O "pico" do petróleo deixou de ser um tema fraturante. As projeções sobre o ano ou quinquénio ou década em que a produção global de crude começaria a declinar "já fazem parte da História", sublinha Luís de Sousa, membro da ASPO-Portugal (Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás) e colaborador do blogue The Oil Drum, em declarações ao Expresso. "Há uma ideia generalizada de que já se está a viver esse período de pico. Prevê-lo já não é relevante", acrescenta.
Segundo este especialista, a esmagadora maioria dos principais modelos matemáticos e contabilísticos de produção do petróleo usados por entidades independentes da indústria petrolífera apontam para um máximo num intervalo de cerca de uma década centrado entre 2008 e 2010, num intervalo de produção entre 78 e 85 milhões de barris diários.
Luís de Sousa sublinha que "desde 2005, a produção mundial de líquidos fósseis tem-se situado entre 80 e 82 milhões de barris por dia em clara consonância com aqueles modelos", mas aquele patamar "tem sido assegurado pelo aumento dos líquidos associados ao gás natural, estando a produção do crude propriamente dito em quebra desde esse ano".
Diplomacia do petróleo
No entanto, o "pico" voltou, agora, à ribalta por causa de um relatório secreto do grupo de estudos futuristas do Centro alemão para a Transformação das Forças Armadas, um think tank militar que trabalha para o Ministério da Defesa de Berlim. O estudo prospetivo a 30 anos foi divulgado pelo jornal Der Spiegel e provocou consternação nos menos habituados ao tema e às suas implicações geopolíticas, particularmente para a Europa.
O relatório tem uma nota de alarme: "a escassez vai afetar toda a gente" e "aumentos do preço do crude colocam um risco sistémico, não só para os sistemas de transporte, mas igualmente para todos os outros subsistemas". E deixou um recado: "É vital assegurar o acesso ao petróleo", pois num horizonte até 2040 vamos assistir a "uma mudança no panorama da segurança internacional com novos riscos - como o do transporte dos combustíveis - e novos atores num possível conflito em torno da distribuição de um recurso crescentemente escasso".
O relatório alemão conclui que "o mercado livre, de oferta e procura, do crude deverá reduzir-se" e que a diplomacia do petróleo vai disparar face à sua geopolitização.
Planalto ondulante
A escassez crescente de que falam os alemães está ligada a "uma quase rigidez no aumento da produção, que se fixou em uma banda de variação que se formou desde 2004", sublinha Luís de Sousa. Essa "banda" de variação é, por muitos especialistas, designada, com alguma piada, por "planalto ondulante". Ou seja, nesse planalto, as variações de produção oscilam, como uma onda, de ano para ano, independentemente das variações de preços. A crise atual, cujo fim continua a gerar polémica, "irá provavelmente prolongar este período ondulante, achatando um pouco o que, de outro modo, seria um pico proeminente".
Mais importante do que o próprio pico ou planalto de produção é o volume de petróleo disponível no mercado internacional, ou seja o que é comercializado depois do consumo pelos produtores. "O máximo foi atingido em 2005, com 44 milhões de barris diários (mbd), registando-se, desde então, uma queda lenta, mas irreversível", diz o especialista da ASPO. Atualmente está nos 42 mbd e em 2020 deverá ser inferior a 35 mbd. Luís de Sousa acrescenta, ainda, que na disputa por esse petróleo disponível nos mercados internacionais vai fazer sentir-se "a transferência de consumo dos países que formam a OCDE [países desenvolvidos] para os emergentes - se em 1990, metade do petróleo produzido era consumido na OCDE, hoje essa fração é de cerca de 1/3". O mercado mundial sofreu uma reviravolta.
Esta situação "estrutural", de longo prazo, derivada da tendencial escassez desta commodity e do crescimento dos riscos geopolíticos (inclusive o de navegação nos estreitos estratégicos por todo o mundo) é agravada, nos últimos anos, pelo que se designou por 'financeirização' do mercado de futuros do crude, com a entrada dos especuladores financeiros alcunhados de "refinadores de Wall Street" que compram e vendem "barris de papel", criando uma perturbação adicional nos preços do mercado com oscilações, por vezes, "selvagens".
Sofrimento para os dependentes
Um dos grupos, na OCDE, que mais vai sofrer com a contração do petróleo disponível, é o formado pelos mais dependentes desta energia no seu mix energético, sublinha Luís de Sousa. "Há que notar um detalhe - os países com maiores dificuldades vão ser precisamente os designados pejorativamente por PIIGS, que têm uma dependência superior a 45%, com destaque para a Grécia, com 58%, Irlanda e Portugal com 55%, Espanha com 48% e Itália com 46%, face a uma União Europeia com uma média de 37%.
Se juntarmos os quatro países que têm uma dependência superior à média europeia mas abaixo dos 45%, ficamos com um mapa completo da zona de maior impacto do "planalto ondulante", onde há que adicionar aos PIIGS, a Áustria (44%), Holanda (42%), Bélgica (41%) e Dinamarca (39%).
O ponto fraco dos cinco países mais vulneráveis da zona euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) é o setor do transporte, particularmente o rodoviário "derivado da localização geográfica, de planeamento urbano e nacional inapropriado, ou de ambas as causas", diz Luís de Sousa. A promoção das opções marítima e ferroviária é sublinhada por este especialista, não bastando a modernização da infraestrutura elétrica ou a promoção de outras fontes de energia.
Comportamento do Brent em 2010
A variedade de referência na Europa do crude é designada por Brent. Devido à desvalorização do dólar desde junho (11,3% face ao euro, e 7,3% só durante o mês de setembro), o preço do barril de Brent voltou a valores acima dos 80 dólares desde 29 de setembro, e encontra-se já acima da média dos primeiros nove meses de 2010, que se situa nos 78,27 dólares. O mês de outubro abriu com o Brent cotando-se nos 83,40 dólares, uma subida diária de mais de 2%.
O ano tem assistido a variações, por vezes "selvagens", do preço do barril, dentro de uma banda entre um máximo de 94 dólares e um mínimo de 68 dólares, ambos em maio. O mês com a média mais baixa foi maio, com 74,12 dólares por barril de Brent, e o mês com a média mais alta foi o imediatamente anterior, abril, com 84,58 dólares, o que revela bem a amplitude das variações e o impacto aos ziguezagues nos orçamentos dos exportadores petrolíferos e na balança comercial nos dependentes crónicos do crude.
O preço do barril de Brent está, no entanto, ainda muito longe do máximo ocorrido em junho de 2008 quando atingiu uma média mensal de 134,02, o que, então, se designou por novo choque petrolífero. Entre março e setembro de 2008 o Brent cotou-se mensalmente acima de 100 dólares por barril, tendo quebrado, depois do desencadear do pânico financeiro a seguir à falência do Lehman Brothers e do início da Grande Recessão, para 76,72 dólares em outubro, 57,44 em novembro e 42,04 em dezembro daquele ano. Atingiu um mínimo de 39,26 em fevereiro de 2009 no auge da quebra do produto mundial e do comércio internacional. No último trimestre de 2009 já havia regressado a cotações mensais acima de 75 dólares.
Adaptado de artigo publicado na edição impressa de 25/09/2010