19 de abril de 2014 às 12:30
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O medo da gripe

Paranóia. A gripe A tornou-se uma obsessão no Festival do Sudoeste. Para descansar as mães que ficam em casa, há quem traga máscaras e evite contactos com os espanhóis. E nunca foi tão cool lavar as mãos com álcool depois das refeições. (Veja os vídeos e fotogalerias através do link no final do texto)
Hugo Franco (texto) e Nuno Botelho (fotos)
Não foi registado qualquer caso de Gripe A no Sudoeste e as máscaras disponibilizadas pela organização não saíram das caixas. Mas o medo anda no ar e quem paga são os espanhóis, vistos como foco de contágio Não foi registado qualquer caso de Gripe A no Sudoeste e as máscaras disponibilizadas pela organização não saíram das caixas. Mas o medo anda no ar e quem paga são os espanhóis, vistos como foco de contágio

Este ano, as mochilas que vieram ao Sudoeste trazem mais do que a tenda, o fato-de-banho, o pacote das batatas fritas ou as mortalhas. No boom da gripe A, há quem tenha vindo carregado com máscaras hospitalares e até com folhetos do Ministério da Saúde sobre a prevenção da doença. É o caso de Hugo e João, de Beja. "Se tivermos prevenidos é melhor. E deixamos as nossas mães descansadas em casa", afirmam os estudantes em frente ao palco principal. O look até os torna cool no meio de betos e freaks.


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Das prateleiras da farmácia para a tenda no camping do festival, Ana e Joana, de 17 anos, trouxeram uma embalagem de álcool em gel para lavar as mãos. "Só assim conseguimos convencer a nossa mãe a deixar-nos vir ao festival. Ela não queria, pois tinha receio que fossemos infectadas pelo vírus no meio desta multidão", revelam as duas gémeas. A solução alcalina está ao lado dos iogurtes e dos cereais para o leite. "Usamo-la religiosamente depois das refeições".

O tema da gripe tem sido recorrente nas conversas, desde que saíram de Leiria, de autocarro, em direcção à Zambujeira do Mar. "Está na cabeça de toda a gente, mesmo nos momentos de diversão". Quando um vizinho da tenda ao lado adoeceu com febre, há três dias, recearam o pior. Noutra altura, nem tinham dado a mínima importância. Afinal, o rapaz só tinha uma amigdalite. "Temos de recear apenas as pessoas que vêm de fora, pois é do estrangeiro que a gripe é contraída".

Oriundos dos arredores de Cadiz, no sul de Espanha, Sérgio González, de 24 anos, e José Navarro, de 23, sabem bem o que Joana e Ana querem dizer nas entrelinhas. Na povoação de Porto Real, onde vivem, há dezenas de pessoas no hospital infectadas pelo H1N1. Nenhuma morreu, mas o cerco da doença é real. Em Espanha, o número de casos é muito superior ao de Portugal. "No meio de milhares de pessoas, há uma certa dose de risco, embora moderada, pois estamos ao ar livre. O melhor é não pensar demasiado no assunto", diz Sérgio, enquanto coloca uma máscara bico de pato, o modelo recomendado pelos médicos para evitar o contágio. O rapaz da Andaluzia sabe de cor os sintomas da doença e o que deve fazer em caso de se sentir febril. No seu dia-a-dia, como funcionário de um cacilheiro, tem à mão um kit de emergência, uma vez que transporta milhares de pessoas todos os dias. "Seria uma infelicidade ser infectado aqui no meio do Alentejo".


André Soares, de 24 anos, já foi avisado pela mãe, médica no Hospital de Santa Maria, para que ao mínimo sintoma febril regressasse a Lisboa. "Disse-lhe que é mais provável ter uma ressaca do que o H1N1", ironiza o rapaz de piercing e óculos coloridos. Mais a sério, confessa que chegou a ponderar não vir ao Festival, por causa do surto pandémico. Mas não resistiu ao "cartaz e à pica" que é a de acampar no Sudoeste. "Tenho um amigo que ficou internado em casa. Infelizmente, vai sendo cada vez mais comum. Só rezo para que o vírus não me apanhe".

Nem todos os portugueses que vieram ao maior festival de rock de Verão apreciam a presença dos milhares de jovens espanhóis. Desta vez, não é a xenofobia ou as rivalidades entre cidadãos de países vizinhos que fazem levantar as vozes. "Se algum se aproximar de mim, dou-lhe um pontapé", gaba-se um jovem acabado de sair de uma tenda, perto dos chuveiros, com ar de ressaca. "Não quero que me peguem essa praga".

O discurso é repetido por mais adolescentes, entre o tom sério e o de gozo. Os espanhóis que se apercebem do mal-estar encolhem os ombros: "Vim para cá para ouvir os Buraka Som Sistema e não idiotices", ironiza um rapaz de Málaga.

No início da semana, uma jovem da Trofa dirigiu-se à farmácia da Zambujeira do Mar para revelar que um amigo, com quem tinha ido acampar no Sudoeste, padecia dos sintomas típicos da gripe A.


Estava em pânico, pois tinha receio de ter sido infectado. "Aconselhei-os a voltar para casa. Eles seguiram as minhas indicações mas não sei o que lhes aconteceu", conta o farmacêutico, que alerta: "Deve haver muitos casos de gripe normal entre os adolescentes do festival, pois muitos deles não trazem a roupa adequada para as noites húmidas, dormem em tendas e ao relento e apanham sol a mais".

O médico da organização, Luís Raimundo, conta que até ao momento todos os casos que se pensavam ser de H1N1 se revelaram infundados. "Há mais perigos em ajuntamentos em grandes superfícies comerciais e jogos de futebol do que num festival de rock ao ar livre", desdramatiza. E conta que na tenda médica, junto ao palco principal, existem 200 máscaras disponíveis e nem uma saiu dos caixotes.

O mesmo não acontece na farmácia nem nos bombeiros de Vila Nova de Milfontes. "Estamos à espera das máscaras prometidas há semanas", diz um voluntário da corporação. Já o posto médico da vila só tem máscaras reservadas para os profissionais de saúde. Quem quiser adquirir uma terá de se dirigir ao posto móvel da Cruz Vermelha, perto da praia. Mas o stock é tão escasso que a funcionária prefere nem fazer publicidade. "Vêm para aqui os turistas em massa acabar com elas".

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Agosto de 2009


Veja os vídeos e fotogalerias diários sobre o Festival Sudoeste e relembre ainda a cobertura do Festival Paredes de Coura na secção dedicada aos festivais de verão.

Comentários 3 Comentar
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Para além de alguns exageros...
... o medo da gripe A, até parece que está a trazer bons hábitos, como é o caso de lavar as mãos várias vezes por dia, não meter os dedos no nariz nem tocar nos olhos. Espera-se que, passada a pandemia, os bons hábitos tenham vindo para ficar.
A educação para a saúde começa no berço
...e com o chá da avozinha porque é de pequenino que se torce o pepino e não com campanhas oportunistas criadas a pretexto do medo da peste que teria à força que vir porque não veio com a gripe das aves e tinha que vir com a gripe suina dos mexicanos.
Afinal não veio nem com esta nova mutação do H1N1, porque os vírus da gripe A sempre foram mesmo assim, mutantes e malandrecos imprevisíveis!
Quantos aos bons hábitos, está-se a falar de quais? Do ritualismo exagerado dos judeus e da hiper-higiene da AZAE ou das boa praticas sociais que nem a Sida acabou porque nem só de pão vive o homem nem de boa saúde física mas também de boa saúde psíquica e social!
A boa pratica do lava-mãos deveria começar por ser regra obrigatória nos hospitais para acabar com o flagelo das infecções hospitalares que já é conhecida á década e é a principal causa de morbidade e mortalidade em recém-nascidos (Em 30,4% das crianças, a infecção hospitalar foi causa directa do óbito e em 50,8% foi contribuinte). Dados de hospitais americanos chegam a uma incidência média de infecção hospitalar de 5%, com cinco episódios por mil pacientes-dia. No entanto, controversamente, um estudo de 2009 vai demonstrar que o treino de pessoal revelou aumentar as taxas de infecção. Ou seja, isto não vai lá com campanhas histéricas de circunstância mas com educação para a saúde a começar nos bancos das escolas.

A educação para a saúde é uma coisa séria...
que começa no berço com o cha da avozinha!
Porque é de pequenino que se torce o pepino e não com campanhas oportunistas criadas a pretexto do medo da peste que teria à força que vir porque não veio com a gripe das aves e tinha que vir com a gripe suina dos mexicanos.
Afinal não veio nem com esta nova mutação do H1N1, porque os vírus da gripe A sempre foram mesmo assim, mutantes e malandrecos imprevisíveis!
Quantos aos bons hábitos, está-se a falar de quais? Do ritualismo exagerado dos judeus e da hiper-higiene da AZAE ou das boa praticas sociais que nem a Sida acabou porque nem só de pão vive o homem nem de boa saúde física mas também de boa saúde psíquica e social!
A boa pratica do lava-mãos deveria começar por ser regra obrigatória nos hospitais para acabar com o flagelo das infecções hospitalares que já é conhecida á década e é a principal causa de morbidade e mortalidade em recém-nascidos (Em 30,4% das crianças, a infecção hospitalar foi causa directa do óbito e em 50,8% foi contribuinte). Dados de hospitais americanos chegam a uma incidência média de infecção hospitalar de 5%, com cinco episódios por mil pacientes-dia. No entanto, controversamente, um estudo de 2009 vai demonstrar que o treino de pessoal revelou aumentar as taxas de infecção. Ou seja, isto não vai lá com campanhas histéricas de circunstância mas com educação para a saúde a começar nos bancos das escolas.
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