Dias Loureiro levou meses a sair do Conselho de Estado, Armando Vara demorou cinco dias a deixar o Millennium/BCP. Sempre é um progresso. Os casos são diferentes e os tempos de decisão também, mas os mecanismos de reacção foram exactamente os mesmos. Ambos começaram por indignados protestos de inocência sem largarem as respectivas cadeiras. E só depois de empurrados acabaram por as abandonar. Dias Loureiro demitiu-se quando o também conselheiro de Estado João Lobo Antunes disse em voz alta o que toda a gente pensava, isto é, que ele devia sair. Quanto a Armando Vara, só percebeu que estava a mais no BCP quando o presidente do banco, Santos Ferreira, declarou que as notícias sobre o seu vice não eram "boas" para a instituição e remeteu uma decisão para Vara.
Esta 'cultura' de resistência perante suspeitas graves e/ou indícios de culpa considerados fortes pelas autoridades, está profundamente enraizada. Talvez os visados considerem que os cargos os tornam impunes, ou lhes facilitam a defesa, o que, sendo lamentável, provavelmente acontece. Mas o apego ao tacho ou ao penacho está longe de reforçar a presunção de inocência por parte do cidadão comum. Bem pelo contrário.
Um caso muito citado sempre que ocorrem situações deste tipo é o de António Vitorino: no dia em que houve notícia da suspeita de irregularidades na compra de um monte alentejano em ruínas demitiu-se de ministro da Defesa. Provou-se mais tarde que não cometera nenhuma irregularidade. A prontidão com que abandonou o cargo foi, aos olhos do país, a melhor demonstração de inocência e consciência tranquila.
Vitorino não esboçou resistência - e menos ainda exibiu a farronca de desafiar fosse quem fosse a apresentar provas da acusação que lhe era feita. Limitou-se a sair de cena e a pedir o esclarecimento do caso, pagando o custo de uma demissão que, no imediato, lhe trouxe óbvios prejuízos para a carreira e para a imagem.
É por existirem casos como este, poucos infelizmente, que não se percebe que alguém com a responsabilidade do presidente da Caixa Geral de Depósitos - para já não falar do inefável comendador Berardo, que considera "muito digna" a saída tardia de Vara - diga que a atitude do ainda vice-presidente do BCP se apresenta como "um bom exemplo". É natural que Armando Vara tenha feito amigos na banca e a solidariedade na desgraça não fica mal a ninguém. Mas, atendendo às funções que alguns desses amigos desempenham e à gravidade do que está em causa, manda o bom senso que se calem e se limitem a aguardar pelo que a Justiça tem a dizer.
Sócrates II
Quem esperava que o debate do programa do Governo fosse o primeiro acto da guerra civil permanente que se anuncia para esta legislatura, desiludiu-se certamente. Os protagonistas foram até bastante cordatos, se recordarmos certas contendas do tempo em que José Sócrates era um "animal feroz" e o trio Louçã-Portas-Rangel o acompanhava, com gosto e gáudio, no esforço de baixar o nível da discussão subindo o nível de decibéis.
Já do ponto de vista político, as posições das partes se apresentaram de tal modo extremadas que a sequência lógica seria as oposições deitarem abaixo o Governo logo a seguir ao Natal - e só porque a quadra que se aproxima pede paz e compreensão entre os homens. Mas sabemos que isso não acontecerá.
No primeiro encontro depois das eleições, a preocupação de cada um foi a de marcar a sua posição de partida: as oposições mostrando como estão mais fortes e exigindo o máximo de recuo do Governo, Sócrates esforçando-se por dar a ideia de que recua o mínimo, para não parecer que perde a face. Assim, perante a exigência geral de suspensão da avaliação dos professores - o maior problema do país, como se viu pelas intervenções que suscitou -, o primeiro-ministro manteve-se firme na recusa de recomeçar do zero, mas a ministra da Educação, devidamente autorizada, claro está, logo adiantou que está pronta para mudar o que for preciso. Se alguém tinha dúvidas sobre qual vai ser o modelo de governação Sócrates II, decerto ficou esclarecido.
Crise, disseram eles
A Corticeira Amorim anunciou um lucro líquido de 5,7 milhões de euros no terceiro trimestre de 2009 - um aumento de 60,7 por cento, comparando com os 3,6 milhões do período homólogo de 2008. Aqui temos uma boa notícia: uma empresa nacional que não só resiste à crise como multiplica os lucros de ano para ano.
De repente, algo parece não bater certo. Esta Corticeira Amorim é a mesma que despediu em Fevereiro quase 200 trabalhadores com a desculpa da crise. Na altura, tais despedimentos deixaram muita gente perplexa. Desde logo porque os trabalhadores e os sindicatos garantiam que a empresa tinha perfeitas condições e perspectivas. Depois porque, pertencendo a um grupo que todos os anos acumula centenas de milhões em lucros, certamente poderia manter 200 empregos numa época em que mais se tem de apelar à responsabilidade social das empresas. Afinal, o ponto não era a crise, mas apenas a ganância do lucro. Agora que se demonstrou o logro e o oportunismo daqueles despedimentos, fica o país à espera de que o Governo - recorrendo aos tribunais, se necessário - imponha à Corticeira Amorim a readmissão dos trabalhadores que desejem regressar.
Fernando Madrinha
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009