Olho por olho dente por dente
Em Julho de 2008, Israel sofreu uma das piores humilhações em 60 anos. Num posto fronteiriço com o Líbano, houve uma troca de corpos e caixões. Através da Cruz Vermelha, Israel devolveu ao Hezbollah os restos de 199 guerrilheiros mortos e 5 vivos. Entre eles estava Samir Kuntar, um libanês condenado a prisão perpétua e o mais odiado prisioneiro de Israel. O que não o impediu de se licenciar na Universidade Aberta e de casar com uma israelita árabe, da qual se divorciou. O Hezbollah devolveu dois caixões com os restos dos soldados raptados no sul do Líbano, Ehud Goldasser e Eldad Regev. Os mesmos soldados raptados que tinham sido a causa, ou o pretexto, para o bombardeamento do Líbano em 2006. Uma guerra que correu mal a Israel e que apenas serviu para reforçar o poder do Hezbollah. Ao contrário do Hamas, o Hezbollah tem um chefe político astuto e muito inteligente, Hassan Nasrallah. Para Nasrallah, este foi um momento de supremo triunfo sobre o inimigo, e os militantes foram recebidos com honras de heróis nacionais pelo estado-maior do poder libanês, incluindo o governo e os militares. Nasrallah fez um discurso de vitória, e Samir Kuntar jurou regressar a Israel para continuar a jihad.
Em Israel, as famílias gritaram de desespero quando viram os caixões, embora ninguém tivesse esperanças de recuperar os soldados vivos. Os falcões israelitas e americanos acharam a troca humilhante, mas Ehud Olmert sabia que 60% da população apoiava o seu gesto e que só ele podia fazê-lo, porque estava de saída. Em Israel, nada se faz por acaso nem por espontaneidade e tudo é planeado com tempo e método. O ethos da sobrevivência do judeu assim o determina. Israel nunca deixa os seus para trás - esta é a característica essencial de um povo. A outra característica é a vingança.
Samir Kuntar, em especial, é um criminoso repugnante, na versão israelita (na qual acredito). Em 1979, o druso Kuntar, treinado pela FLP, chefiou uma operação num barco até Nahariya, no norte de Israel, e atacou uma casa para fazer reféns. Raptou o pai e uma filha de 4 anos e deixou para trás, escondidas no sótão, a mãe e outra filha de 2 anos. Na praia, apanhado por uma patrulha israelita, matou o pai com um tiro nas costas e esmagou o crânio da criança contra um rochedo com a coronha da espingarda. No sótão, a mãe tapou a boca da filha com tanta força para ela não chorar que a sufocou. Foi a única sobrevivente. Uma história que já acontecera no passado, com esconderijos e campos de extermínio. Fora, desse passado, a única sobrevivente.
Quando vi na televisão as imagens de Samir Kuntar com a coroa de louros e ouvi a retórica, pensei que Israel esperaria a sua hora. E que Olmert sabia o que fazia. Quando se está de saída, fica-se com as mãos livres para fazer muita coisa. O Hamas, que não tem a inteligência táctica e estratégica do Hezbollah, reagiu logo dizendo que a política dos raptos de soldados era a única possível para obter a libertação dos 10 mil prisioneiros palestinianos. O porta-voz de Ismail Haniyeh o disse. O soldado Gilad Shalit continuava raptado, e as tentativas de negociação falharam. Há pouco tempo, numa macabra encenação de vitória "moral", o Hamas passeou num palco, por entre o som dos tiros para o ar, um "actor" palestiniano amarrado e vendado a fazer de Gilad. Pensei: assim que acabar o cessar-fogo, Israel entra em Gaza. Antes de Olmert ir embora e antes que Bush e Cheney vão embora, Israel vai montar a sua operação militar em Gaza custe os mortos que custar. Gilad regressará a casa.
Esta invasão e controlo de Gaza não é uma resposta aos Qassam nem uma operação espontânea por violação do cessar-fogo. Não é um acto de legítima defesa nem um acto de resposta à agressão. Esta operação militar, ponderada, planeada meses a fio, é um acto de retaliação e uma demonstração de força bruta antes de uma nova Administração americana vir impor novas regras. Esta operação é um acto de vingança contra actos de vingança. A história da região é esta. Há séculos que é assim. Israel não podia continuar a tolerar as provocações do Hamas. E o Hamas não tem intenções de negociar com Israel. Enquanto o Irão o financiar (e aqui entram outras considerações sobre as lutas entre hegemonias sunitas e xiitas na região, com os sauditas e os Emiratos a pingarem dólares) e enquanto o fraco e corrupto Egipto de Mubarak consentir no cerco de Gaza e no contrabando de armas, o Hamas vive para administrar a luta.
Na Cisjordânia, muitos palestinianos gabavam a máquina de guerra e a disciplina do Hamas em Gaza, mesmo os da Fatah. Como se Israel, que tudo sabe e tudo vê, deixasse. Abbas está de saída, e as eleições avizinham-se. Os palestinianos não têm um chefe, e Israel meteu na prisão Marwan Barghouti, que podia ter sido um. Soluções diplomáticas? Nunca deram resultado. É preciso não conhecer os parceiros. É preciso não conhecer a hipocrisia da Europa e do Quarteto, dos árabes, sobretudo sírios, egípcios e jordanos, e a supremacia militar de Israel, tutelada pela América e que Obama continuará a tutelar. Ninguém quer saber dos palestinianos apanhados no meio desta guerra de interesses e corrupções. Oprimidos e destituídos, palestinianos civis vão morrendo todos os dias em cativeiro, crianças decepadas antes de se tornarem guerrilheiros, gerações militantes nascidas na humilhação, violência e crueldade da Ocupação.
Vamos pagar um preço pelo falhanço colectivo da paz. Todos nós. E Israel também. O mundo do Islão está a mudar, e o que vem aí é, de facto, uma guerra de civilizações. Por mais que os bons espíritos digam que não. Muitos mortos haverá para contar. Muitos atentados para evitar.


