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O nosso caso não tem solução

Ou melhor, tem. Mas as soluções são más e passam por uma longa recessão, até que os custos e preços do sector não transacionável caiam 20%.
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O leitor lê o título e diz: tudo tem solução menos a morte. É certo. Só que as soluções para o nosso caso são todas péssimas. E vamos ter de escolher uma.

Para os mais esquecidos, convém lembrar que entre 1987 e 1990 Portugal cresceu a taxas verdadeiramente asiáticas (7,6%, 5,3%, 6,7% e 7,9%), impulsionado pelo reequilíbrio entre salários e produtividade, desvalorizações deslizantes do escudo, política orçamental expansionista e o enorme afluxo de investimento estrangeiro e de transferências da CEE ("Economia portuguesa: as últimas décadas", de Luciano Amaral). Na década seguinte, o crescimento já foi cerca de metade daquele, embora com um pico entre 1997 e 2000 (4,2%, 4,9%, 3,8% e 3,9%), apoiado na despesa pública. E a década de 2000 é um desastre, com um crescimento médio de apenas 0,4% e duas recessões (-0,8% em 2003 e -2,7% em 2009).

Em 1990, o governo do dia decide abandonar o sistema de desvalorização deslizante do escudo. A revalorização tornou difíceis as condições de produção dos bens transacionáveis (as exportações), incentivando a expansão do sector não-transacionável e deixando o país incapaz de financiar as suas importações. É esta a origem do endividamento dos últimos 15 anos (Amaral). E o facto de termos entrado na moeda única com um câmbio para o escudo demasiado elevado cristalizou a nossa falta de competitividade.

O peso do sector transacionável regista um declínio que se inicia em 1990 e que progride à medida que o diferencial de preços se acentua a favor do sector não-transacionável - e cujo desajustamento atual se deve situar na ordem dos 20% (O nó cego da economia", Vítor Bento). Acresce que a forma como foram feitas as privatizações de bancos, seguradoras e outras empresas que tinham sido nacionalizadas, dando preferência aos grupos portugueses, cimentou esta aposta dos empresários e investidores no sector dos bens não-transacionáveis.

É preciso reverter esta situação, diminuindo os custos e os preços do setor não-transacionável e tornando mais competitivo o setor transacionável. Como? À bruta: o país pode abandonar a Eurolândia e recuperar a moeda nacional. As consequências seriam devastadoras: explosão das taxas de juro e de inflação, aumento exponencial do endividamento dos agentes económicos, fuga de capitais. Menos à bruta: revertendo os incentivos ao sector não-transacionável, o que também não se afigura fácil, já que as implicações serão enormes para uma população dependente do Estado-providência para quase todos os aspetos da sua vida. Versão suicida: o país assume a sua incapacidade para fazer face aos problemas económicos, aceitando transformar-se numa região de qualquer coisa semelhante a um Estado nacional europeu (Amaral).

Vítor Bento considera que o problema da competitividade só se resolve pela descida dos preços e dos custos laborais do sector não-transacionável. Mas isso obriga a uma intervenção discricionária das autoridades, que não será fácil por afetar os interesses empresariais e sindicais que se habituaram a desfrutar das rendas que o atual modelo lhes proporciona. Por isso, não vê alternativa a um prolongado período de baixo crescimento, se não mesmo uma prolongada recessão.

O que fazer? Definir uma estratégia, aplicá-la de forma persistente e fazer o trabalho de casa. Todas as soluções em cima da mesa são péssimas. Mas serão catastróficas se não tomarmos consciência de que temos de mudar rapidamente de vida. E de viver com menos 20% do que temos vivido.

Vamos lá ao tira-teimas!


E pronto, cá estamos nós com a perspetiva do Governo ser derrubado a 10 de Março, após o Bloco de Esquerda ter anunciado que vai apresentar uma moção de censura ao Executivo nesse dia. O que ganham os cidadãos com isto? Provavelmente, uma mudança dos nossos governantes. Mas isso conduzirá a uma mudança de política económica? Altamente improvável. Como tem sido dito e redito pela oposição, o nosso futuro está muito mais nas mãos da sra. Merkel do que nas nossas. Se no Conselho Europeu de 11 de Março, Berlim e Paris decidirem que o fundo europeu pode comprar títulos de dívida soberana no mercado primário teremos algum alívio nas taxas de juro que estamos a pagar pela dívida pública. Mas não mais do que isso. A execução orçamental terá de continuar a ser executada ao milímetro para que não tenhamos de ajoelhar perante o fundo europeu e o FMI. E os mercados vão agora cobrar mais cada vez que a República tiver de obter financiamentos. O que daqui decorre é que, numa crise tão grave como esta, é necessário um Governo de maioria absoluta na Assembleia da República. Mas mesmo uma maioria PSD-CDS talvez não baste. O que temos pela frente é tão duro que será um erro deixar de fora o PS - que não resistirá a contestar esse Governo em São Bento e nas ruas.

FMI, crise e preconceito ideológico


A unidade independente de auditoria ao FMI afirma que as equipas do Fundo ignoraram a maior crise financeira mundial das últimas seis décadas por duas razões. 1) Houve excessivo respeito pelas opiniões expressas pelas autoridades das grandes potências mundiais, em particular Estados Unidos e Grã-Bretanha, em cujos bancos centrais trabalha um elevado número de economistas altamente qualificados. 2) Os quadros do FMI foram capturados por uma mentalidade de grupo, apoiando fortemente o modelo de desregulamentação conduzido pela Reserva Federal dos EUA. O que este relatório nos diz é que 1) mesmo entidades como o FMI fazem-se fortes perante os fracos mas são fracos perante os fortes; e 2) os economistas do FMI são ideologicamente neoliberais, logo profundamente crentes que a disciplina do mercado e a autorregulação chegam para evitar problemas nas instituições financeiras. Não é surpresa. O que importa saber é se algo vai mudar no FMI depois disto ou se continuaremos no business as usual.

Sobressalto na Galp


E continua a melhor novela económica deste início do ano: a Galp. Na semana passada, houve um golpe inesperado. Quando tudo parecia encaminhado para os italianos da ENI venderem 25% da sua participação à Petrobras, eis que estes batem com a porta. O país perde. No quadro da estratégia que passa por fortalecer as relações com o Brasil, seria de toda a conveniência que a mais poderosa empresa pública brasileira tivesse interesses em Portugal. A Galp perde. Era importante fortalecer, agora por via acionista, a sua ligação à Petrobras, de quem é parceira em vários negócios no Brasil. O Governo perde. Contava com os brasileiros para contrabalançar as exigências dos angolanos Sonangol e Isabel dos Santos para terem uma posição de relevo no capital da Galp. Américo Amorim perde. O acionista de referência da Galp contava com os brasileiros para manter os angolanos numa posição subalterna no quadro da Amorim Energia ou com uma pequena participação no capital da companhia portuguesa. Ferreira de Oliveira perde. Contava com a Petrobras para apoiar a sua continuação como presidente da Galp. Ou seja, com a saída da Petrobras de cena, só ganharam os angolanos. Ganharão no final? Veja as cenas dos próximos capítulos.

A empresa do quase


Pela primeira vez, uma empresa 100% portuguesa foi cotada na bolsa alemã. A Ynvisible pertence ao grupo Ydreams e especializou-se numa tecnologia inovadora que permite dotar de propriedades interativas superfícies e objetos, como plástico, vidro, cerâmica, madeira ou cortiça. Para já, contudo, os investidores estão a apostar num sonho, porque as primeiras vendas só deverão ocorrer no primeiro semestre deste ano. Esperemos que a Ynvisible tenha sucesso. O verdadeiro teste, contudo, é para a Ydreams e para o seu CEO, António Câmara. Até agora, a Ydreams prometeu muito, mas ficou-se sempre pelo quase. Quase que foi uma Tom-Tom. Quase que teve o melhor jogo do Ronaldo para telemóveis. Quase que teve um enorme sucesso nos miradouros virtuais. Esperemos que desta vez a Ydreams tenha um golpe de asa e não fique aquém. António Câmara merece.

 

DiCaprio is bullshit. Charles Bronson is great!
Descia o autocarro quando ouvi
um americano coxo a proferir a sua
sabedoria. Já não há espanto
que glorifique a nossa existência.
Perguntas sobre Deus? Sobre o decorrer
tacanho dos dias? Falas sobre a beleza
do giestal ancorado na neblina? Será
que tudo isso fala da vida?
Ficar calado e assistir ao bocejo
boçal de uns, à maledicência de outros
Entregues à pobreza das suas vidas,
ao mesquinho horizonte da rua dos fanqueiros

Fernando Luís Sampaio, "Hora de Ponta"

 

Nicolau Santos

Texto publicado no caderno de economia do Expresso de 12 de fevereiro de 2011


Opinião


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"O nosso caso não tem solução"
BRILHANTE!!! Acham que era possível enviar este artigo redigido pelo genial Nicolau para o "rapaz" que foi, incompreensívelmente entrevistado hoje, 19/02, no Expresso da Meia-Noite, "Tiago não-sei-das-quantas"? Obrigado pela atenção!
Re: O nosso caso não tem solução
"para uma população dependente do Estado-providência para quase todos os aspectos da sua vida".

Talvez o senhor nos possa explicar se esta é a razão de grande parte dos nossos problemas.
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Edição Diária 17.Abr.2014

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