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"O PSD está completamente desfeito"

Pedro Santana Lopes já tem assinaturas para o Congresso do PSD.

Ângela Silva e Ricardo Costa (www.expresso.pt)
16:24 Terça feira, 19 de janeiro de 2010
O ex-primeiro-ministro está preocupado com o PSD
O ex-primeiro-ministro está preocupado com o PSD
Luiz Carvalho

Pedro Santana Lopes chegou à entrevista directamente de uma reunião autárquica e a sua vida política resume-se, para já, a ser vereador da oposição em Lisboa. Diz que gosta muito, mas percebe-se que não lhe chega e avisa que não será mestre de cerimónias no Congresso que decidiu convocar. Acha que o PSD está "desfeito e destroçado", que Passos Coelho "é uma carta ainda por tirar" e que está "na hora de Marcelo se fascinar outra vez pelas lides partidárias". Simpatia, vê-se que tem por Aguiar Branco.

Foi difícil arranjar assinaturas para convocar o Congresso?
Não. Iniciei o processo há um mês, na altura havia grandes experts na máquina partidária a dizer que eu não ia conseguir, mas conseguiu-se, com naturalidade. A verdade é que nunca até hoje houve um Congresso extraordinário.

Sentiu boicote das distritais?
Dei orientações às pessoas que trataram do processo para contactarem directamente os militantes.

Sabe se alguma distrital pediu a militantes para não assinarem?
Talvez mais a norte, talvez no Porto. São secções dirigidas de uma forma muito próxima. Não quer dizer que não venham assinaturas de lá, mas sentiu-se muita acção para as evitar.

Como é que explica tantos líderes distritais e notáveis contra o Congresso?
Eu até esperava ter todas as distritais contra, excepto Beja, e todos os notáveis contra, excepto a dr.ª Ferreira Leite. A partir daí foi tudo ganho.

O PSD está mais livre do que parece?
Sinto isso. E este Congresso é muito salutar. Os militantes precisam de se libertar de um colete de forças que o aparelho lhes colocou. As directas, principalmente nas distritais, onde surgiram os episódios indecorosos da arregimentação de votos, tiveram efeito nefasto e esse balanço deve ser feito. Não tem que ser neste congresso, porque o país tem muitas preocupações, mas pode sair uma equipa para trabalhar a matéria no congresso depois das directas.

Não o embaraça condenar as directas quando foi o primeiro a defendê-las?
É sinal de lucidez. Eu acho que o líder do PSD deve ser eleito em directas, mas quem for candidato a líder tem que ir primeiro ao salão nobre do partido, dizer "aqui estou" e explicar como está. Chegar a líder só com o voto secreto é mais fácil mas menos esclarecedor.

Não fala assim porque os Congressos o favorecem sempre a si?
Não. Os grandes líderes do PSD ganharam em Congresso e desde que a pessoa tenha convicção para liderar e carisma percebe que a questão não é quem mais fala, é quem mais ganha. Cavaco na Figueira não impressionou pela retórica e Sá Carneiro também não era um orador empolgante. Neste Congresso, quem tiver condições para avançar, se não quiser, está esclarecido.

A sua ideia é apontar falta de coragem a pessoas que não lhe são caras?
Ah, pois! Um líder tem que ter coragem e as directas ajudam a disfarçar.

Quem é o melhor para líder


Santana enumera os possíveis candidatos
Santana enumera os possíveis candidatos
Luiz Carvalho

O Congresso pode prejudicar a aparente vantagem de Passos Coelho?
Passos Coelho ainda é uma carta por tirar. Para ser o líder de que o PSD precisa tem que ganhar em Congresso. Eu no lugar dele sentia-me galvanizado com as dificuldades.

Vê nele um verdadeiro líder?
Não sei. Já o vi defender ideias que não foram muito persistentes. Direi no Congresso a minha posição.

E Marcelo? Acha que ele avança?
Não é fácil, mas gostava que ele avançasse. Marcelo é uma pessoa com uma qualidade quase inigualável dentro do partido. Acho um desperdício sem limite se ele não se candidatar. E Cristo não volta a descer à Terra daqui para diante. Agora, ele tem que ter a coragem de disputar, pelo menos, com Passos. A situação pede a todos que cumpram o que está ao seu alcance e há várias oportunidades de escolha. José Pedro Aguiar Branco tem mostrado vontade de assumir um lugar cimeiro.

No fundo, quer tirar candidatos da toca.
Um bocadinho. Mas este Congresso tem que ter três palavras de ordem: responsabilidade, entusiasmo, clarificação. O PSD tem sido muito irresponsável de há uns anos para cá; sempre foi um partido de entusiasmo militante e está completamente desfeito e destroçado; e a liberdade de voto é muito bonita mas o partido hoje em dia não tem posição definida sobre quase nada. Não é um problema desta liderança, são umas atrás das outras. Temos que ter posição sobre as funções do Estado. Eu defendo uma maior saída do Estado da Educação do que da Saúde, devemos privatizar a TAP e a CP... temos que ter posições claras sobre as questões que vão marcar os próximos anos. Um jovem de 20 anos adere ao PSD porquê? Qual é a causa que nos identifica?

Paulo Portas sonha com uma dissidência no PSD. Acha isso possível?
Pode acontecer, mas não sei se isso seria bom para Portas. O CDS está cada vez mais a liderar causas que devíamos ser nós a liderar e há qualquer coisa que não bate certo. Convoco o Congresso para não bater com a porta.

Acredita nessa possibilidade?
Acredito. O PSD é uma boa parte da minha vida, mas a falta de posição do partido choca-me. Temos que romper com o actual estado do sistema político. Queremos o Presidente (PR) a governar ou o primeiro-ministro (PM)?

Sobre as presidenciais


Santana Lopes arranjou assinaturas suficientes para convocar o Congresso. Boa razão para sorrir
Santana Lopes arranjou assinaturas suficientes para convocar o Congresso. Boa razão para sorrir
Luiz Carvalho

Manuel Alegre pergunta o mesmo. Concorda quando ele diz que Cavaco tem uma pulsão executiva?
Se a tem, controla-a muito bem. A questão é que não conheço nenhum caso em que PR e PM tenham funcionado bem. E isso faz tão mal ao país quanto o desequilíbrio das contas públicas.

Cavaco pode ter a tentação de reorganizar a direita se for reeleito?
Não acredito. Acho é que os candidatos à liderança têm que dizer o que pensam de um sistema de Governo que não favorece a governabilidade.

O PR devia ter mais poderes?
A tradição portuguesa é um sistema parlamentar de PM. O direito de veto não pode ser como é - defendo o fim da fiscalização preventiva das leis - e com uma maioria parlamentar o PR não deve poder dissolver.

Concorda que o PSD aceite negociar o Orçamento com o Governo?
Concordo, mas faz-me confusão ter-se entrado por matéria de competência do Governo - o fim do PEC ou o código contributivo -, o que fere a Constituição, e depois haver inversão para negociar o Orçamento.

Com tanta ideia, se a sua moção for aprovada não tem que se candidatar?
Eu não vou ser o mestre de cerimónias do Congresso. Levarei um texto e na altura verei se o levo a votos ou não.

Se ninguém avançar contra Passos não admite preencher o vazio?
Não. Já passou muito tempo e já passei por muitas circunstâncias. Deus nos proteja e nos mantenha lúcidos, tanto tempo quanto possível. Não gosto de fazer de senador, nem de enfant terrible, mas gosto de ser militante responsável.

Não tenho percurso para ser PR
Tem projectos políticos para o futuro?
Não tenho projectos, só tenho que continuar livre. Cumpri um ciclo, saí em 2005, pus-me à disposição do partido (por obrigação interior) para voltar a disputar as eleições com Sócrates, e depois fiz o mesmo na câmara de Lisboa e senti-me resgatado. Agora sou vereador da oposição, o que dá imenso trabalho.

Afastou o sonho presidencial?
Afastei. Acho que não tenho um percurso de vida que admita exercer um cargo desses.

Gosta de advogar?
Gosto. Não sou um advogado de barra, mas talvez um dia destes lá vá.

E vive bem da advocacia?
Vivo. Não tenho muitos processos, mas tenho bons. Muito Direito Financeiro.

A política fechou-lhe portas?
Houve gente que me virou costas depois de eu ter sido quase proscrito por uma parte do sistema político. E esses não foram tempos fáceis. Saí dos salões dourados para uma sala no Chiado que era metade deste gabinete. Se dissesse que não me senti sozinho estava a mentir. Agora, gosto muito do trabalho autárquico e também estou a gostar de dar aulas de História da Diplomacia. Mostra-nos como há tanta coisa em Portugal que é constante. Oliveira Martins já dizia que a dívida era sete vezes o valor da riqueza nacional...

Por falar em questões constantes: Marcelo foi despedido da RTP. Sente-se vingado?
A preocupação do equilíbrio partidário existe desde há anos, já havia quando eu debatia com Sócrates na RTP ou quando fui para a SIC com Carrilho. O que está a passar-se agora tem precedentes. Marcelo tem é que se deixar fascinar outra vez pelas lides partidárias.

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010.

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Está desfeito, sim Sr.!
fumarola (seguir utilizador), 1 ponto , 18:32 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Além do Dr. D. Barroso e da Drª. M.F.Leite, o Sr. também ajudou e bem! Como perdedor nato que é, deveria deixar as luzes da ribalta e dar lugar a outros. Para bem do PSD e de Portugal.
 
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