26/05/2012 atualizado às 19:00
Página Inicial » Atualidade » 'Operação Furacão' revela corrupção nos negócios com Angola

Investigação

'Operação Furacão' revela corrupção nos negócios com Angola

O gestor de uma das maiores empresas portuguesas confirmou ao Expresso a utilização do esquema de fraude ao fisco para justificar pagamentos de comissões nos negócios com Luanda.

Carlos Rodrigues Lima, com Hélder C. Martins
22:10 Sábado, 13 de setembro de 2008
A "Operação Furacão" já recuperou 50 milhões de euros de impostos em falta
A "Operação Furacão" já recuperou 50 milhões de euros de impostos em falta
Ilustração de Hélder Oliveira/Who

O alegado esquema de fraude fiscal, investigado pela 'Operação Furacão', foi utilizado para algumas empresas portuguesas justificarem o pagamento de 'comissões' em Angola. O Expresso sabe que muitas das facturas apreendidas nas centenas de buscas feitas tinham a anotação "negócios em Angola". Um gestor de uma grande empresa envolvida no processo confirmou a informação, adiantando que além da justificação, o dinheiro-extra obtido nas operações suspeitas servia também como uma espécie de 'saco azul' para pagamentos paralelos: "As verbas obtidas com estas operações destinavam-se a pagar as tradicionais comissões para funcionar em Angola", disse ao Expresso o alto-quadro que solicitou o anonimato.

Aliás, uma das suspeitas sobre a empresa deste gestor está, como o próprio confirmou, relacionada com uma troca de materiais com Luanda. "Mas a situação está já resolvida", disse ao Expresso. A informação foi ainda confirmada por uma fonte ligada às Finanças: "Há suspeitas de que as operações tenham servido para justificar os pagamentos e para angariar dinheiro para os efectuar".

Porém, um investigador directamente ligado ao processo declarou que o rumo das diligências não passa por Angola, porque o que está em causa nos autos é um alegado esquema de fuga ao fisco que terá prejudicado o Estado em 200 milhões de euros. A mesma fonte salientou que não há nos autos nenhum cidadão angolano identificado como suspeito.

O esquema da 'Operação Furacão' assenta, essencialmente, na simulação de relações comerciais entre empresas portuguesas e outras (fictícias) sediadas no Reino Unido. Ora, esta relação fictícia permitia, posteriormente, às sociedades portuguesas abaterem este 'custo' em sede de IRC. Este dinheiro-extra conseguido através do esquema poderia alimentar um 'saco azul' ou, como refere o Ministério Público, ir parar aos bolsos dos gestores das empresas. Daí que alguns estejam já indiciados pelo crime de abuso de confiança.

O último dado revelado pelo Ministério Público, numa informação que está disponível na Internet em www.pgr.pt, aponta para a existência de 300 contribuintes individuais que se juntam às 150 empresas investigadas. A novidade dos contribuintes individuais é facilmente explicável: "São pessoas que utilizariam o esquema para não declarar rendimentos ao fisco, apresentando-os como despesa", segundo uma fonte ligada ao processo.

Um poço sem fundo

Apesar do enorme acervo documental apreendido, por razões de prescrição dos crimes fiscais, a investigação está a reconstituir os dados contabilísticos das empresas e particulares entre 2001 e 2007. Para trás, segundo admitem os próprios investigadores, podem estar outros tantos 200 milhões de euros de fuga aos impostos que jamais serão cobrados. "Importa, assim, que fique claro que os factos sob investigação se prolongaram por mais de uma década", salienta o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) numa informação divulgada na semana passada.

A investigação deste processo começou em 2004 após uma inspecção em Barcelos que detectou facturas emitidas por sociedades inglesas. Após pedido de informação ao Reino Unido descobriu-se "a existência de diversas sociedades registadas na mesma morada que declaravam a emissão de facturas a sociedades registadas em Portugal", refere o comunicado da procuradoria. O fisco abriu um processo de inquérito prontamente comunicado ao Ministério Público, que iniciou a investigação. A partir do momento em que foram colocados vários telefones de empresários sob escuta, cedo se percebeu que o esquema não estava circunscrito àquela região do Norte, mas tinha ramificações por todo o território nacional.

O processo desceu para o DCIAP, em Lisboa, e em Outubro de 2005 teve início a 'Operação Furacão'. Os principais bancos portugueses, BES, BCP, BPN e Finibanco foram os primeiros alvos. Entre 17 e 24 de Outubro daquele ano, foram realizadas 92 buscas, as quais também passaram por escritórios de advogados, empresas fiduciárias e residências particulares.
À medida que a documentação era analisada, saltava um caso novo. A bola de neve foi crescendo e hoje é isto: 150 empresas e 300 contribuintes individuais são suspeitos. "Era impossível parar a investigação e partir para acusações o mais rapidamente possível, sob pena de sermos acusados de investigar uns e deixar outros de fora", comentou ao Expresso um magistrado do DCIAP.

Como na justiça portuguesa 'megaprocesso' geralmente equivale a processo encalhado, a investigação original foi dividida em 10 novos inquéritos. Para os incumpridores que já regularizaram junto do fisco a sua situação, o Ministério Público vai avançar com a figura da suspensão provisória do processo. Isto é, não serão acusados do crime de fraude fiscal.

Nos próximos meses, serão ouvidas testemunhas e constituídos novos arguidos. O procurador-geral da República, Pinto Monteiro, já afirmou que gostaria de ver a investigação concluída até ao final do ano. Mas o DCIAP pediu segredo de justiça até Junho de 2009. Entretanto, no processo está instalada uma verdadeira confusão quanto ao segredo de justiça. Há ou não? Ainda ninguém sabe. Esperam-se mais recursos.


O DEVE E O HAVER

200

milhões de euros é quanto a investigação suspeita que terá fugido ao cofres do fisco com o recurso ao esquema de fraude fiscal e posterior branqueamento de capitais investigado no processo.

50

milhões de euros é o montante de impostos em falta já recuperado pelo Estado devido ao processo da 'Operação Furacão'. Este valor diz respeito a empresas e particulares que assumiram ter fugido ao fisco e optaram por repor os valores em falta.


Artigo publicado na edição impressa de 13 de Setembro de 2008, 1º Caderno, páginas 2 e 3.
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Conta-se cada anedota no Expresso...
ólhameste... (seguir utilizador), 1 ponto , 23:12 | Sábado, 13 de setembro de 2008

Se houvesse uma investigação aos negócios com Angola... acabavam-se os negócios com Angola. Haverá ainda alguém que não sabe que só se consegue negócios em Angola (salvo raras excepções) pagando umas comissõezinhas, mais conhecidas por "gasosas".

A seu tempo isso levará melhor rumo. Por ora, é deixar andar senão vem outro e come tudo.
 
 Regras da comunidade
"negócios em Angola" ?...
LFelicio (seguir utilizador), 1 ponto , 0:07 | Domingo, 14 de setembro de 2008
...O Expresso sabe que muitas das facturas apreendidas nas centenas de buscas feitas tinham a anotação "negócios em Angola"...
É obvio de mais para ser verdade tal anotação em facturas de grandes empresas, pois essas são as mesmas que têem "envoltura" para ter 3 contabilidades paralelas (fisco, bancos e real ) e capacidade para pagar "competentes" fiscalistas, advogados, juristas, consultores e fazedores de parceres.
Onde é que estará o erro? É tudo mentira ou de tanto roubarem à vontade baixaram a guarda ?
Uma coisa é certa .. são rios de dinheiro desviados por alguns e que assim tiveram de ser ressarcidos pelo povo português, quer queiram quer não.
Aparente Moral da História, os Angolanos mais espertos estão no direito deles de se governarem enquanto o seu povo os deixar assim se governarem.
Aparente Corolário: Os Portugueses mais espertos estão no direito deles de se governarem enquanto o seu povo os deixar assim se governarem.
Como se pode ter um País de olhos abertos, se até as cataratas se tinham que curar em Cuba?
 
 Regras da comunidade
so pro inglês ver
portamoedas (seguir utilizador), 1 ponto , 8:47 | Domingo, 14 de setembro de 2008
Corrupçao em Angola, eu me pergunto aonde é que que nao existe corrupçao, pois se os leaders do nosso pais recebem dinheiro destas firmas, sera que vao matar a galinha dos ovos de ouro? Claro que nao, entao para que serve estas pequenas nortadas? Como sempre quando o futebol portugues nao tem resultados la temos a nossa insegurarança, agora sao as firmas que estao em vedeta no cinema.
Um bom domingo.
 
 Regras da comunidade
A ABRILADA
DANAMONA (seguir utilizador), 1 ponto , 9:27 | Domingo, 14 de setembro de 2008
Uma das conquistas da ABRILADA foi a "corrupção" de todos aqueles que participaram ou apoiaram a maior golpada da nossa História.
Começou com a descolonização,colocando em Angola governantes terroristas e outros bandidos.
Em Portugal,os abrilistas apoderaram-se da coutada que lhes tem permitido a prática de toda a espécie de malfeitorias.
Com um povo de selvagens em Angola e um povo de incultos em Portugal,a bandidagem da ABRILADA continua a sugar o esforço de todos os escravos colocados às suas ordens,quer em Angola quer em Portugal.
Até quando vai durar a manutenção destes criminosos?
ÀS ARMAS,PORTUGUESES!!!!!!
VAMOS A ELES!!!!!!!!!!
 
 Regras da comunidade
    A "Abrilada" foi traída pelos tecnocratas que    Ver comentário
aukistuxego (seguir utilizador), 1 ponto , 19:14 | Domingo, 14 de setembro de 2008
revelação
samatra (seguir utilizador), 1 ponto , 9:41 | Domingo, 14 de setembro de 2008
Até estou abismado com tal revelação .
 
 Regras da comunidade
    Re: revelação    Ver comentário
luisxvi (seguir utilizador), 1 ponto , 7:22 | Segunda feira, 15 de setembro de 2008
Novidades
Leiki (seguir utilizador), 1 ponto , 12:43 | Domingo, 14 de setembro de 2008
Mas será que pensam que só saindo essa noticia nos jornais é que se fica a saber?
Mas que grande novidade! Com Estados corruptos apenas se negoceia pela corrupção. É a sua Razão de Ser.
E então, somos pragmáticos, ou somos "anjinhos"?
Se não negociarmos nós, outros (quiçá com muito menos escrúpulos) o farão. E como há que dar de comer aos portuguese (sim, porque não somos autosuficientes), seria irresponsável não entrarmos no esquema.
 
 Regras da comunidade
Os tecnocratas que traíram o 25 de Abril
aukistuxego (seguir utilizador), 1 ponto , 18:39 | Domingo, 14 de setembro de 2008
afastaram as pessoas mais competentes, honestas, possuidoras de cidadania no sentido do progresso do País e da sua população, alérgicos à Cultura, venderam-se ao imperialismo neo liberal, onde a cultura da rapina e do "gamanço" vai lançando o País na miséria com a maioria da sua população, enquanto uns tantos vão enriqucendo, ora atravez de métodos sufisticados ou de assaltos à mão armada daqueles que não têm possibilidade de o favor de outro modo, concretizando, assim a doutrina do sistema que é o sucesso e a competição individuais, onde a solidariedade e um projecto para o País foi simplesmente enterrado...
 
 Regras da comunidade
Deve ser engano...
Bom como o Milho (seguir utilizador), 1 ponto , 22:48 | Domingo, 14 de setembro de 2008
...não foi isso que o Sr. Engº disse de Angola!
 
 Regras da comunidade
Estavam á espera de quê?
M.B (seguir utilizador), 1 ponto , 22:54 | Domingo, 14 de setembro de 2008
Para mim conhecedor da realidade em África, onde viví dez anos, não me surpreende, ficaria surpreso com o contrário, não sejamos ingénuos, não se conseguem fazer negócios lá doutra maneira, está quase que institucionalizada a prática de todo o tipo de corrupção, tudo funciona com base nos conhecimentos pessoais e comissões ( gasosa), atinge todos os níveis das sociedades africanas ( não é só em Angola), agora o que mais me incomoda é terem-se os povos libertado dos colonizadores e cairem nas mãos de dirigentes mais ou menos ditadores, que os exploram e oprimem mais que os outros. África que pelas suas riquezas naturais, que são incomensuráveis, o seu clima, a fertilidade das suas terras, deveria fazer parte da solução dos problemas do planeta, transformou-se através da prática dos seus dirigentes políticos ( normalmente, anormalmente ricos) num grande problema, económico e humano.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Crise junta Ferreira Leite, Guterres e Eanes
18:30 Sábado, 26 de maio de 2012, 1
Redação do 'Público' analisa 'processo Relvas'
15:27 Sábado, 26 de maio de 2012, 13
Contas do PS com saldo negativo de 3,15 milhões
15:07 Sábado, 26 de maio de 2012, 21
A equipa do melhor restaurante português no Mundo
15:00 Sábado, 26 de maio de 2012, 1
Silva Carvalho mandou espiar Pinto Balsemão
14:30 Sábado, 26 de maio de 2012,
Smashing Pumpkins e Linkin Park no segundo dia do Rock in Rio
13:21 Sábado, 26 de maio de 2012,
Morreu o pai do comando à distância
20:07 Quarta feira, 23 de maio de 2012, 8
Freeport: Sócrates ameaça processar quem invocar o seu nome
19:23 Terça feira, 22 de maio de 2012, 143
E a celebridade mais poderosa do mundo é...
19:57 Segunda feira, 21 de maio de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB