Fica bem ser cínico em relação à emergência de Obama na cena política mundial: "na Europa sequer seria considerado de esquerda" (dizem os da esquerda purista), "a diplomacia é uma forma de defender a hegemonia americana por outros meios" (dizem os saudosos de procedimentos menos ambíguos como as guerras preventivas)", "a qualquer momento vai-vos desiludir" (diz muita direita ainda a digerir a derrota de McCain).
Concedo que olhando para o historial
possa ser inteligente guardar uma reserva em relação ao Nobel da Paz. Os norueguesses já meteram uns quantos pregos e Obama, vale a verdade, é um um neófito nas lides pela pacificação dos povos. Mas nem assim consigo partilhar do cinismo que por aí perpassa. Ao abjurar tão largamente o infame legado de Bush, Obama já fez mais pelo diálogo cultural e pela defesa dos mais elementares direitos civis do que muitos idealistas românticos no espaço de uma vida (ainda que terminada em martírio). O Nobel da Paz será talvez a primeira expressão substantiva de que Obama não foi eleito só pelos americanos e desengane-se quem pensa que um prémio atribuído nestas condições, tão in medias res, lhe acrescenta sobretudo fama e glória. O mínimo que espero é que a esta honra o persiga como um pesadelo, como o espectro de um abismo. Uma suave ao descida realismo patriótico, à revelia de como foi celebrado pelo mundo, está cada vez mais fora de hipótese. As estátuas em vida podem ser apenas ridículas ou podem funcionar como um duplo atroz que mangifica os fracassos do vivo. Obama foi muito bem entalado. Andaram bem os noruegueses.
Genet dizia que não queria que o mundo mudasse para poder estar sempre contra ele. Eu gosto muito do Obama e... Vocês perceberam.