Obama, Lula e as eleições
A cena e a frase ficaram famosas na diplomacia internacional. Barack Obama entrou na sala do hotel onde os líderes da China, Índia, Brasil e África do Sul negociavam discretamente uma posição comum a apresentar ao resto do mundo nas últimas horas da caótica Cimeira de Copenhaga e disse "Quero sentar-me ao lado do meu amigo Lula."
Lembrei-me deste episódio por causa da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil e das eleições para o Congresso dos EUA. A primeira eleição terá lugar amanhã. A segunda na terça-feira. Lula e Obama terão grande influência nos resultados. Os dois Presidentes partilham coisas importantes. A história das suas vidas, as suas improváveis carreiras políticas e vitórias eleitorais foram uma espécie de poção mágica para a imagem internacional do Brasil e dos EUA.
O pragmatismo é a segunda coisa que une Obama e Lula. O do Presidente americano é um pragmatismo intelectual de um homem cético, aberto ao debate mas ainda inexperiente em Washington. Obama tem sido um político distante do ponto de vista emocional. O pragmatismo de Lula é muito diferente. É um pragmatismo das trincheiras políticas, um pragmatismo que assenta na sua longa experiência e na grande capacidade para comunicar de uma forma simples e humana questões complexas de política pública.
Esta diferença ajuda a explicar o que está a acontecer aos dois Presidentes. No Brasil, Lula despede-se da presidência com uma taxa de aprovação na casa dos 80%. A maior parte dos brasileiros sente que o país vive um momento único na sua história. Este sentimento de euforia nacional deve praticamente tudo à situação económica e explica o voto de confiança de muitos brasileiros em Dilma Rousseff, a arriscada escolha de Lula para candidata do Partido dos Trabalhadores à presidência.
Mais a norte, em Washington, Barack Obama está com uma taxa de aprovação de 43% junto dos eleitores registados. Em 1982 e 1994, Ronald Reagan e Bill Clinton estavam com números semelhantes. A diferença é que Reagan e Clinton chegaram à presidência com muito mais experiência política do que Obama. Esta falta de experiência e as opções tomadas logo no início do mandato parecem-me explicar grande parte do problema que o Presidente tem pela frente.
Se olharmos para a geografia e para os números das sondagens vemos que a chamada "flyover America" - ou seja, a América entre a costa Leste e Oeste - tem cada vez mais dúvidas em relação a Obama. Uma sondagem publicada esta semana pelo "New York Times/CBS" mostra que grupos decisivos na eleição de Obama há dois anos - mulheres, católicos, independentes e os menos ricos - estão a inclinar-se para os republicanos. Tal como acontece no Brasil, nos EUA a economia é a grande responsável pelas dificuldades do Presidente e dos candidatos democratas às eleições de terça-feira.
A crise financeira e a recessão de 2008/2009 criaram uma situação muito difícil para qualquer decisor político. As memórias de Hank Paulson, o último secretário do Tesouro da administração W. Bush, estão recheadas de episódios verdadeiramente dramáticos. O drama continuou com a Administração Obama. Mas como Martin Wolf chamou a atenção no "Financial Times" na quarta-feira, as medidas tomadas primeiro por George W. Bush e depois por Obama evitaram uma situação muito pior.
O problema é que a agenda legislativa do Presidente nos primeiros dois anos da sua administração privilegiou a saúde e as alterações climáticas. Aos olhos dos americanos, a economia e, sobretudo, o desemprego não foram a primeira prioridade de Obama. Olhando um pouco para trás, fico com a sensação de que o Presidente quis sobretudo ficar para os livros de história.
Tudo indica que Obama será atropelado politicamente na próxima terça-feira. E, aí, talvez não fosse má ideia que se voltasse a sentar ao lado do seu amigo Lula.
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anos depois da sua eleição, Lula despede-se da presidência do Brasil com uma taxa de popularidade na casa dos 80%. Nos EUA, Obama chega a meio do seu primeiro mandato com a sua popularidade nos 43%. O que une e separa os dois Presidentes?
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Texto publicado na edição do Expresso de 30 de outubro de 2010


