26/05/2012 atualizado às 13:55
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"O país é melhor do que a política"

Manuel Maria Carrilho critica o "deslumbramento tecnológico" de quem nos governa.

Cristina Figueiredo (texto) e Alberto Frias (fotos) (www.expresso.pt)
17:00 Segunda feira, 20 de setembro de 2010
Carrilho, entrevistado em Lisboa, antes de voltar a partir para Paris. Diplomata nas funções, nem tanto nas palavras
Carrilho, entrevistado em Lisboa, antes de voltar a partir para Paris. Diplomata nas funções, nem tanto nas palavras

Escuda-se no lugar que ocupa (embaixador de Portugal na UNESCO) para recusar pronunciar-se sobre a política nacional, mas não é difícil encontrar a quem servem as críticas e reflexões com que diz pretender romper a "avassaladora bolha de demagogia" do discurso político contemporâneo. Propõe uma "nova República", com um desígnio que nunca pode ser confundido com "deslumbramento tecnológico": o da qualificação. Uma hora de conversa em véspera da edição do seu novo livro, "E agora?", que reúne sobretudo textos publicados no "DN" nos últimos 3 anos.

O prefácio deste livro é um autêntico programa político. É a maneira que encontrou de participar, uma vez que já disse que não voltará a "ir a votos"?
Pareceu-me importante, quando ponderei publicar estes textos, juntar um prefácio que sublinhasse algumas das ideias por que me bato há muito, e a que o tempo tem vindo a dar razão. Dadas as funções que exerço não entro nos domínios da governação. Mas há problemas estruturais sobre os quais tenho ideias que sinto obrigação de expor. Até porque há muita tagarelice, mas pouco debate de ideias.

Fala da necessidade de um projeto coletivo, com o propósito de "deixarmos de ser o país onde nada parece possível". Ainda há esperança?
Acho que sim. Procuro afastar-me dos otimismos bacocos e dos pessimismos catastrofistas. São siameses: uns apostam que tudo se resolve sem se saber como, outros veem uma catástrofe completa. A pior reação que se tem tido aos acontecimentos dos últimos anos é esta espiral de demagogia.

Está a falar de Portugal?
Em todos os países encontra estas matizes. Defendo uma posição realista, pedagógica. Estamos num momento em que a pedagogia é vital, em que a política deve ser feita com base no conhecimento, diálogo e proximidade.

Isso implica mudar de políticas ou de políticos?
Ambos. De políticas porque chegámos ao fim de um modelo que acreditava que tudo era ilimitado: o crescimento, o consumo, as matérias-primas e o crédito. Temos de reconverter este modelo para o paradigma da finitude, do limitado. E de políticos, no sentido em que o modelo das últimas décadas, o político vanguardista e voluntarista, que tem um projeto para a sociedade e é questão de vontade e dimensão fazer com que a sociedade o siga, está condenado: a sociedade é muito melhor que a política - como se vê em Portugal. E o bom político não é aquele que é muito determinado, é o que faz composição com a sociedade. Como Obama, aliás.

Estamos a falar do diálogo guterrista ou de outro tipo de diálogo?
A ideia de diálogo não deve ficar refém desse período. Falo de uma cultura de diálogo que fomente a negociação política, não o afrontamento.

'O país é melhor do que a política'

Propõe que se encontrem formas de agilizar a formação de coligações.
Porque não se fez um governo minoritário em Inglaterra? Porque a cultura política deles nunca o permitiria. Isto tem a ver com a nossa cultura. Temos de estimular a negociação, a convivialidade democrática.

Portugal não é governável sem maioria absoluta?
Qualquer país. É preciso encontrar soluções para reforçar a capacidade de execução das maiorias. Inovar o sistema político no sentido de introduzir o médio prazo.

No livro propõe um mandato único para o Presidente da República.
Não pretendo entrar no debate da revisão constitucional, mas contrariar a bolha de demagogia que é avassaladora no discurso político contemporâneo. Estamos no centenário da República. Como português muito preocupado com o seu país, seria incapaz de passar este período sem propor um desígnio para o país. E proponho: qualificação.

É uma das palavras que mais se ouve a este Governo...
A questão não é de palavras. Desde os anos 90 que se fala de qualificação. E essa preocupação foi também muito forte com Guterres. É o défice fundamental do país, exige um esforço colossal e contínuo, que não tem acontecido. E qualificação numa perspetiva estruturada: qualificação do território, das instituições e das pessoas.

Qualificação além das Novas Oportunidades. De que é um crítico.
Sou um crítico de uma confusão muito persistente, e que convém não fazer, entre certificação e aprendizagem. A qualificação de que precisamos é hiperexigente. Neste domínio da qualificação, os números são totalmente insignificantes. O que conta é o conteúdo.

Mas os números são uma parte nada insignificante do discurso do Governo.
Todas as quinzenas há números para todos os gostos. E isso é irrelevante.

Quando escreve "a tecnologia, quando se torna numa ideologia, transforma-se num dispositivo propagandístico", é do 'Magalhães' que fala?
Esse é um ponto a que dou muita importância. Vivemos um grande deslumbramento tecnológico que temos de comparar com o deslumbramento financeiro - que teve, e tem, custos tremendos para a humanidade. A responsabilidade de um político é resistir ao deslumbramento tecnológico. Até porque atrás dele vêm milhões de interesses privados. A introdução de computadores pessoais aos seis anos carece de uma justificação pedagógica. É uma matéria em que é preciso pensar com muita responsabilidade.

Não se vislumbra essa preocupação por parte do Governo, que vende o 'Magalhães' para todos os mercados...
Os melhores peritos da UNESCO recomendam que as novas tecnologias sejam complementares do ensino, não que o substituam e que, por isso, sejam introduzidas, caso a caso, apenas e só pela mão dos professores. Do meu ponto de vista é completamente ilegítimo que apareçam por outra mão que não a do professor.

 


A diplomacia devia ser reformada

Tem-se falado na sua substituição. Está pronto para voltar?
Esse é um rumor que só li no Expresso. O lugar de representante de Portugal na UNESCO é uma função extremamente trabalhosa, que me tem dado bastante satisfação, que exerço com sentido de missão mas com desprendimento total. É uma função que me tem permitido conhecer melhor a diplomacia, uma área que não está tanto sob escrutínio público como outras e, se calhar, devia estar.

Há ideia de que há muitos vícios na carreira diplomática...
É uma área onde é possível fazer muito, ter um olhar mais reformista. Tenho pensado muito nisso, fiz um memorando que enviei ao primeiro-ministro, com propostas no sentido de adequar melhor os meios que temos aos objetivos e às responsabilidades de Portugal no mundo.

Se voltar, quando voltar, não será para a política. É um não definitivo?
Sou professor catedrático na Universidade Nova, sou escritor, é essa a minha identidade. Adoro a política, estive sempre no PS desde 1986, sempre disponível. Mário Soares convidou-me para imensas coisas, Jorge Sampaio também, pediram-me ideias - que, em geral, deitaram fora, mas nunca me importei. Guterres pegou em algumas, fui ministro. Mas a minha vida não é isso.

Mas gostou de ser ministro. Não se imagina a sê-lo novamente?
Gostei. Acho que se fez muita coisa. Mas uma coisa lhe posso dizer: não tenho nenhuma ambição política ou partidária neste momento. A única coisa de que tenho saudades é de dar aulas.

Tranquiliza, portanto, os seus camaradas que já estão a pensar na sucessão de Sócrates.
Absolutamente. Sei que já há muitos e desejo-lhes o maior sucesso.


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Texto publicado na edição do Expresso de 18 de setembro de 2010

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O exercício da diplomacia
Maria Portuguesa (seguir utilizador), 1 ponto , 19:45 | Segunda feira, 20 de setembro de 2010
fez muito bem ao Prof. Carrilho.
Subscrevo a frase em que defende uma cultura de diálogo que fomente a negociação política, não o afrontamento.
É claro que o PM se sentiu visado!
 
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PS não paga a traidores
Press (seguir utilizador), 1 ponto , 22:34 | Segunda feira, 20 de setembro de 2010
Pode-se não gostar da personagem mas Carrilho tem razão na maior parte das considerações que fez nesta entrevista ao Expresso.
«A responsabilidade de um político é resistir ao deslumbramento tecnológico. Até porque atrás dele vêm milhões de interesses privados. A introdução de computadores pessoais aos seis anos carece de uma justificação pedagógica». Esta "crítica" cai que nem uma luva ao actual PM, que não deve ter apreciado nem um pouco a "visão" de Carrilho.
Carrilho tem criado multiplos "anti-virús" na entourage e núcleo duro do governo actual e do PS, para não falar em alguns "ódios" de estimação. O "despedimento" pela Lusa constitui mais um episódio entre o enfant terrible Carrilho e o tal núcleo que não admite nem sublevações nem críticas internas, mesmo que construtivas...
 
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