24 de maio de 2013 às 0:19
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O novo mundo árabe

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Para além da religião e da língua, uma coisa se repete nas paisagens do Cairo, de Damasco, de Amã ou de Sanaa: retratos de ditadores. No Cairo, a fotografia de Mubarak olha-nos em cada canto, sendo certo que, se nada acontecesse, no lugar dela seria posta a do seu filho Gamal. Em Amã, é a fotografia do Rei Abdullah que ocupa o espaço público. Em Sanaa, o bigode de Saleh está em todas as esquinas. Em Damasco, Bashar al-Assad divide a iconografia da ditadura com o pai que governava antes dele e com o falecido irmão que deveria ter ficado com o seu lugar. Mas os símbolos populares são outros: no Iémen, quando lá estive, em 2005, era a cara de Yassin, líder religioso do Hamas abatido pelos israelitas; na Síria, quando lá estive, durante os bombardeamentos israelitas ao Líbano em 2006, eram as bandeiras amarelas do Hezbollah; no Egito é a Irmandade Muçulmana.

Não se trata de fanatismo religioso. Perante ditaduras incompetentes e cleptómanas, os islamistas parecem ser os únicos que se preocupam com o povo. O suficiente para lhe dar pão, conforto espiritual e alguma autoestima. Salva-nos o facto de, apesar de tudo, os movimentos laicos que tomaram o poder durante as independências terem apostado num sistema educativo público. E das redes sociais, que servem para arregimentar militantes para os grupos islamistas, também servirem para conectar os jovens árabes com o resto do mundo. Na Síria, na Jordânia, na Tunísia e no Egito há oposições democráticas que acreditam numa terceira via. Graças a elas, é possível que estejamos a assistir ao fim do período pós-colonial na região sem que isso resulte em teocracias.

Foram a crise económica e a repressão, e não a questão religiosa ou a relação com o Ocidente, que levaram a estas revoltas. E elas unem oposição laica e religiosa. No Egito, não foi a Irmandade Muçulmana que liderou os protestos. Até foi surpreendida por eles. Mas tem o apoio de cerca de um quinto dos egípcios e parece estar disposta a entrar no jogo democrático. Sem ela, não há democracia. Podemos aprender com o passado recente. Com a Turquia, onde o AKP está no poder e até tem garantido alguma progressão democrática. Com o Líbano, onde o Hezbollah integra uma coligação governamental. Com a Palestina, onde, pelo contrário, o isolamento internacional do Hamas levou a uma guerra civil.

O Egito não será um Irão. Poderá vir a ser uma democracia musculada, uma democracia plena ou uma ditadura renovada. Serão os militares a determinar a evolução provável. E, caso os generais mudem de campo, os partidos estão dispostos a aceitar a sua tutela, mesmo que transitória. Claro que é difícil para os Estados Unidos e para a Europa abrirem mão do controlo de uma região com a importância estratégica que esta tem. Claro que Governo israelita sabe que alguém que dependa do voto dos egípcios não poderá continuar a cumprir o papel de guarda prisional de Gaza. Mas se o desejo ocidental de limitar a democracia árabe voltar a imperar, tentando afastar parte das forças políticas deste processo, tudo pode correr mal. Se, pelo contrário, percebermos que há mundo para lá dos nossos medos, talvez haja esperança para estes povos. Os árabes estão a fazer a sua parte. Será que o Ocidente conseguirá, desta vez, estar à altura?

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de fevereiro de 2011

 

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O velho Egipto
Meu caro Daniel Oliveira, não posso deixar de comentar o seu artigo, embora com algum atraso, é que ainda que o meu amigo tenha deambulado por esses países, ainda confunde os islamitas com os ismaelitas. O Egipto é maioritariamente sunita, assim como o Iraque e a Arábia Saudita. Temos tido presos políticos e por razões religiosas em ambos os países e a culpa não pode ser apenas acarretadas aos vários ditadores que por lá têm passado. Na verdade, tanto o Irão Xiita, como os sunitas têm desrespeitado os Bahá'ís desde 1844. No tempo do Xá Reza Palevi os opositores ao regime, assim como as minorias religiosas eram perseguidas, com toda a anuição do clero muçulmano que nunca aceitou que a Fé Bahá'í fosse aceite como uma religião independente, e, agora também não! Todos os países árabes sofrem do mesmo mal. E, já agora quem disse que a "democracia" é a panaceia para todos os males? Estamos a falar de países que são, foram e ainda serão regidos por teocracias. Pense nisso.
Re: O novo mundo árabe
O Sr. Daniel culpa o Ocidente pelo apoio a muitas ditaduras que lhes servem os interesses, como é o caso do Norte de África.

Não é assim desde o início do mundo?

Por exemplo, o regime fascista da ex-URSS apoiava (pagando tudo) o regime facínora dos barbudos de Cuba e não me lembro de ter visto o senhor DO a criticar os russos.
não percebo
Não percebo o medo do ocidente (incluindo Israel), com o facto de estes países estarem em convulsão. Das duas uma, ou serão democracias8ou coisa parecida) e serão forçosamente moderados, ou serão teocracia e forçosamente derrotados pelo ocidente(incluindo Israel) como nos ultimos 450 anos.
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