Vivendo num país pobre e injusto, é por vezes difícil perceber o que correu bem. Mas, nos últimos 35 anos, desde aquele dia em que tudo parecia possível, algumas coisas se fizeram. Temos, como provam todos os indicadores e apesar de todos os seus defeitos, um dos melhores serviços de saúde do mundo. Criámos um esboço de um Estado Social.
Alfabetizámos em pouco tempo uma parte muito razoável da população e, apesar dos discursos catastrofistas, a nossa Universidade consegue, sobretudo nas áreas tecnológicas, muito melhores resultados do que a saudosa e bolorenta academia dos 'lentes'. Entrámos para a União Europeia e há hoje menos portugueses (ainda tantos) a viver abaixo do limiar de pobreza.
Ainda assim, falhámos. A integração na Europa não correspondeu a uma modificação do nosso modelo económico e das nossas empresas e o Estado continua a ser ineficiente. As maiores empresas continuam a depender da ajuda e dos favores dos contribuintes, inovam pouco - desperdiçando o colossal investimento feito em educação - e vivem do lucro rápido. O nosso Estado é centralizado, burocrático, opaco e clientelar.
A nossa justiça é ineficiente, lenta, cara e incompreensível para a maioria dos cidadãos. Para quem tenha a capacidade para aproveitar os seus alçapões dá todas as garantias. Para o cidadão comum é um labirinto onde se perde sempre.
Em 35 anos descolonizámos como pudemos, democratizámos como soubemos e desenvolvemos mais do que julgámos. Mas ficámos presos, algures nos anos 80, entre o primeiro e o terceiro mundo. Faltou-nos, continua a faltar-nos, um caminho, líderes que o queiram trilhar e um povo exigente com quem elege. Fizemos o mais difícil. Depois, parece que desistimos.
Olhem para a Irlanda
Durante anos, economistas-ideólogos e alguns empresários reunidos no Compromisso Portugal repetiram: olhem para a Irlanda. Impostos muito baixos para as empresas, leis laborais muito flexíveis e desregulação do mercado. Em troca, investimento estrangeiro. O paraíso.
Uma das vezes que Constâncio veio, por este mês, dar mais péssimas notícias ao país, repetiu o apelo: olhem para a Irlanda. Podíamos estar bem pior. Podíamos estar como o país que, na União, mais sofre com esta crise. A sua economia está pronta a colapsar.
Porquê? Porque apostou na flexibilidade, na desregulação e na exposição absoluta aos riscos externos. Uma fórmula que é excelente quando se ganha e péssima quando se perde. Dirão: quem não arrisca não petisca. Acontece que o risco não tem o mesmo preço para todos os cidadãos. Quem tem uma situação económica mais folgada protege-se em terra antes de ir para o mar. Quem vive apenas do seu salário ganha muito menos quando a economia corre bem - a Irlanda apostou, durante o seu 'milagre económico', na contenção salarial - do que perde quando tudo desaba - a Irlanda ficou sem as bóias sociais de que agora precisa. Os pobres e remediados afogam-se, os outros esperam em segurança pela bonança.
Tivéssemos seguido os conselhos dos nossos 'sábios liberais' e a crise teria hoje, para a maioria dos portugueses, uma dimensão apocalíptica. Por isso, quando sairmos deste buraco e os vendedores de milagres arrebitarem, não nos podemos esquecer da Irlanda. No fim, quem paga o preço da aventura é quem menos ganhou com ela.
Daniel Oliveira