26/05/2012 atualizado às 14:07
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O que falhou?

Daniel Oliveira
8:00 Segunda feira, 27 de abril de 2009

Vivendo num país pobre e injusto, é por vezes difícil perceber o que correu bem. Mas, nos últimos 35 anos, desde aquele dia em que tudo parecia possível, algumas coisas se fizeram. Temos, como provam todos os indicadores e apesar de todos os seus defeitos, um dos melhores serviços de saúde do mundo. Criámos um esboço de um Estado Social.

Alfabetizámos em pouco tempo uma parte muito razoável da população e, apesar dos discursos catastrofistas, a nossa Universidade consegue, sobretudo nas áreas tecnológicas, muito melhores resultados do que a saudosa e bolorenta academia dos 'lentes'. Entrámos para a União Europeia e há hoje menos portugueses (ainda tantos) a viver abaixo do limiar de pobreza.

Ainda assim, falhámos. A integração na Europa não correspondeu a uma modificação do nosso modelo económico e das nossas empresas e o Estado continua a ser ineficiente. As maiores empresas continuam a depender da ajuda e dos favores dos contribuintes, inovam pouco - desperdiçando o colossal investimento feito em educação - e vivem do lucro rápido. O nosso Estado é centralizado, burocrático, opaco e clientelar.

A nossa justiça é ineficiente, lenta, cara e incompreensível para a maioria dos cidadãos. Para quem tenha a capacidade para aproveitar os seus alçapões dá todas as garantias. Para o cidadão comum é um labirinto onde se perde sempre.

Em 35 anos descolonizámos como pudemos, democratizámos como soubemos e desenvolvemos mais do que julgámos. Mas ficámos presos, algures nos anos 80, entre o primeiro e o terceiro mundo. Faltou-nos, continua a faltar-nos, um caminho, líderes que o queiram trilhar e um povo exigente com quem elege. Fizemos o mais difícil. Depois, parece que desistimos.

Olhem para a Irlanda

Durante anos, economistas-ideólogos e alguns empresários reunidos no Compromisso Portugal repetiram: olhem para a Irlanda. Impostos muito baixos para as empresas, leis laborais muito flexíveis e desregulação do mercado. Em troca, investimento estrangeiro. O paraíso.

Uma das vezes que Constâncio veio, por este mês, dar mais péssimas notícias ao país, repetiu o apelo: olhem para a Irlanda. Podíamos estar bem pior. Podíamos estar como o país que, na União, mais sofre com esta crise. A sua economia está pronta a colapsar.

Porquê? Porque apostou na flexibilidade, na desregulação e na exposição absoluta aos riscos externos. Uma fórmula que é excelente quando se ganha e péssima quando se perde. Dirão: quem não arrisca não petisca. Acontece que o risco não tem o mesmo preço para todos os cidadãos. Quem tem uma situação económica mais folgada protege-se em terra antes de ir para o mar. Quem vive apenas do seu salário ganha muito menos quando a economia corre bem - a Irlanda apostou, durante o seu 'milagre económico', na contenção salarial - do que perde quando tudo desaba - a Irlanda ficou sem as bóias sociais de que agora precisa. Os pobres e remediados afogam-se, os outros esperam em segurança pela bonança.

Tivéssemos seguido os conselhos dos nossos 'sábios liberais' e a crise teria hoje, para a maioria dos portugueses, uma dimensão apocalíptica. Por isso, quando sairmos deste buraco e os vendedores de milagres arrebitarem, não nos podemos esquecer da Irlanda. No fim, quem paga o preço da aventura é quem menos ganhou com ela.

Daniel Oliveira

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O mundo pula e avança
Manuel Almeida (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 12:42 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
O mundo não para. O mundo não espera. O progresso económico, interrompido por vezes por violentas crises, prossegue ao longo das décadas.

Não existe nenhum país europeu, asiático ou latino-americano, que esteja hoje pior do que estava há 35 anos. Novas fábricas, estradas, universidades, pontes e hospitais se construíram em todo o mundo. As novas tecnologias revolucionaram os locais de trabalho e impulsionaram a produtividade. O mundo cresceu muito nos últimos 35 anos.

Contudo uns cresceram mais que outros. Nesta caminhada dos últimos 35 anos andámos mais depressa ou mais devagar que o pelotão? Aproximamo-nos da frente ou decaímos para as últimas posições? Isso é o que interessa. Andar todos andaram.

A resposta é só uma. Ficámos mais para trás.

Quase acabámos com o analfabetismo é verdade. Mas agora estamos num mundo em que na Europa todos acabam o 12 ano e uma grande parte da população tem já cursos superiores. Nesse mundo estamos pior do que os analfabetos de há 35 anos que comparavam com outros povos que sabiam ler mas tinham poucos anos de escolaridade. O fosse educacional agravou-se. Isso é o que interessa.

Os media enchiam as paginas com os países pobres do Leste que iam em breve aderir à EU. Hoje metade desses países está já à nossa frente. Os outros em breve o estarão. Portugal tem caminhado para a cauda da Europa a 27. Esse é que é o balanço deste regime rotativista (ora PS ora PSD). Sem ambivalência. Sem a propaganda à la António Barreto.
 
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Olhem para a Irlanda
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:42 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
Pois é! É tudo muito lindo!

Só é pena que a Irlanda tenha conseguido realizar, em poucas décadas, um investimento no seu desenvolvimento económico e social que Portugal jamais alcançou.

Dados de 2005 indicam que o PIB per capita (em Paridade de Poder de Compra) dos irlandeses era quase o dobro do dos portugueses.

Em 2005, o PIB pc (PPC) dos portugueses era pouco superior a 20 mil, enquanto o dos irlandeses era superior a 38 mil.

Deve ser terrível ter uma Economia a contrair 8% num único ano, como parece ser o caso da Irlanda, mas eu preferia perder 8% se ganhasse 38 mil dólares/ano, do que ganhar 4% se ganhasse 20 mil. Por acaso, a Economia portuguesa não vai ganhar 4% este ano, mas perder mais ou menos isso.

Tenho pena dos escribas que apontam tanto o dedo aos males dos outros, quando nem conseguem ver as misérias que têm em casa.
 
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A morte do nacional socialismo português
Hermenegildo (seguir utilizador), 1 ponto , 14:54 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
Esta crise marca sobretudo o fim nacional socialismo português. Acabou o dinheiro vindo de fora, acabaram as remessas dos emigrantes, acabou a capacidade de endividamento, acabaram os subsídios vindos da UE. Agora Portugal vai ter que viver apenas com a riqueza que produz e com isso pagar os encargos da sua dívida monstruosa. Acabou-se o Estado que distribui recursos que não tem. Libertem a sociedade para que cada um encontre forma de gerar riqueza com creatividade. O Estado que zele pela justiça e transparência nos negócios e os portugueses que se desenrasquem. Não foi o neo-liberalismo que morreu foi o socialismo dos subsídios, das pensões, dos salários dos regimentos de funcionários. A verdade custa a ouvir mas: "Portugal não tem dinheiro para quase nada". Libertem o povo e o seu e o seu dinamismo económico e talvez nos safemos.
 
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    Re: A morte do nacional socialismo português    Ver comentário
Doisémes (seguir utilizador), 1 ponto , 0:17 | Terça feira, 28 de abril de 2009
Uma justificação salarial
Caparica Red Neck (seguir utilizador), 1 ponto , 17:42 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
Caro Daniel,
   
  Este teu artigo resulta delirantemente anacrónico, passando por alto o efectivo e verificável aumento do analfabetismo do Povo Português nos 33 últimos anos, passas um pano amarelo pela retirada de prestações à população, mentes enquanto enalteces as bondades do nosso sistema de saúde e, escrevendo como para uma plateia de manipulados, tergiversas a realidade quando referes o número de novos, ou actuais, licenciados.
O tratado de Bolonha reduz, sem margem para dúvida, a importância do academicismo ao flutuante valor do capital, facilitando a obtenção de credenciais de nível superior a quem as possa pagar, eliminando, practicamente, a exigência académica, mas, só para quem a puder pagar.
Por outra parte, esse positivismo pago é realmente triste, mais, quando - tipico do bloco - não tens a coragem de incluir, nesta brincadeira lirica, o 25 de Novembro, a retoma pelo fascismo das chaves das portas que Abril abriu e, afirmas rotundamente que, existiu democratização.
Essa subserviência ao instituido, esse medo de perder os "arrêgos", essa falta de ética - ou só mesmo deontologia - só derivam na divisão do Povo do nosso país, num apoio velado ao PS e, de forma mais grave, na apologia do imobilismo subserviente dos Portugueses aos designios do imperialismo repressor, neo-colonialista, fascista, que nega a liberdade de todo uma nação.

Pelo menos, que o ordenado te valha a condição.

A revolução é hoje!
 
 
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    Re: Uma justificação salarial    Ver comentário
Doisémes (seguir utilizador), 1 ponto , 0:19 | Terça feira, 28 de abril de 2009
    É só chavões......    Ver comentário
Brilhantina (seguir utilizador), 1 ponto , 22:24 | Segunda feira, 4 de maio de 2009
Pois não sei...
Blondewithaphd (seguir utilizador), 1 ponto , 21:10 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
Olhar para a Irlanda até olho e, na volta, acho que me apetece dizer qualquer coisa como "antes rainha por uma hora do que condessa ou duquesa, ou o que a senhora era, toda a vida". Nós, pelo contrário andamos sempre "falhados"...
 
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PT-IRL
JoãoPD (seguir utilizador), 1 ponto , 21:33 | Terça feira, 28 de abril de 2009
Compreendo que as credenciais socialistas do Daniel o levem a considerar que Portugal estaria numa situação pior se tivesse seguido uma via liberal [em vez do "liberalismo de fachada" que foi desenvolvido desde 1974 onde o estado além de desempenhar de forma medíocre muitas das funções que lhe são confiadas, desempenha funções a mais].

No entanto, parece-me falaciosa a comparação com a Irlanda, tantas vezes usada incorrectamente [várias disposições comunitárias mudaram desde que a Irlanda aderiu à CEE em 1973 e Portugal nunca poderia ter copiado o mesmo modelo] como exemplo do que deve ser feito e agora como exemplo do que não deve ser feito. É um facto que a economia irlandesa vai sofrer uma contracção superior a 8% este ano, mas não deixa de ser verdade que a Irlanda é o país da UE com o 2º rendimento por habitante mais elevado e que é, provavelmente, o país europeu que mais cresceu nos últimos 20 anos.

Importa, igualmente, recordar que num país de pequena dimensão, fechar a economia aos principais fluxos internacionais é um caminho que não tem resultados positivos - e neste caso é possível estabelecer paralelos entre Portugal e a Irlanda, uma vez que ambos são bastante dependentes do comércio externo com um vizinho de dimensão bastante maior. Relembro que aquando da crise asiática de 1998, o país menos afectado foi o Laos, por ser o mais isolado e o mais pobre.

Uma economia como a irlandesa é mais vulnerável, mas tem melhores hipóteses de recuperar rapidamente.
 
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