A filha de Tomé Féteira, Olímpia Féteira de Menezes, acusa Sousa Cintra de não ter pago a totalidade da propriedade comprada ao seu pai e insiste que Rosalina Ribeiro, a ex-companheira do milionário assassinada no Brasil, se apropriou de verbas que deveriam estar englobadas na herança. Assegura ainda que o advogado Duarte Lima ficou com parte deste dinheiro.
As declarações de Olímpia Féteira constam de uma carta enviada esta semana ao Expresso. Nela, a herdeira insurge-se por termos divulgado informações que atestam o mau relacionamento que teve com o pai, as quais, segundo afirma, foram "pontuais" e devidos à "nefasta influência que Rosalina Ribeiro sempre teve" sobre o companheiro.
Há duas semanas, o Expresso divulgou uma carta do empresário, de novembro de 1991, que revelava divergências entre pai e filha. Olímpia era acusada de ter um "ingrato caráter", de cometer "infâmias" e de usar um "cínico estratagema"; na passada semana revelámos o conteúdo de um vídeo, gravado quase nove anos depois, em março de 2000, em que era qualificada de "víbora".
Eis a carta de Olímpia Féteira de Menezes:
"1) No passado dia 14, a edição do Expresso incluiu um artigo intitulado 'As revelações de Rosalina ao advogado Duarte Lima' (página 12). No contexto do referido artigo, sob o subtítulo 'Uma guerra antiga, sempre pelo dinheiro', o jornalista optou por explorar o filão das relações pai/filha, publicitando excertos de uma carta que trata de assuntos particulares. Além de revelar um deplorável entendimento do conceito de 'jornalismo de investigação', à revelia daquilo a que o semanário Expresso habituou os seus leitores durante longos anos, a peça jornalística em causa trata de assuntos que nada acrescentam, pelo contrário, aos factos graves que a imprensa diariamente tem trazido a lume: o homicídio de uma cidadã portuguesa no Rio de Janeiro e o desvio de milhões de euros do património hereditário de Lúcio Tomé Féteira, grande parte dos quais recebidos pelo Dr. Domingos Duarte Lima. No que ao teor da notícia respeita, devo sublinhar serem inteiramente falsas as insinuações de que os desentendimentos entre mim e o meu pai fossem constantes e motivados por questões materiais. Foram, sim, pontuais e o fruto da minha frontal oposição (na qual de resto não estive só) à influência nefasta que Rosalina Ribeiro sempre teve sobre o meu pai. E no que respeita a excessos linguísticos de meu pai, sempre os levei à conta da natureza temperamental e caráter influenciável, os mesmos que explicam que um antissalazarista convicto tenha vindo, depois do 25 de abril, proclamar Salazar como 'o maior estadista do século XX'. É este contexto familiar e privado que o autor da peça não conhece, nem podia conhecer, razão qual deveria ter evitado escrever sobre assuntos pessoais que desconhece.
2) Na edição do Expresso de dia 21, sob os títulos 'Exclusivo: o último vídeo de Féteira' e 'A sessão em que o milionário se queixa da família' são dados à estampa, e publicitados online no site do referido semanário, excertos - habilmente truncados - de uma entrevista feita a meu pai por uma psicóloga, visando proceder à sua 'avaliação psicológica' antes da celebração de um negócio imobiliário com o Sr. Sousa Cintra. Se não é de espantar que o vídeo tenha sido fornecido por 'pessoas ligadas a Rosalina Ribeiro', não deixo de ficar perplexa com a fixação do Expresso em detalhes da vida privada, ao ponto de fazer dos mesmos manchete ('Filme inédito: as últimas imagens de Féteira') e de lhe dedicar duas páginas de texto e imagens. Ao fazê-lo, o autor da peça prossegue uma linha de 'jornalismo de investigação' muito peculiar, caracterizada por ignorar por completo as inúmeras notícias que têm vindo a lume sobre o homicídio e desvios de dinheiro da herança e por privilegiar factos de natureza pessoal e secundária. Tal como na peça jornalística referida no parágrafo anterior, também a referida entrevista contém afirmações falsas e atentadoras do meu bom nome, bem como do dos demais herdeiros. Uma vez mais, desconhece o jornalista responsável o contexto em que foi realizada a referida gravação vídeo, e cujos detalhes entendo não dever por ora revelar, muito menos sob a 'intimação' de uma peça jornalística. Sobre a matéria direi apenas que eu própria e diversas pessoas próximas de meu pai o haviam alertado para os diversos riscos envolvidos no negócio que estava prestes a celebrar - receios que, infelizmente, se vieram a revelar inteiramente justificados -, sendo de crer que tais avisos não terão agradado a algumas das pessoas que lucraram com o negócio e que, consequentemente, espicaçaram e indispuseram Lúcio Tomé Féteira. Destaco, à cabeça de tais pessoas, Rosalina Ribeiro a qual, de resto, viria após a morte de meu pai a apropriar-se ilicitamente do valor de 865 mil reais, correspondente à primeira e única prestação paga do preço de venda do terreno. Esta prestação foi paga pelo Sr. Sousa Cintra a meu pai após a celebração do contrato e depositada na conta deste último junto do Banco Boston, como de resto resulta da referida entrevista. Tal desvio de dinheiro, bem como outros praticados por Rosalina Ribeiro, constam da queixa-crime que tempestivamente apresentei junto do DIAP de Lisboa e que se encontra disponível para consulta".
... mas empresário desmente
O empresário algarvio que comprou a fazenda de 800 hectares em Maricá a Lúcio Tomé Féteira, a 23 de março de 2000, garante ter pago a tranche que lhe era devida no negócio. "Paguei o que tinha a pagar a Féteira, como estava acordado. As restantes tranches foram pagas por quem me comprou a propriedade, alguns anos depois". Sousa Cintra diz-se surpreendido com as declarações de Olímpia Féteira de Meneses sobre as transações deste negócio e pede à filha do milionário que o deixe de fora de uma guerra que não é a sua. "Ela recebeu a totalidade do dinheiro. Não pode dizer agora o contrário. Não fiquei a dever nada a ninguém. Honro os meus compromissos". O ex-presidente sportinguista vai mais longe e afirma que se for necessário poderá mostrar as provas que corroboram as suas declarações: "Tenho os documentos todos relativos ao negócio".
Nota da direção
Olímpia Féteira, os conflitos familiares e o Expresso
O Expresso publica a carta que Olímpia Féteira nos enviou invocando o Direito de Resposta, não por a tal se sentir obrigado, mas porque considera que contém informações relevantes.
Não reconhecemos à autora da carta qualquer capacidade para avaliar os critérios editoriais do Expresso, para mais num caso em que cumprimos integralmente todos os procedimentos ética e legalmente exigíveis. Em ambas as edições publicámos os comentários que Olímpia Féteira achou pertinente fazer (e que agora repete) e se mais não acrescentámos foi porque mais não nos disse.
Afinal, o que Olímpia Féteira contesta é que tenhamos revelado o conteúdo de dois documentos, um escrito e outro gravado em vídeo, cuja autenticidade reconhece. Sendo um de 1991 e o outro de 2000, mostram que, em épocas bem distintas, Tomé Féteira tinha pouca consideração por alguns familiares. Não fizemos conjeturas, nem acusações, revelámos conteúdos.
Continuaremos a acompanhar este caso com a independência e o rigor que caracterizam a informação do Expresso.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010