26/05/2012 atualizado às 13:05
Página Inicial » Atualidade » O fabuloso destino de Sheila Charlesworth

O fabuloso destino de Sheila Charlesworth

Esta é a história de uma mulher invulgar, que foi casada com Sérgio Godinho, hoje unidos por netos. Sheila é do mundo, mas vive em Portugal desde 1976. É de muitas artes e de nenhuma. Gosta que a deixem estar. Mesmo que seja a única habitante num prédio quase em ruínas, em pleno Chiado.

Luís Pedro Cabral (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
Tiago Miranda

Era uma vez uma menina, que nasceu no Canadá, sob um telhado protector, coberto de neve. Os pais, conservadores, chamaram-lhe Sheila. E ela cresceu como as outras meninas de uma sociedade bem comportada. Não vem ao caso dizer o ano, pois isso seria denunciador de um detalhe que não lhe interessa. Digamos só que num país distante, chamado Portugal, já vigorava a ditadura. Estava tão distante daqui, como das estrelas atrás de uma lente telescópica, apontada da janela do seu quarto, quando era já menina e o centro das atenções, que era exactamente a posição que mais lhe agradava. Sempre foi assim. Nunca teve grande interesse no "business", mas adorava dar "show".

Em casa dos pais, o natal era o seu palco predilecto, enquanto o esplendor dos "sixties" não se apresentou a Sheila, que os recebeu de braços abertos na transição da adolescência. Quando completou os míticos 18 anos, disse aos pais qualquer coisa que no íntimo liberal eles já sabiam: Tinha que ir. Tantas coisas chamavam por ela, que na altura foi incapaz de enumerá-las. Chamou-lhe mundo. E para lá foi, com a benção hesitante dos pais e com o pretexto de se encontrar. O seu método de transporte era deixar-se transportar, ficando, partindo, sem plano e sem tempo, com a leveza "flower power". Algures nasceu uma mulher belíssima, cabelos louros, longos, os mesmos olhos azuis, que mantêm o brilho intacto, tantos meridianos depois.

Antes dessa longa viagem, quando ainda estudava no Canadá, foi também modelo e bailarina. Em trânsito, aprendeu as artes do mergulho em águas tropicais, experimentou a substância das viagens, foi parar a Londres, onde foi modelo, e transitou para Paris, onde fez teatro. E onde conheceu um rapaz chamado Sérgio Godinho, um português exilado, a transbordar de palavras, actor e poeta, sem arbitrariedade na ordem dos factores.

E a suas vidas ficaram unidas para sempre, ainda que hoje sejam talvez os netos que mais as une. Estavam ambos no elenco do musical "Hair", produção francesa, pós-Maio de 68. Esta peça, um tributo à cultura hippie, era como a sua representação num espelho, desempenhando os papéis de si próprios.

Quando a peça foi em digressão para a América do Sul, Sheila Charlesworth e Sérgio Godinho partiram para a América do Norte, para viver numa comuna no Canadá, para onde Sheila regressara uma mulher muito diferente, que seria mãe pouco mais tarde, sob os signos de "peace and love". Só voltariam a viajar no sentido pleno em 1976, quando Sérgio Godinho regressou a Portugal e Sheila conheceu o país pela primeira vez, em ambiente pós-revolucionário e resquícios de cinzentismo.

E aqui ficou, muito mais do que em qualquer outro sítio. Sheila sempre andou ao sabor das coisas. Em 1977, foi Doce de Shila, nome artístico, que era o tema principal do seu primeiro disco, Long Play de 33 rotações, com letras de Sérgio Godinho, seu marido. Entre mil coisas, nas artes plásticas, no artesanato, em programas de televisão, na cozinha gourmet, a sua vida caminhou de mãe para avó, sempre hippie à sua maneira, estruturalmente livre e feliz proprietária de uma autocaravana. Há pessoas assim. São frágeis e fortes. E quase sempre inquebráveis. De outra maneira não seria explicável a sua actual situação, que já dura há anos a fio. Sheila vive no Chiado, numa das zonas mais caras de Lisboa, mas vive só, num prédio de cinco andares, que está a rebentar pelas costuras. Mesmo. Tem sido uma longa e dura luta contra quem gostaria que ela já não ali estivesse, como aconteceu a todos os antigos inquilinos do prédio, os seus vizinhos. Nesse prédio, fica o seu mundo, lá em cima no quarto andar, onde há umas roldanas para facilitar o transporte de coisas. Há estruturas em equilíbrio instável de pré-ruína, há buracos por toda a parte, chove dentro de sua casa, mas nada a demove.

Por alturas do natal, que continua a ser a sua época predilecta, Sheila encarna outra personagem. É a Mary, "Mary" Christmas, explica. Não é que hoje em dia seja propriamente "Merry", mas também não é por isso que deixa de ser Christmas. Sheila decora o prédio como se fosse o seu presépio privado, vivendo numa espécie de caos com artefactos natalícios. Tem um olhar muito próprio, adocicado, que lhe permite enfrentar as maiores batalhas, nem que estas sejam legais para defender o território onde vivem as suas memórias e os seus sonhos. Ali. Mesmo em frente ao Grémio Literário.

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
"E O QUE É QUE ISTO INTERESSA ?"
"LUAOUAKYARA" (seguir utilizador), 1 ponto , 10:08 | Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
E o que é que isto interessa ou onde está a parte que se é fabulosa ?
Será por ser loira ?
E os outros....Pois os não loiros e não loiras que andam por cá.
Enfim...
Kácus de vida ...todos temos ...
 
 Regras da comunidade
    Re: realmente ele ha com cada um    Ver comentário
perth (seguir utilizador), 1 ponto , 14:06 | Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
    Interessou-lhe que chegue para    Ver comentário
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 18:15 | Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
    Re:    Ver comentário
OhFaChaVor (seguir utilizador), 1 ponto , 9:57 | Sábado, 25 de dezembro de 2010
    Re: Ao "fabuloso" LUAOUAKYARA    Ver comentário
cumulonimbos (seguir utilizador), 1 ponto , 17:07 | Domingo, 26 de dezembro de 2010
    Re: Ao    Ver comentário
"LUAOUAKYARA" (seguir utilizador), 1 ponto , 11:56 | Terça feira, 4 de janeiro de 2011
Adoro!
Man on the Moon (seguir utilizador), 1 ponto , 14:20 | Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
Doce de Sheila!
 
 Regras da comunidade
UM CONTO DE NATAL? UM FEIO CONTO!
NJP (seguir utilizador), 1 ponto , 17:15 | Sábado, 25 de dezembro de 2010
É um conto de Natal em que o espírito livre da Doce Sheila que um dia acreditou no Portugal fraterno e unido, tão transitório, agora se confronta com o pior da cultura urbana em que a reabilitação dos edifícios implica a total falta de respeito pelos velhos inquilinos, como tem vindo a acontecer com uma Lisboa, suja, emparedada, perigosa, insegura que na Baixa tem o tumor das cidades "donuts". Como o Menino Jesus que foi atirado para uma gruta fora de Belém a doce Sheila não pode permanecer na Lisboa onde se afogou um Sérgio Godinho só de muitas palavras e muito palavreado de vira o disco para que toque o mesmo...
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Manifesto Contra uma Europa sem Europeus
11:46 Sábado, 26 de maio de 2012, 1
Isabel Jonet lidera 247 bancos alimentares na Europa
10:08 Sábado, 26 de maio de 2012, 2
Bloco de Esquerda prepara saída de Louçã
10:05 Sábado, 26 de maio de 2012, 25
Cozinhar com canábis
10:00 Sábado, 26 de maio de 2012, 2
Morreu o pai do comando à distância
20:07 Quarta feira, 23 de maio de 2012, 8
Freeport: Sócrates ameaça processar quem invocar o seu nome
19:23 Terça feira, 22 de maio de 2012, 143
E a celebridade mais poderosa do mundo é...
19:57 Segunda feira, 21 de maio de 2012,
Novas tragédia e polémica na família Kennedy
14:12 Domingo, 20 de maio de 2012, 7
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB