18 de abril de 2014 às 20:05
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O Som e a Fúria

Mário Cláudio

Seja ela religiosa, ou seja profana, não há festa à portuguesa, e sobretudo nos meses de Verão, que não se manifeste pela desenfreada barulheira. Debruçados sobre o fenómeno uns quantos etnólogos, antropólogos e viajantes, entre os quais o britânico Rodney Gallop, hoje em dia mais ou menos esquecido, atribuem-no a uma atávica intenção de afugentar os espíritos maus. Foguetes e petardos, ribombos de zés-pereiras, gritaria de comadres excitadas, contando por pano de fundo com a estentória performance de várias bandas, destinar-se-iam a desinfestar os ares de entidades deletérias, susceptíveis de trazer maleitas aos humanos, e aos bichos domésticos, e de desencadear a fome e a guerra.

A chinfrineira que vai de par com a alegria colectiva, e que se exprime pelo excesso de decibéis, constitui aliás uma constante dos países mediterrânicos, aqueles que, carentes de muita coisa, menos de gáudio desnorteado, procuram iludir a sua triste sorte com quanto baste de estonteamento sonoro. Enlouquece o terreiro da vila, e o areal da praia, com altifalantes que vomitam três musicatas sobrepostas, e com transístores que misturam o relato de futebol à berrata da criançada, e a gente sente-se em casa. Roncam os tubos de escape livre, e os engenhos dos velocípedes, arenga a plenos pulmões o vendedor de cobertores, e o vocalista de serviço expectora a sua desafinação, adornado por quatro beldades rechonchudas, e de barriga ao léu, que guincham nas pausas do meneio das suculentas ancas.

O ruído arbitrário afirma-se como um atestado de presença, quer se trate da telefonia do automóvel, distribuindo a playlist do jovem condutor por quem se lhe depare no percurso, quer do magote de adolescentes que no autocarro proclama aos brados a fecundidade vocabular que armazena no tocante às partes pudendas. E em fase tão soturna como esta que atravessamos, órfã de horizontes de límpida quietude, e poluída pela enxovalhada oratória dos ministros, se não recorrermos ao charivari, a fim de não ouvirmos o que não nos interessa, ou de colhermos algo que nos divirta, enfrentamos o risco de engrossar a legião dos inúmeros deprimidos nacionais. Venha portanto o estrondo salvar-nos do tédio, e do silêncio que entre os pobres atrasados convida ainda a reflectir!

Perguntar-se-á no entanto, não é afinal de som e fúria que se faz este nosso mundo, criado em papel e tinta à imagem e semelhança do gigante Shakespeare? De um tal binómio se compõe na verdade a história que contamos, maluquinhos que de quando em quando supomos articular uma frase com juízo.

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Será possível?
Eis quando, entediado e meio estonteado pelas férias mais impostas que queridas, abro uma crónica ao calhas no Expresso e a dita cuja é legível. Mais: é inteligente!
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