de base nucleares, centrais hidroeléctricas e centrais a gás natural para acompanhamento do diagrama de carga, e ainda por fontes renováveis - eólica, solar, biomassa e ondas - para aproveitamento dos recursos energéticos endógenos.

O nuclear não pode ser afastado do debate energético, por força dos seus méritos técnicos e económicos. Num número apreciável de países, a oposição de sectores da opinião pública tem vindo a ser mitigada ou mesmo invertida, face à preocupação com a segurança do abastecimento de energia e aos riscos inerentes ao aquecimento global.

José Pedro Sucena Paiva, Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico

Alterações climáticas e energia nuclear

Cientistas portugueses defendem o nuclear" e vão "criar uma associação (ADN) para promover o debate e integrar o tema na agenda eleitoral", informava o Expresso de 4 de Abril.

É louvável que alguns sócios da SPF (Sociedade Portuguesa de Física) se proponham formar uma associação para intervir no debate público de questões de interesse nacional, e é sobretudo relevante o seu compromisso de dar "informação sobre factos técnica e cientificamente verificáveis". Todavia, quando os promotores da ADN afirmam que "toda a energia que consumimos na Terra é proveniente do Sol e a energia do Sol é nuclear", mostram que não resistem à fácil demagogia das inferências abusivas, o que é pena. A SPF é filiada na European Physical Society e a ADN invoca a "posição" da EPS em defesa da energia nuclear.

Todavia, as inferências que a ADN suscita com as referências a esta "posição" deixam muito a desejar. Por um lado, trata-se de um documento para discussão com base no relatório elaborado por cinco membros do seu "Nuclear Physics Board", cuja má qualidade técnica e rigor científico não podem ser desculpadas pelo facto de os autores trabalharem nas ciências fundamentais, sem qualquer ligação à indústria nuclear ou à realidade económica.

Por outro, não se pode falar em nome de 100.000 físicos numa matéria desta natureza sem democraticamente os consultar. Na verdade, a "posição" que a ADN invoca exprime sobretudo a preocupação dos físicos nucleares pelo declínio da ciência nuclear europeia, a que acresce a redução do peso relativo da energia nuclear a nível mundial (apesar de um aumento em números absolutos e por razões estratégicas na China e na Índia) tal como a própria Agência Internacional de Energia Atómica reconhece nas suas mais recentes projecções.

Em termos económicos, a energia nuclear não é competitiva em nenhuma economia de mercado e depende inteiramente de subsídios estatais, directos ou indirectos, que se procuram justificar em nome de intangíveis interesses nacionais (habitualmente muito privados) ou da salvação da humanidade, como sucede com os alegados efeitos do CO2 no aquecimento global.

As associações empresariais (CIP, AIP, AEP), tal como a ADN, invocam falta de discussão pública e a existência de tabus sobre a energia nuclear, esquecendo que o mais real e preocupante tabu é sobre a alegada importância do CO2 no aquecimento global, que agora invocam como argumento decisivo a favor das suas teses. Estas instituições, enquanto não houver compromisso do Estado em as apoiar, continuarão a invocar tabus e falta de esclarecimento público na tentativa de fazer esquecer que, desde 2006, já houve mais discussão pública e sessões especializadas sobre energia nuclear, do que as referentes ao Tratado de Lisboa ou ao preço que iremos pagar pela ligeireza com que se negociou o Protocolo de Quioto e se aderiu ao mercado do carbono.

Os que verdadeiramente se interessam pela energia nuclear no contexto de uma política energética nacional poderão consultar, de entre inúmera documentação, o excelente livro "Nuclear - O debate sobre o novo modelo energético em Portugal", dos jornalistas Jorge Nascimento Rodrigues e Virgílio Azevedo, ou as minhas próprias intervenções públicas durante mais de 30 anos sobre a energia nuclear em Portugal e, mais recentemente, sobre alterações climáticas, disponíveis em http://jddomingos.ist.utl.pt .

Os promotores da energia nuclear, como a ADN, persistem também na presunção de que o cidadão comum os irá apoiar após adequada difusão de "informação sobre factos técnica e cientificamente verificáveis" que mostrem as vantagens e a ausência de maiores riscos do que noutras formas de energia. Se assim é, por que motivo não convenceram já as seguradoras a prescindir das garantias do Estado para cobrir ou limitar as indemnizações a pagar em caso de acidente nuclear?

José Delgado Domingos, Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico

 

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2009

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Nuclear puro para os pulmões

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DEBATE INQUINADO...
Zaratustra70 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:40 | Sexta feira, 10 de abril de 2009
O debate sobre "o nuclear" parece-me um debate inquinado à partida, porque não é esclarecedor, e digo isto, porque enquanto um lado apresenta argumentos de ordem economica e alguns de ordem tecnica, o outro lado pura e simplesmente se limita a incutir MEDO na sociedade...
...o unico acidente grave de que há memoria foi em Chernobyl, os outros foram pequenos e circunscritos num espaco muito reduzido, mas pergunto, os acidentes registados em centrais termoelectricas, manuseamento de gas e de petroleo, que TAMBEM ajudaram a poluir a atmosfera e a camada de ozono vão perdurar no tempo quantos anos????????
E o Prof. José Domingos chama-mos demagogos?!?!?!?!
Enfim..................
Cumprimentos
 
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