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Jardim, os loucos e as regateiras

17:06 Terça feira, 15 de abril de 2008

Um dia, com calma, gostava que alguém me explicasse o motivo de tanta deferência para Alberto João Jardim.

O contrato que os políticos do Continente - do Presidente da República, ao primeiro-ministro, passando pelos líderes partidários - têm com Jardim é muito simples: ele diz o que lhe vem à cabeça, de forma inusitada e mal-educada (como chamar 'bando de loucos' a deputados) e os de cá ficam calados e assobiam para o lado.

Por menos do que disse Jardim já rolariam processos contra jornais, contra comentadores, contra quem quer que fosse; mas Jardim tem aquela imunidade de que gozam os seres irresponsáveis - no óbvio sentido de que, por um motivo ou por outro, não podem ser responsabilizados.

Recuso-me a crer que seja puro eleitoralismo; não quero acreditar que seja apenas pela necessidade dos votos de Jardim que o PSD não se indigna com as suas palavras. Repare-se que o mesmo PSD bem pensante que verbera (e bem!) as palavras de Gomes da Silva e de Ribau Esteves sobre a jornalista Fernanda Câncio (apontada como companheira sentimental de Sócrates), nada diz sobre a boçalidade alarve das palavras de Jardim.

Não quero acreditar que Jaime Gama, quando o elogia como um combativo democrata, o faça apenas como piscadela de olhos ao centro político e ao PSD.

Não posso, sequer, pensar que o Presidente da República manterá o silêncio sobre o caso com medo de perder uma reeleição que, se assim o quiser, tem mais do que garantida.

Em meu entender, o caso é muito mais simples. Não se trata de votos nem se trata de política. Trata-se de boa educação.

Quando um homem como Jardim classifica deputados da Assembleia que o elegeu Presidente do Governo Regional como um bando de loucos, convém às pessoas bem-educadas não discutir com ele na praça pública.

Quem já discutiu com regateiras sabe que, diga o que disser, fica sempre a perder perante o chorrilho que lhe cai em cima.

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Uma história sem moral

17:40 Terça feira, 1 de abril de 2008

Aqui há uns anos, numa Escola Secundária de Viseu (D. Alves Martins) tive oportunidade de falar sobre o politicamente incorrecto.

E lembro-me de ter começado a minha intervenção com este exemplo:

'Imaginem que uma família pobre aluga uma parte de casa. O pai e a mãe trabalham em empregos humildes e mal pagos. Os seus filhos frequentam a escola com um aproveitamento razoável. A família vai progredindo, ganhando um pouco mais, mas nunca chega a poder ter uma casa inteiramente sua.

Simultaneamente, outra família modesta monta uma barraca no mesmo bairro. Os seus rendimentos são mais ou menos iguais aos da primeira família. Como tem mais dinheiro disponível, consegue comprar um carro. Fazem barulho à noite, incomodam a vizinhança. Os seus filhos frequentam a escola, são mal-educados e também rejeitados, e têm mau aproveitamento escolar. A família não progride, pelo contrário, o desemprego atinge um dos membros do casal.

Um dia, a Câmara local decide acabar com as barracas e fazer um programa de apoio aos mais carenciados'.

E aqui chegava a altura das perguntas: Quem acham que a Câmara vai ajudar primeiro? Acham que isso é justo?

O dilema é grande. Porque a família que mais se esforçou não é recompensada. Mas a que nada se esforça, é-o.

São estes os tipos de dilema que temos nas escolas.

Há anos, alguns pedagogos formados no espírito dos anos 60 do século passado, tiveram a ideia romântica de que todas as crianças são boas e querem, de facto, aprender. O óbice à não aprendizagem estaria sobretudo na forma como eram transmitidos os conhecimentos.

Mas esta ideia fracassou, ruiu justamente no seio daqueles a quem mais se destinava: os carenciados de educação e de aprendizagem que, com a democratização do ensino, chegavam à escola. Com a avalanche de alunos, em vez de se reforçar desleixou-se a disciplina. As escolas dos piores bairros, tal como já acontecera nos EUA e noutros países, tornaram-se em infernos

Na verdade, este falhanço criava um problema: ou a teoria estava errada ou tinha sido mal aplicada. No fundo, este debate era igual ao que os comunistas faziam em relação ao socialismo na URSS e nos países de Leste.

Como é muito difícil reconhecer um erro, decidiram que estava mal aplicada. E foi-se aprofundando a teoria, cada vez mais, sempre baseada em pressupostos não provados, se não falsos.

À medida que não se fazia o reconhecimento da falência da ideia original, criaram-se novas teorias sobre a antiga teoria.

E assim caminhámos, mais ou menos alegremente, para o abismo.

Até que, tal como Gorbachov na URSS, venha alguém dizer que está tudo errado, que o réu vai nu, continuaremos a discutir a espuma sem debater a essência da questão.

Não conheço a moral da história, mas temo que, tal como os russos, a conheçamos um dia da pior maneira.

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A professora, a aluna e o telemóvel

18:11 Segunda feira, 24 de março de 2008

Assente a poeira, vejamos calmamente, e de novo, o vídeo em que uma aluna disputa com a sua professora um telemóvel.

A aluna está irritada, o telemóvel é claramente um bem precioso para ela. É como um diário dos velhos tempos, o invólucro dos segredos próprios da juventude. Berra com a professora, sem educação, sem saber que aos mais velhos e, principalmente, a um professor se deve, acima de tudo, respeito.

Mais tarde a jovem reconheceu que tinha procedido de forma errada.

Mas, se a adolescente é patética, que dizer da professora? Esta, de cabeça perdida, luta com a aluna como se se tratasse de alguém da mesma idade e com os mesmos direitos. Na verdade, a professora está numa encruzilhada: não sabe o que fazer. Poderia chamar um contínuo e pedir-lhe que expulsasse a aluna? Poderia ter-se sentado de novo e esperado que a birra passasse?

A professora não tem autoridade. Pouco ou nada pode fazer. A sua atitude é desculpável por essa impossibilidade, essa impotência de actuar.

O resto da escola não existe. Os outros alunos - salvo dois ou três que no fim do filme, mais de um minuto depois da cena começar, parecem tentar acabar com a luta - riem-se e insultam a professora, 'a velha'. Ninguém acode à porta, apesar da berraria, o que indicia uma certa e infeliz normalidade dos guinchos.

Há 40 anos, se um professor quisesse retirar um objecto a um aluno, bastava pedi-lo. O aluno entregava-o. Não por medo de represálias do professor, mas pelo respeito que aquele lhe infundia. Por vezes, por medo que os pais soubessem que se tinha portado mal na escola.

Se não entregasse o objecto, seria posto na rua da turma; provavelmente suspenso por uns dias.

Este foi o sistema que destruímos a troco de nada.

O retrato que este pequeno vídeo faz das nossas escolas é, para mal dos nossos pecados, bastante real. Ao fim de mais de 30 anos de experiências, foi onde chegámos.

Que mais será necessário para perceber que fizemos tudo errado?

- Destruímos a autoridade dos professores;

- Minámos o respeito dos alunos pela escola e pelos seus símbolos;

- Aceitámos que as crianças eram naturalmente boas e queriam aprender;

- Facilitámos a aprendizagem para favorecer as estatísticas;

- Impedimos que os mal comportados fossem separados dos bem comportados, bem como recusámos distinguir entre os que têm e não têm aproveitamento;

Infelizmente, muitos eduqueses do Ministério acham que estamos no bom caminho. Mas basta um minuto para se ver como isso não passa de uma enorme mentira.

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Extinguir o GAVE e ter estatísticas independentes na Educação

15:29 Quinta feira, 20 de março de 2008

Um dos problemas da nossa Educação é o facto de sistematicamente vermos o Ministério a trabalhar para a estatística. Em parte, este facto é responsável por grande parte da balda que reina nas salas de aula. Os alunos não chumbam por motivos estatísticos, pois isso daria um retrato ainda pior do sistema.

Para que não chumbem, não há exames e também deixou de haver, praticamente, retenções por faltas.

Ao não poderem controlar a progressão dos alunos, através dos instrumentos que tradicionalmente tinham ao seu dispor (castigos não corporais, faltas de castigo, chumbos, etc.), os professores perderam autoridade até ao ponto que vemos no pequeno vídeo que aqui publicamos (Professora brutalizada por tirar telemóvel na aula).

Mas é possível alterar este estado de coisas se o Ministério estiver disposto a extinguir o GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional) e a criar um instituto estatal com autonomia responsável pela avaliação das escolas e professores e pela realização de exames. Se esse instituto tiver a independência que têm, por exemplo, o INE ou o LNEC, então sim, podemos crer que o trabalho do Ministério - seja na gestão das escolas, seja na de programas como o 'Novas Oportunidades' - não visa tão somente a melhoria dos índices estatísticos.

Ao mesmo tempo, isso permitiria aos professores ter mais autonomia e poderem gerir as suas salas de aula do modo que entenderem mais conveniente, uma vez que não estariam obrigados às conveniências do Ministério ou do Governo que ele integra.

É uma proposta e haverá outras. Mas estou convicto de que serviria para uma melhoria do sistema de ensino.

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Os professores podem mudar as escolas

14:02 Quarta feira, 5 de março de 2008

Num dos comentários aos comentários que me fizeram no post anterior, desafiando-me a apresentar soluções, escrevi o seguinte:

Não pretendo, como é óbvio, ter soluções na manga nem sou especialista no assunto. Deixo, no entanto, algumas ideias que ao longo dos anos tenho defendido:


1) Liberdade para os pais escolherem a escola dos filhos. O Estado subsidiará o ensino através de cheques-educação e não através do subsídio às escolas que muitas vezes se transforma em subsídios à gordura das instituições e ao desperdício;


2) Descentralização da gestão das escolas, através de um gestor nomeado por uma Comissão do Agrupamento escolar. Essa comissão deve ter professores, pais e responsáveis locais, ao nível de Câmara e autarquias. Como é óbvio, quanto melhor a escola mais alunos e recursos, de acordo com o ponto 1).


3) As contratações, nomeações e avaliações dos professores deixam de ser feitas pelo Ministério para serem pela Comissão da Escola ou agrupamento escolar, ou pelo gestor se assim for entendido e delegado;


4) Os manuais escolares, que devem estar de acordo com um programa nacional, são propriedade da Escola e entregues anualmente aos alunos, que os devolvem. Os manuais, ao contrário do que tem acontecido, não devem ter espaço para preencher pelos alunos nem mudar constantemente. É preferível ensinar bem matéria ligeiramente desactualizada do que andar à procura da última moda (para os incrédulos, é assim na Bélgica em certos Estados dos Estados Unidos, nos países escandinavos, etc.)


5) Exames nacionais de fim de ciclo (4º, 6º 9º e 12º anos) em todas as disciplinas fundamentais, de acordo com o grau. Isto significa no 9º ano, por exemplo: Português, Inglês, terceira língua, História, Matemática, Geografia, Ciências (Física e Química, Biologia) e no 12º ainda Filosofia.
6) Retenção dos alunos (chumbos) e passagem compulsiva para o ensino profissional em caso de mais duas retenções no mesmo ano (caso o aluno não aceite, retira-se o cheque-educação).

Enfim, uma revolução, como vê.

Estou convencido que medidas como estas podiam ainda salvar a nossa escola do descalabro. Mas estou igualmente convicto que nem o Ministério nem os sindicatos as aprovariam.

Os professores podem mudar as escolas, sobretudo se não tiverem medo da mudança, se confiarem em si e se não temerem a sua própria autoridade.

Será possível?

Ou continuaremos no caminho em que estamos, em que nem os conhecimentos radicionais, nem as novas tecnologias se aprendem? Será possível contentarmo-nos com uma sociedade de ignorantes?

Estas são perguntas que vão ficando sem resposta. Mas o debate, esse continua. E espero que dele - feito em tantos lados e também aqui - saia alguma luz.


Clique em baixo para ler o artigo anterior do País dos prodígios, sobre o mesmo tema

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A guerra dos profs

18:18 Sexta feira, 29 de fevereiro de 2008

A contestação generalizada dos professores à avaliação tem um lado negro. Mas vou começar pelo lado certo dessa contestação.

Basta ver na proposta a confusão que resulta de um projecto ultra-burocrático para se perceber que o modelo jamais será implantado, pelo menos de forma imparcial e justa.

O modelo do Ministério, ao invés de ser simples e concreto, de forma a que não só os professores, como os pais e os próprios alunos mais crescidos, compreendam, investe por uma série de caminhos, atalhos e impasses próprios de quem quer prever todas as situações e acaba perdido na teia que, entretanto, teceu.

É, pois, normal, que os professores repudiem tal método.

Mas há o lado negro, aquele que é impulsionado pela maioria dos dirigentes sindicais: o medo da avaliação.

Na verdade, subsiste quem acha que jamais deve ser avaliado num sistema em que chegou a haver créditos fornecidos aos professores pela sua participação em cursos idiotas.

É por este lado que o Governo se defende, atirando as culpas para cima de professores preguiçosos, indolentes e incompetentes, como se dos professores fosse a culpa (exclusiva ou principal) do sistema de ensino que temos.

Porque, antes da avaliação e da própria gestão das escolas (que são boas ideias, ainda que com concretizações muito discutíveis) há aquilo que é essencial e que sai directamente da 5 de Outubro: os programas, os métodos de avaliação e de imposição de disciplina.

Estes três vectores podem resumir-se assim: maus programas, pouca e facilitista avaliação e indisciplina generalizada.

E disto não têm culpa nenhuma 99 por cento dos professores.

Clique em baixo para ler o artigo seguinte do País dos prodígios, sobre o mesmo tema

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O Casino e o Parque Mayer

17:41 Segunda feira, 18 de fevereiro de 2008

Recordemos - porque recordar é um exercício sempre interessante - que a história de um casino em Lisboa começou como uma ideia salvadora do Parque Mayer. Que aquilo estava ao abandono e que um casino reavivaria o pitoresco local lisboeta. Que Frank Ghery, o grande arquitecto norte-americano, faria o projecto que, por fim, iria devolver aos lisboetas e a todos nós que pela cidade nos movimentamos, o espaço que fora outrora o da nossa pequena Broadway.

Santana, que apresentou estas ideias como programa de campanha, não as conseguiu levar adiante. Houve complicações e, entre elas, um veto presidencial de Jorge Sampaio.

Mas a ideia do casino medrou. Foi andando de local em local - esteve para ser no Cais do Sodré, depois no Jardim do Tabaco e, nesta caminhada para Oriente, acabou na Parque Expo onde fora o Pavilhão do Futuro.

Da pequena sala de jogos, extensão do Casino Estoril, transformou-se no que é hoje.

Mas o Parque Mayer, à custa do qual se montou toda a operação, esses, meus caros amigos, está exactamente na mesma.

Ou pior, se tivermos em conta a acção do tempo.

Ora aqui está como se faz política e como se fazem negócios nesta terra. Visto com esta simplicidade, até parece mentira.

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Sócrates e o 'Público'

12:44 Quarta feira, 13 de fevereiro de 2008

Falando ao Rádio Clube Português (som que gentilmente aquela estação cedeu para um podcast nesta página de Internet), António Costa fez um ataque em toda a linha ao jornal 'Público', ao seu director e ao seu proprietário.

Como é óbvio, não tenho procuração de Belmiro de Azevedo, nem dos meus colegas José Manuel Fernandes e José António Cerejo (director e jornalista daquele diário) para defender jornal alheio. Mas ficaria mal com a minha consciência se não dissesse o que se segue:

1) O trabalho de José António Cerejo no 'Público', sobre as assinaturas de Sócrates a projectos que não eram seus, mas de outros engenheiros, pareceu-me sério, seguro e bem documentado. Não conheço jornal independente no mundo que não o publicasse.

2) O trabalho em si não revela nada de especial que não se soubesse: que os engenheiros trocavam projectos entre si por razões várias e que Sócrates, na sua juventude, alinhou nesse esquema. O caso morreria se não fosse esta espécie de histerismo do poder contra o jornal.

3) Associar o resultado da OPA da Sonae sobre a PT à orientação do 'Público' como jornal é, manifestamente, errado e calunioso. Nem creio que José Manuel Fernandes se mova por objectivos do grupo Sonae, nem acredito que o engenheiro Belmiro, ou o presidente da Sonae, Paulo Azevedo, influam nas notícias do 'Público'. Quem pensa desta maneira não conhece os jornais ou vê o mundo a preto e branco.

4) A reacção de Sócrates é desproporcionada. Na verdade, o primeiro-ministro não discute os factos que a notícia em causa lhe assaca. Apenas diz que os projectos são seus, mas não explica por que motivo fez projectos tão maus na Guarda, nem abre os processos a consulta para se avaliar se seriam ou não da sua autoria. Apenas discute as motivações com que a notícia foi feita. Ao reagir assim, ele não desconhece a pressão brutal que coloca sobre os jornais e sabe que qualquer notícia, comentário ou crítica menos favorável são vistas do ponto de vista do combate político e não como devem ser escrutinadas: através do critério da veracidade. Independentemente de a notícia ser verdadeira,  ataca-se de forma violenta os autores da mesma, na reedição cansativa da morte do mensageiro.

5) António Costa, que se tem revelado um excelente autarca e que é um homem com uma inteligência superior, escusava de se ter prestado a este papel. As suas declarações - que se podem ouvir aqui - acaso fossem proferidas por alguém de direita, seriam consideradas imediatamente como desejos censórios, intolerantes e ameaçadores. Só mesmo por saber quem é António Costa podemos ficar descansados.

Mas é bom não esquecer que certos demónios, quando postos à solta, são difíceis de controlar.

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Transplantes e desplantes

13:30 Sexta feira, 8 de fevereiro de 2008

Em Portugal faz-se um caso de tudo e de quase tudo se faz um caso. Veja-se o caso dos transplantes. O Estado paga incentivos enormes aos hospitais que os fazem e soube-se que o presidente da Autoridade para os Serviços de Sangue e de Transplantação (ASST), Eduardo Barroso, continuava a ganhar milhares de euros mesmo sem os fazer.

Barroso alega que formou e dirigiu a equipa que mais complexos transplantes faz no Curry Cabral e que foi para a Autoridade com a condição de ganhar a percentagem que lhe cabia na sua equipa (e que era a parte de leão). Foi assim que se soube (na revista 'Visão') que aquele ilustre cirurgião tinha arrecadado mais de 277 mil euros só no último ano.

Escândalo, dizem todos, e eu também. E acrescento: mais do que transplante é desplante!

Mas ponhamo-nos, um momento, na pele de quem necessita de um transplante (ou na de quem tem um familiar próximo a necessitar). Acharemos este dinheiro bem gasto? Compreenderemos que o Estado pague tanto a quem os faz?

Talvez. As coisas nunca são a preto e branco.

Sabemos que todos deveriam ser como os cirurgiões de Coimbra Manuel Antunes e Alfredo Mota, que não recebem qualquer incentivo pelo seu trabalho fantástico nos transplantes cardíacos e renais.

Mas nem sempre o que deveria ser o é.

E como médicos como Manuel Antunes (que em tempos entrevistei longamente), competentes, sérios adeptos da medicina pública (apesar de politicamente conservador) são tão raros, teremos, provavelmente, de continuar conviver também com os desplantes do Dr. Barroso.

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Remodelação ou ajuste?

16:45 Terça feira, 29 de janeiro de 2008

A substituição de dois ministros faz uma remodelação? Digamos que, tendo em conta o perfil do primeiro-ministro se trata de um ajuste.

De Ana Jorge, que substitui Correia de Campos, nada mais há a esperar do que a continuação da política anterior - a qual, para sermos justos, tinha mais defeitos na comunicação do que na substância. A própria, em declarações feitas à Lusa, afirmou acreditar no trabalho que estava a ser feito; também o facto de ter sido presidente da ARS de Lisboa milita no sentido de ser uma continuadora, não uma inovadora. Ou seja, na substância, nada muda na política de Saúde. Como dizia Lampedusa, muda o ministro porque 'é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma' (embora o facto de Ana Jorge ter sido apoiante de Alegre não deixe de ser um sinal para o interior do PS)

Já a entrada de Pinto Ribeiro (causou certa surpresa, e até a suspeita de ser engano, o ministro ser José António Pinto Ribeiro, o advogado, e não António Pinto Ribeiro, o professor universitário de teoria da cultura e programador cultural) só pode ser vista com esperança. Menos do que Isabel Pires de Lima - mesmo tendo em conta a carência absoluta de meios que existe no ministério - é praticamente impossível.

No entanto, se nos lembrarmos do Governo que entrou em funções há três anos, verificamos que a remodelação já foi profunda: Luís Campos Cunha, Freitas do Amaral, António Costa, Correia de Campos e Isabel Pires de Lima - são uma mão cheia de nomes que compõem uma remodelação.... à José Sócrates...

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