23 de maio de 2013 às 10:13
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O risco de um novo choque petrolífero

Barril de Brent com preços ao nível de abril de 2008. Um prémio de risco geopolítico somou-se à especulação.
Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)
O fantasma do choque petrolífero regressou Reuters/Kim Kyung Hoon O fantasma do choque petrolífero regressou

Com o preço dos futuros do barril de Brent acima de 102 dólares, o fantasma do choque petrolífero regressou, tanto mais que esta variedade de crude é hoje bitola para metade do petróleo transacionado no mundo.

Desde que o preço desta variedade galgou o patamar dos 80 dólares por barril em outubro do ano passado que reapareceu, entre os analistas e académicos, a discussão sobre a possibilidade de uma escalada similar à de 2008.

O papel da financeirização deste mercado com o regresso em força da especulação em torno de 'barris de papel' voltou à baila. O próprio relatório da Comissão Europeia sobre as matérias-primas, divulgado esta semana, reconhece a 'ligação' entre a especulação e a alta de preços, ainda que não a ache determinante.

Mas o irromper dos acontecimentos no Magrebe e no Machreq, iniciados com a Revolução de Jasmim na Tunísia e prosseguidos com as revoltas populares no Egito, adicionou à especulação um elemento adicional - o prémio de risco geopolítico.

Fantasma do Suez

Desde a fuga do ditador tunisino Ben Ali, o preço do barril de Brent já subiu 5%. Durante os últimos dias das marchas e concentrações de protesto no Cairo, Alexandria, Suez e outras cidades contra a ditadura de Mubarak, o preço do Brent ultrapassou a linha psicológica dos 100 dólares por barril, valores que já não se verificavam desde abril de 2008, na fase inicial da Grande Recessão.

O temor imediato dos investidores no mercado do crude advém do risco de bloqueios ou sabotagens no canal do Suez, um dos mais importantes chokepoints marítimos (passagens estreitas, como estreitos ou canais) das rotas comerciais, e pelo oleoduto Sumed que atravessa aquele país desde o Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. No conjunto, atravessam o Egito diariamente 2,2 milhões de barris diários, 3% da produção mundial, sublinha-nos James Hamilton. Este cenário já ocorreu em 1956 e 1957, mas então o canal representava muito mais na geografia do petróleo, 8,8% da produção mundial.

A crise do Suez daqueles anos pode ser considerada o primeiro verdadeiro choque petrolífero, refere James Hamilton, professor de Economia na Universidade da Califórnia em San Diego, que, recentemente escreveu uma história destes choques. "No pico da guerra do Suez, 10,1% da produção mundial foram retirados do mercado, a maior disrupção até hoje", diz o professor. O impacto no abastecimento à Europa foi devastador.

Cenário 'hipotético'

Os americanos ainda consideram esse cenário como "hipotético". Mas o general James Mattis, do Comando Central americano responsável por operações militares entre o Egito e o Paquistão, disse, esta semana, num encontro em Londres promovido pelo think tank Policy Exchange, que "se isso acontecer, obviamente que teremos de lidar com a situação diplomática, económica e militarmente, seja como for", segundo reportou a Reuters.

Problema mais sério poderá ocorrer se as revoltas populares na região atingirem o 'coração' da produção do ouro negro. "Um impacto geopolítico severo só ocorrerá se o contágio for mais longe, ou seja, para países como a Arábia Saudita. A Tunísia e mesmo o Egito são produtores modestos. Se isso acontecer, então, teremos o primeiro cisne negro do ano", refere-nos, por seu lado, Barry Eichengreen, professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Não é claro, que, apesar dos receios, esse contágio ocorra a curto prazo, repetindo o disparo de 2008. Mas, diz Hamilton, "ainda que não saibamos quando nem como, é provável que assistamos a acontecimentos posteriores nesta região que venham a ter efeito significativo no fornecimento global do petróleo".

No entanto, a própria evolução da transição no Egito poderá marcar o panorama na região. "Se o Egito se move no sentido de uma democracia à turca, creio que não haverá impacto de longo prazo na economia do petróleo. Mas se evoluir para o modelo iraniano, então a vida vai ficar bem mais complexa", diz David Summers, professor emérito da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri, diretor do Rock Mechanics & Explosives Research Center. Summers admite que o contágio se espalhe mais provavelmente na direção do Magrebe ocidental, "o que poderá ter impacto nos fornecimentos do gás e do petróleo em simultâneo, pois o equilíbrio entre a oferta e a procura nestes mercados é hoje muito mais apertado do que no passado".

De facto, qualquer turbulência na produção ou no trânsito do crude no Magrebe, no Machreq e na Península Arábica pode ser fatal face ao aumento esperado do consumo mundial em 2011. As projeções de aumento do consumo para este ano variam entre um adicional de 1,4 milhões de barris por dia, segundo a Agência de Informação americana de Energia, e 1,8 milhões, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

O risco geopolítico agrava uma situação estrutural - desde 2005 que a produção mundial de petróleo não tem aumentado anualmente, dando a imagem de um 'planalto', com oscilações entre os 72 e 73 milhões de barris diários. A folga para enfrentar cisnes negros geopolíticos - ou seja eventos inesperados - é curta.

Uma consequência colateral, já admitida por Charles Bean, vice-governador do Banco de Inglaterra, é a possibilidade dos bancos centrais terem de aumentar as taxas diretoras, mesmo contra vontade, face à pressão da inflação importada por via do disparo generalizado nos preços das commodities agrícolas, industriais, energéticas e metais.


CHOQUES PETROLÍFEROS


1956-1957 Crise do Suez. Produção do Médio Oriente caiu 1,7 milhões de barris por dia em novembro de 1956. Quebra de 10,1% da produção mundial no pico do choque. Europa dependia em 2/3 desta região. Pelo canal do Suez passavam 8,8% da produção mundial

1973-1974
Embargo pela OPEP. Quebra de 7,5% da produção mundial. Preço duplica a 1 de janeiro de 1974

1978-1979
Revolução Iraniana. Quebra de 7% da produção mundial. Preço médio anual aumenta em 12% de um ano para o outro

1980-1981
Guerra Irão-Iraque. Preço atinge um pico de 35 dólares durante 1980. A variação do preço médio anual de 1980 para 1981 foi de 200%

1990-1991
1ª Guerra do Golfo. Preço médio mensal do crude aumentou 106% entre julho e setembro de 1990

2003
Greves na Venezuela e 2ª Guerra do Golfo. A variação do preço médio anual de 2003 para 2004 foi, apenas, de 13%

2008
Preço do petróleo atinge máximo histórico de 147 dólares em julho. Produção mundial estagnou desde 2005 face a um disparo da procura. Influência da especulação financeira em 'barris de papel'. O preço médio mensal do Brent aumentou 57% entre janeiro e julho

2011
Hipótese de um novo pico por efeito da Revolução de Jasmim e do contágio na região. A variação do preço do Brent é de 5%, desde que o ditador tunisino abandonou o país a 14 de janeiro

Texto publicado no caderno de Economia do Expresso de 05 de fevereiro de 2011

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