Na Europa, a doutrina multiculturalista está a desaparecer. Em Portugal - a finisterra ideológica onde as ondas intelectuais vêm morrer -, o multiculturalismo atingiu o seu zénite. Numa escola de Barcelos, os meninos ciganos foram colocados num contentor. Repito: num contentor. E uma responsável do Ministério da Educação considera que este acto constitui uma "discriminação positiva". Ou seja, a República Portuguesa legitimou uma segregação paternalista assente na cor da pele e numa - alegada - menoridade intelectual dos ciganos. Qual será o próximo passo, meus caros? Arrumar os crioulos da Amadora num contentor, numa espécie de apartheid suburbano?
A elite lisboeta gosta de centrar este debate na seguinte questão: como evitar que os ciganos sejam vítimas de discriminação? Esta questão parte do paternalismo politicamente correcto que coloca o 'outro' como mera vítima do homem branco. Nesta lógica, o cigano não passa de uma vítima do 'tuga' boçal; os disparates perpetrados pelo cigano são vistos como reacções - desculpáveis - perante a maldade intrínseca da maioria branca. Ora, esta fantasia ideológica é apenas o álibi que a elite portuguesa encontrou para evitar o confronto com a pergunta proibida: os ciganos querem integrar-se? E toda a gente sabe a resposta a esta pergunta. Não, os ciganos não querem fazer parte da sociedade portuguesa.
O racismo, meus caros, não é monopólio do homem branco. O cigano também é racista. As tais comunidades ciganas recusam a integração. Quando olha para o espelho, o cigano gosta de ver um cowboy fora-da-lei, dado ao romantismo nómada sem contacto com os 'colonos' brancos. Mas, atenção, os ciganos têm direito a este racismo. Os ciganos têm direito a viver à margem da sociedade. Até podem comprar terrenos e montar workshops sobre a palma da mão. Ao nível pré-político, cada um faz o que quer. Porém, ao nível político, o Estado português não pode legitimar esta segregação cultural. Um Estado de Direito não pode aceitar e financiar a formação de guetos. As pessoas não são bichos para ficaram presas em contentores pedagógicos.
Os meus caros amigos querem realmente integrar os ciganos? Então, parem de romantizar um 'cigano' abstracto, e procurem os ciganos que se revoltaram contra a tradição cigana. Ou os meus amigos pensam que a revolta contra a tradição é um monopólio do homem branco? Acham que os ciganos não têm a capacidade intelectual para criticar a sua cultura de origem? É assim tão difícil tratar os ciganos como pessoas em vez de os tratar como pedaços de uma tradição?
A China amaricada
Estamos salvos. O Ocidente vai continuar a liderar o mundo. A China, afinal, não será a superpotência do futuro. O chinês, meu caro leitor, está a amaricar-se. Veja só este exemplo: o chinês já não come cães; o chinês, agora, passeia cães, com trela e tudo. A vitalidade chinesa está a perder-se entre o pêlo bem tratado do lulu. Que saudades do chinês que fazia fricassé de caniche! Agora só falta mesmo aparecer uma associação de defesa dos animais na China. Quando isso suceder, a China passará a ser uma Babilónia amaricada sem salvação possível. Estamos salvos.
Henrique Raposo