O português em quem Paul Ryan confia
O amigo mais famoso do congressista Devin Nunes é o candidato republicano a vice-presidente dos EUA, com quem o luso-descendente tem uma aliança estreita. Em entrevista ao Expresso, revelou detalhes dessa relação.
O luso-descendente Devin Nunes é o homem de confiança de Paul Ryan, o candidato republicano a vice-presidente dos EUA, nas eleições de novembro. Com raízes familiares nos Açores, o congressista norte-americano de 38 anos revelou, numa curta entrevista ao Expresso, alguns detalhes da vida de Ryan (tido como o ideólogo do Partido Republicano) e da parceria entre ambos.
Devin Nunes colaborou com Paul Ryan, por exemplo na defesa do "Roadmap to America's Future", o projeto que esteve na base da proposta de orçamento aprovada em 2011 pela Câmara dos Representantes, que defendia cortes substanciais na despesa do Estado e, ao mesmo tempo, diminuição de impostos.
O projeto, posteriormente rejeitado pelo Senado de maioria democrata, tornou-se das peças legislativas mais respeitadas pela direita norte-americana e é hoje vista como base para um eventual programa de Governo republicano.
Distinguido pela "Time"
O Presidente Barack Obama considera aquela iniciativa como uma "visão pessimista da América", devido ao corte substancial nos gastos sociais do Estado (cerca de 63%), que afetaria iniciativas como as senhas de refeição para os mais pobres, o Medicaid (serviço público de saúde para os mais pobres) e o Medicare (serviço público de saúde para cidadãos com mais de 65 anos).
Em 2010, a revista "Time" elegeu Devin Nunes como uma das 40 novas estrelas da política americana.
Descreva-nos Paul Ryan? É um homem muito sério e trabalhador. É daqueles que acorda mais cedo do que os outros e deita-se mais tarde do que ninguém. É uma das figuras mais importantes do nosso tempo, alguém que pretende reformar a governação. Preocupa-se com factos e soluções. É muito eficaz e de certeza que dará um excelente vice-presidente.
Como é que se tornaram amigos e aliados? Quando cheguei ao Congresso, em 2001, Paul já lá estava há três anos. Eu era o segundo mais novo na Câmara e ele o terceiro ou quarto. Naturalmente, demo-nos bem e começámos a trabalhar numa série de iniciativas.
Paul Ryan é um político muito conservador mas que conseguiu impor-se numa região historicamente democrata (1º distrito do Wisconsin). Como é que isso foi possível? Sabe, o main stream media (órgãos de comunicação social conotados pelos republicanos com a esquerda) gosta de generalizar, passando uma imagem errada das pessoas. No caso do Paul esqueceram-se de que ele é um político com uma capacidade invulgar de pegar em problemas complicados, esmiuçá-los e, no fim, de gerar importantes peças legislativas, explicando aos americanos, sempre de uma maneira muito simples, porque que determinado assunto é importante.
Mitt Romney "foi sábio na escolha "
Ryan parece mais pragmático do que idealista. Não gosto de rótulos, isso é o que o main stream media gosta de fazer. Ele está decidido em restaurar a forma de governo republicana, o que quer dizer que o Governo Federal tem um papel muito mais pequeno do que o atual e que o protagonismo governativo deve ser devolvido aos estados. O primado está no indivíduo e não no coletivo, ou seja, num Estado todo-poderoso.
Como é que Paul Ryan pode fazer a diferença, quer em campanha como numa possível administração? A principal razão é porque ele tem soluções não só para este país como para o resto do mundo. Uma maneira de resolver a crise económica global é, primeiro do que tudo, resolver a crise económica nos EUA e ele é a pessoa mais qualificada para fazer esse trabalho. Mitt Romney foi sábio na escolha.
Ficou surpreendido com ela? (risos) Eu tive a sorte de saber um pouco antes do que a maioria das pessoas, por isso o efeito surpresa esbateu-se um pouco. Uma semana antes, baseado no que já conhecia, comecei a ficar muito confiante. Mas foi muito emocionante para alguém que tem lutado com o Paul Ryan há muito tempo na tentativa de mudar este país. Lutámos muito para restituir as liberdades e poderes individuais. Quando se luta muito e, após longo tempo, conseguimos vencer, quando vemos alguém em quem acreditamos e com quem trabalhámos tanto ter a possibilidade de tornar-se vice-presidente dos EUA, tudo isso dá-nos um enorme sentimento de recompensa.
Falava com ele sobre essa possibilidade? Várias vezes, mas nunca o coloquei na posição desconfortável de o obrigar a responder se ele aceitaria ou não o convite. Nunca faria isso a um amigo. Aconselhava-o, ele ouvia, mas nada mais.
"O mundo inteiro conta connosco"
Vocês trabalharam muito depois de 2008, altura em que a América se 'apaixonou' por Barack Obama, depois de várias derrotas eleitorais da direita. Sentiram-se isolados? Tínhamos a certeza de que estávamos a fazer algo novo, tal como o renascimento dos valores individuais, criando uma nova estratégia para os EUA. Não se tratava de uma questão de derrotas mas de um novo início, de crescer e criar algo novo e excitante. É por isso que o Paul Ryan merece todo o crédito, visto que começou com um projeto muito pequeno e chegou onde chegou. Sinto-me lisonjeado por fazer parte do grupo. Porém, ao mesmo tempo era frustrante porque víamos a economia em mau estado e muitas famílias a sofrer. Por isso havia também muita pressão.
Como vê a América daqui a quatro anos caso Romney e Ryan não vençam? Não falo sobre essa hipótese.
E se vencerem? Será muito duro. O mundo inteiro conta connosco para tomar as medidas corretas para inverter a situação actual. Temos de produzir legislação que seja aprovada pelo Congresso e pelo Presidente e que termine com o nosso problema da despesa excessiva do Estado.
Aceitaria trabalhar com Paul Ryan numa nova administração? Não estou interessado.
Visita muitas vezes Portugal? Claro, maioritariamente os Açores, onde os meus pais nasceram. Também já estive em Lisboa, quatro ou cinco vezes, na maioria para reuniões oficiais.
Com quem? Com os meus amigos Mota Amaral e Paulo Portas, por exemplo. Além disso tenho trabalhado ao longo dos anos com vários embaixadores portugueses.


Congressista Devin Nunes tem muitos amigos, Mota Amaral e Paulo Portas são dois deles
