25 de maio de 2013 às 2:33
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Olho por olho dente por dente

Em Julho de 2008, Israel sofreu uma das piores humilhações em 60 anos. Num posto fronteiriço com o Líbano, houve uma troca de corpos e caixões. Através da Cruz Vermelha, Israel devolveu ao Hezbollah os restos de 199 guerrilheiros mortos e 5 vivos. Entre eles estava Samir Kuntar, um libanês condenado a prisão perpétua e o mais odiado prisioneiro de Israel. O que não o impediu de se licenciar na Universidade Aberta e de casar com uma israelita árabe, da qual se divorciou. O Hezbollah devolveu dois caixões com os restos dos soldados raptados no sul do Líbano, Ehud Goldasser e Eldad Regev. Os mesmos soldados raptados que tinham sido a causa, ou o pretexto, para o bombardeamento do Líbano em 2006. Uma guerra que correu mal a Israel e que apenas serviu para reforçar o poder do Hezbollah. Ao contrário do Hamas, o Hezbollah tem um chefe político astuto e muito inteligente, Hassan Nasrallah. Para Nasrallah, este foi um momento de supremo triunfo sobre o inimigo, e os militantes foram recebidos com honras de heróis nacionais pelo estado-maior do poder libanês, incluindo o governo e os militares. Nasrallah fez um discurso de vitória, e Samir Kuntar jurou regressar a Israel para continuar a jihad.

Em Israel, as famílias gritaram de desespero quando viram os caixões, embora ninguém tivesse esperanças de recuperar os soldados vivos. Os falcões israelitas e americanos acharam a troca humilhante, mas Ehud Olmert sabia que 60% da população apoiava o seu gesto e que só ele podia fazê-lo, porque estava de saída. Em Israel, nada se faz por acaso nem por espontaneidade e tudo é planeado com tempo e método. O ethos da sobrevivência do judeu assim o determina. Israel nunca deixa os seus para trás - esta é a característica essencial de um povo. A outra característica é a vingança.

Samir Kuntar, em especial, é um criminoso repugnante, na versão israelita (na qual acredito). Em 1979, o druso Kuntar, treinado pela FLP, chefiou uma operação num barco até Nahariya, no norte de Israel, e atacou uma casa para fazer reféns. Raptou o pai e uma filha de 4 anos e deixou para trás, escondidas no sótão, a mãe e outra filha de 2 anos. Na praia, apanhado por uma patrulha israelita, matou o pai com um tiro nas costas e esmagou o crânio da criança contra um rochedo com a coronha da espingarda. No sótão, a mãe tapou a boca da filha com tanta força para ela não chorar que a sufocou. Foi a única sobrevivente. Uma história que já acontecera no passado, com esconderijos e campos de extermínio. Fora, desse passado, a única sobrevivente.

Quando vi na televisão as imagens de Samir Kuntar com a coroa de louros e ouvi a retórica, pensei que Israel esperaria a sua hora. E que Olmert sabia o que fazia. Quando se está de saída, fica-se com as mãos livres para fazer muita coisa. O Hamas, que não tem a inteligência táctica e estratégica do Hezbollah, reagiu logo dizendo que a política dos raptos de soldados era a única possível para obter a libertação dos 10 mil prisioneiros palestinianos. O porta-voz de Ismail Haniyeh o disse. O soldado Gilad Shalit continuava raptado, e as tentativas de negociação falharam. Há pouco tempo, numa macabra encenação de vitória "moral", o Hamas passeou num palco, por entre o som dos tiros para o ar, um "actor" palestiniano amarrado e vendado a fazer de Gilad. Pensei: assim que acabar o cessar-fogo, Israel entra em Gaza. Antes de Olmert ir embora e antes que Bush e Cheney vão embora, Israel vai montar a sua operação militar em Gaza custe os mortos que custar. Gilad regressará a casa.

Esta invasão e controlo de Gaza não é uma resposta aos Qassam nem uma operação espontânea por violação do cessar-fogo. Não é um acto de legítima defesa nem um acto de resposta à agressão. Esta operação militar, ponderada, planeada meses a fio, é um acto de retaliação e uma demonstração de força bruta antes de uma nova Administração americana vir impor novas regras. Esta operação é um acto de vingança contra actos de vingança. A história da região é esta. Há séculos que é assim. Israel não podia continuar a tolerar as provocações do Hamas. E o Hamas não tem intenções de negociar com Israel. Enquanto o Irão o financiar (e aqui entram outras considerações sobre as lutas entre hegemonias sunitas e xiitas na região, com os sauditas e os Emiratos a pingarem dólares) e enquanto o fraco e corrupto Egipto de Mubarak consentir no cerco de Gaza e no contrabando de armas, o Hamas vive para administrar a luta.

Na Cisjordânia, muitos palestinianos gabavam a máquina de guerra e a disciplina do Hamas em Gaza, mesmo os da Fatah. Como se Israel, que tudo sabe e tudo vê, deixasse. Abbas está de saída, e as eleições avizinham-se. Os palestinianos não têm um chefe, e Israel meteu na prisão Marwan Barghouti, que podia ter sido um. Soluções diplomáticas? Nunca deram resultado. É preciso não conhecer os parceiros. É preciso não conhecer a hipocrisia da Europa e do Quarteto, dos árabes, sobretudo sírios, egípcios e jordanos, e a supremacia militar de Israel, tutelada pela América e que Obama continuará a tutelar. Ninguém quer saber dos palestinianos apanhados no meio desta guerra de interesses e corrupções. Oprimidos e destituídos, palestinianos civis vão morrendo todos os dias em cativeiro, crianças decepadas antes de se tornarem guerrilheiros, gerações militantes nascidas na humilhação, violência e crueldade da Ocupação.

Vamos pagar um preço pelo falhanço colectivo da paz. Todos nós. E Israel também. O mundo do Islão está a mudar, e o que vem aí é, de facto, uma guerra de civilizações. Por mais que os bons espíritos digam que não. Muitos mortos haverá para contar. Muitos atentados para evitar.

Comentários 5 Comentar
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Não percebo
porque é que a Clara acha que foi uma humilhação para Israel. Se 2 mortos valem 5 vivos mais um bónus de 199 mortos quem são os “humilhados”? Se de um lado 2 simples soldados são cobarde e cruelmente mortos em cativeiro, e do outro lado 1 odiado prisioneiro não só não foi morto como até teve possibilidades de se licenciar numa Universidade, de casar e de se divorciar, em que lado do conflito estão as bestas?
Re: Não percebo... Ver comentário
Fantástico
Este fds os cronistas do Expresso esmeraram-se! Brilhante texto! Ele foi o Madrinha, o Coutinho, a Clara... Muto bem! Este é o mais interessante e apropriado artigo sobre a recente questão na Faixa de Gaza que li. Fez melhor a Clara que os 'especialistas' que andam para aí a mandar bitaites. Claro, este texto não é especialmente conveniente, para quem queira receber os louros das eminências pardas nacionais. Eu sou estupidamente pro-israelita nesta questão mas o texto, não o sendo de todo, é admirável pelo seu equilibrio. Eu não quero ler nos media a minha opinião. Quero ler textos de qualidade!
Olho por olho dente por dente...
Artigo interessante... que acaba por não se pronunciar pela questão israelo-palestiniana, mas sim pelo que ela tem causado/irá causar às relações entre o Ocidente e o universo Islâmico mais próximo.
Tirando alguns pormenores nos 6 parágrafos iniciais, 100% de acordo com a conclusão expressa no 7.o e último parágrafo
Meu medo
Meu único medo é que os impérios são transitórios, como nossas vidas curtas. Meu grande medo é que as forças combatidas, de tanto serem rechaçadas, se convertam em potências e, no revide, limpem a face da terra de todos os arrogantes, de todos os inúteis, mas também de todos os inocentes que estão no Ocidente. Se Israel sobreviveu ao contar dos tempos, qual seria então a razão para que outros não logrem idêntico sucesso? E idêntica manha de vingança? Como deixa ver a articulista, a hipocresia de todos nós e de alguns deles, poderá ser fatal para todos. De algum modo, o destino do Ocidente está sendo selado, como foi quando o Império Romano ruiu por terra. Nosso tempo de vida é exígüo para testar a imprudência de uns e outros. Nada é eterno o suficiente para resistir indefinidamente, nem Israel, que seria o predileto de um famoso deus. A História é o testamenteiro dos legados de uma Humanidade surda, cega e muda.
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