Para evitar sobressaltos, a mãe de Ana Filipa Ferreira tinha comprado um telemóvel destinado a receber uma só chamada - a do Hospital de Santa Marta (Lisboa) a anunciar que os pulmões para o transplante da filha já estavam disponíveis. No Dia de Ramos do ano passado, o telemóvel tocou. Ana Filipa foi da Trofa, onde vive, para a capital com um misto de sensações. "Durante a viagem estava bem disposta. Sabia que era a única salvação que tinha, mas ao mesmo tempo sentia apreensão. Pensei que ainda poderia cá estar mais uns dias e se a operação corresse mal não tinha mais nenhum", lembra a jovem de 18 anos. O diagnóstico de fibrose quística (uma doença genética que afecta sobretudo os pulmões, o pâncreas e o fígado) chegou aos cinco anos, o primeiro internamento aos sete. Desde então não passou um dia sem que Ana Filipa tomasse antibióticos. "Depois dos 15 anos, os internamentos seguiam-se uns aos outros. Passava três semanas no hospital e três em casa. Antes do transplante, tinha de receber oxigénio 24 horas por dia. Já não tinha qualidade de vida".
Os estudos de Ana Filipa "não vão mal". Está no 12º ano, "a acabar cadeiras do 11º". Antes de receber os pulmões que lhe salvaram a vida, "faltava muito às aulas e chegava sempre atrasada. Tinha muitos comprimidos para tomar de manhã, mais o oxigénio... Não conseguia correr para a escola e, quando lá chegava, não falava porque se tentasse tossia muito. Agora, os professores dizem que não me calo. Acho que estou a recuperar o tempo perdido", ri.
Já ganhou 11 quilos e garante que neste momento não tem qualquer sintoma de fibrose quística. "Agora é estimar estes pulmões ao máximo porque depois de se desgastarem, o que deverá acontecer ao fim de 10 a 15 anos, já não há mais nenhuma hipótese", diz, feliz por ter mais esse tempo. "Em Abril já posso tirar a máscara".