24 de maio de 2013 às 13:32
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O homem

Apanhou o autocarro. Durante a viagem, achou que as pessoas o olhavam, se ele não as olhava, e não o olhavam, se ele as olhava. Isso incomodou-o. Quando o autocarro estava a chegar à paragem onde queria sair, tocou a campainha.
José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Na madrugada tão escura que parecia continuar a noite, o homem saiu de casa com a gabardina vestida e o chapéu de chuva na mão gelada. Morava num daqueles sítios onde moram aqueles que não podem morar noutro sítio. Quando pôs o pé na rua molhada, o frio de fora juntou-se ao frio de dentro. Andou algum tempo e veio-lhe a vontade de beber qualquer coisa quente. Passou por um café, mas estava tão lúgubre e deserto que, só de o olhar, se arrepiou. Continuou a andar e a tossir a sua tosse seca e nervosa. A certa altura, viu uma pastelaria que lhe pareceu quente, iluminada e confortável. Entrou nela como num abrigo. Caminhou até ao balcão, onde, atarefados, três empregados andavam de um lado para o outro. Dirigiu-se a um deles, murmurando "bom dia", e pediu, com uma voz que despertava, um galão e uma torrada. Ao fazer o pedido, esfregou, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra. O empregado olhou-o, continuando a fazer o que estava a fazer. O tempo passava e, em frente do homem que esperava, o balcão permanecia vazio. Pensou: "Há gente à minha frente..." E fez da sua espera paciência. O tempo continuava a passar e nada lhe era servido. Tentava justificar o que acontecia: "Se calhar, é a torrada que demora." E aguardava. Mas a espera tornou-se inaceitável e ele disse ao empregado: "Faz favor! Esqueceu-se de mim. É uma torrada e um galão escuro bem quente." O empregado olhou-o com um olhar que significava que o ouvia e falou baixinho com a cozinheira que estava na copa. Pensou: "Foi ver o que se passa com a torrada." Mas o tempo corria e não aparecia nada à sua frente. Primeiro, o homem ficou irritado; depois, ficou embaraçado. Olhava o empregado, o empregado olhava-o - e nada acontecia. A certa altura, confuso e envergonhado, desistiu. Saiu, foi de uma rua a outra rua e entrou noutra pastelaria. Ao balcão, uma mulher agarrava em copos e pratos. Deu-lhe os "bons dias" e pediu-lhe o galão e a torrada com pouca manteiga. Ela olhou-o e ele ficou à espera. O tempo passava e nada se passava. A pastelaria tinha pouca gente e nada lhe era servido. Enervado, disse: "Já lhe pedi, há mais de um quarto de hora, um galão e uma torrada! Se a torrada custa a sair, dê-me um croissant com fiambre." A mulher fitou-o com os olhos claros e continuou a arrumar a loiça. Vexado, o homem tossiu - e foi-se embora.

Já estava atrasado: desistiu de tomar o pequeno-almoço ("Quando chegar ao escritório, vou à máquina e tiro um bolo"). Apanhou o autocarro. Durante a viagem, achou que as pessoas o olhavam, se ele não as olhava, e não o olhavam, se ele as olhava. Isso incomodou-o. Quando o autocarro estava a chegar à paragem onde queria sair, tocou a campainha. Ouviu-se o som metálico, mas o autocarro não diminuiu a velocidade e passou pela paragem como se ela não existisse. Por isso, teve de sair na paragem seguinte, onde havia passageiros para entrar que mandaram parar o autocarro. Na rua cheia de gente, o homem percorreu, num passo apressado, o quarteirão que o separava do edifício onde trabalhava. Chegou ofegante. No átrio, acenou ao porteiro e encaminhou-se para o elevador. Entrou na cabina vazia e carregou no botão do andar para aonde queria ir: o quinto. O elevador não se mexeu. Voltou a carregar e o elevador permaneceu parado. Já se preparava para desistir e ir pelas escadas quando entrou um rapaz que carregou no botão ao lado do qual estava escrito o número 5 - e prontamente o elevador iniciou a sua subida. Abriu-se a porta, ele saiu e seguiu pelo corredor até à sala onde trabalhava. Tirou a gabardina, pendurou-a num cabide e sentou-se à secretária. Olhou os papéis que a cobriam, ligou o computador e verificou que havia uma avaria, embora os computadores dos colegas estivessem a funcionar. Agarrou no telefone e começou a marcar números de gente a quem tinha de falar. Marcava, ouvia o sinal de chamada e ninguém atendia. Passou a outro número e continuaram a não atender. Tentou ainda outro e outro e outro - o resultado foi sempre igual. Virou-se então para um colega e perguntou-lhe: "Sabes se o Freitas já chegou?" O colega olhou-o, mas o olhar não lhe desfez a mudez.

O homem sentia-se como se houvesse na sua frente um vidro grosso que lhe impedisse o acesso ao mundo. Perplexo, olhava o mundo e olhava a sua ansiedade. De repente, sentiu uma vontade nervosa de mijar. Avançou pelo corredor até à casa de banho e deu com ela ocupada. Regressou à secretária. Deixou passar algum tempo e voltou à casa de banho. Já estava livre. Entrou. Dirigiu-se à sanita, mas a urina não saía. Aflito, olhou o espelho. Olhou-o e não viu nele a sua imagem. Não sabia se era ele que não se via no espelho, se era o espelho que não o via a ele...

Este homem existe. Sou eu. És tu. Às vezes, em certos dias, a certas horas...

José Manuel dos Santos

colaborador regular do "Atual"

Texto publicado na revista Atual de 15 de janeiro de 2011

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O homem invisível
Ás vezes sem sabermos como,tornamo-nos invisíveis.
Não é que o sejamos,mas o que o mundo nos faz parecer.
Outras vezes somos nós que nã nos vemos,porque o espelho que nos reflecte embaciou e ficamos parados no tempo...tanto tempo.
Por isso em cada homem há um mundo visível e outro não visível,assim como um objecto opaco e outro transparente.
Em cada espelho de nós somos o que parecemos,ou os que
em nós vêem um outro parecer.
Um outro mundo...
Este seu texto pode ter várias interpretações...
Depende do momento em que lemos.
Eu própria já o defini como um dia de tremendo azar,em que tudo nos corre mal,ou até que o homem está morto.
A 2ªhipotese poderá ser a mais interessante.
Sim...quem sabe se o homem já estava no outro mundo e ainda não tínha dado por isso...
Continuação da história...
Depois o homem voltou para casa.
Meteu a chave á porta e dirigiu-se para a cozinha.
Estranho...a mulher devía estar a fazer o jantar mas nem sinal dela.
Depois ouvíu vozes que vínham do quarto.
Foi devagar e espreitou.
A sua mulher estava a fala com um homem dentro do quarto.
É boa...ela tem um amante pensou o homem.
Ela estava a dar as suas roupas a esse homem,que tínha um aspecto estranho de magro e mal barbeado e vestido com roupas sujas.
Trocou-me por aquilo?? Pensou o homem.
Decidiu saír sem fazer barulho e atravessou a correr a rua
e nisto viu um autocarro que vínha contra ele.
Então o homem lembrou-se.
Estou morto,foi um autocarro que me atropelou.
O existir do não existir...
O homem caminhava naquela madrugada fria e chuvosa.
Sentía frio,estava gelado.
Entrou num café e ninguém o serviu porque não o viram.
Saíu e entrou noutro,mas exactamente como no anterior ninguém ouviu o seu pedido de um galão e uma torrada.
No escritório nada funcionava,ninguém respondia ás suas perguntas.
Tínha vontade de mijar,mas nem isso ele conseguía.

Desatou a correr pela rua desesperado.
Ele sentíu algo estranho quando o autocarro
o encandiou com os faróis no máximo.

Então o homem abriu os olhos e estava num hospital há muito...muito tempo.
O FANTASMA...
O homem entrou no café e ninguém o viu.
Olhou á sua volta e viu duas sentadas a uma mesa.
Puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado delas.
Elas não o viram.
O homem sorrio,era fantástico ser fantasma.
Elas falavam mal dos seus maridos,o homem divertía-se com as histórias e os nomes que elas dizíam dos maridos.
E a minha? Pensou o homem.
É melhor não saber,assim sempre fico na ilusão que fui um bom homem...
A PAIXÃO DO HOMEM...
O homem ía todos os dias ao café só para a ver.
Ela nem reparava nele,só escrevía suas crónicas com ar absorto no que fazía.
O homem conhecía-a de vista e devorava tudo o que ela escrevía.
Mas ela nunca o vía.Mas o homem não se importava muito o que ele quería era vê-la e lê-la.
Um dia ela deixou caír a caneta.
O homem apanhou-a e seus olhos se encontraram quando a entregou.
Ela agradeceu e o homem sentíu seu coração bater de uma maneira que nunca tínha sentido...e então ele percebeu que ela era o seu coração.
O invisível da cidade
Caminho por Lisboa e sou um rosto na multidão.
Depressa atravesso ruas e semáforos e defronto-me com gente que se cruza sem se olhar...
Esta é a cidade da luz que vem dum rio chamado Tejo.
Esta é a cidade em que todos somos invisíveis no meio da multidão.
Por isso eu gosto de Lisboa,porque sou só um rosto no meio da multidão.
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