26/05/2012 atualizado às 13:05

O esporão que mudou a História

A vitória dos gregos sobre os persas em Salamina garantiu a sobrevivência dos valores do mundo helénico, ainda hoje referenciais para a nossa cultura, e demonstrou que a inferioridade numérica de uma frota não é determinante para o resultado de um combate naval.

Rui Cardoso
15:28 Sexta feira, 5 de junho de 2009
Salamina
Salamina
A infantaria pesada grega mostrara a sua eficácia na batalha de Maratona (490.C.) pondo termo à primeira invasão persa, chefiada pelo imperador Dario. Dez anos depois, o seu sucessor Xerxes, volta a invadir a Grécia por terra e por mar. Apesar da batalha de retardamento travada no desfiladeiro das Termópilas pelos espartanos (que, provavelmente seriam mais que os lendários 300 guerreiros) o avanço terrestre prossegue e Atenas cai. A reviravolta ocorrerá no mar: a frota coligada, maioritariamente ateniense, derrota uma armada muito maior dos persas e seus aliados em Salamina (29 de Setembro de 480 a.C.). Como e porquê?Foram estas as perguntas a que José Varandas, do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa, procurou responder na sessão de abertura do I Curso Livre "Guerra no Mar", a decorrer naquelas instalações todas as quintas-feiras, às 18.00, até 23 de Julho (ver programa actualizado em "Guerra às Quartas ... passa para as Quintas"). Tal como no recente curso "Os Rostos da Batalha", a iniciativa é do Centro de História da Universidade de Lisboa.Dois factores decidiram Salamina: um tipo de navio (a trirreme) e um conceito (o cidadão-soldado).

Temístocles
Temístocles
A luta pelo domínio das rotas comerciais entre a Grécia e a Ásia Menor levou as cidades-estado gregas a desenvolver um navio de combate. Com três andares de remadores de cada lado, a trirreme era rápida e muito manobrável. Todo o navio era construído em torno da arma principal, o esporão da proa. A função deste não era afundar a embarcação inimiga mas partir-lhe os remos, deixando-a à deriva e pronta a ser abordada. Na coberta, fazendo lembrar a pista de um porta-aviões, seguia a infantaria embarcada, os hoplitas, armados com os mesmos escudos, elmos e lanças da falange grega. Nesse sentido, e como destacou o conferencista, a trirreme era, também, um "porta-hoplitas". Estes eram lançados ao assalto das embarcações inimigas danificadas pelo esporão. As características do barco permitiam-lhe, ainda, funcionar como "lancha de desembarque", largando tropas na praia, como se vê, por exemplo no filme "Tróia".






Cidadãos-soldados


Soldado persa
Soldado persa
Se estes soldados eram cidadãos, cumprindo o que hoje chamaríamos serviço militar obrigatório, também os remadores, os tetas, eram homens livres que escolhiam esta modalidade para o cumprimento das suas obrigações militares. Uns e outros eram verdadeiros atletas e as provas dos jogos olímpicos, tanto preparavam os soldados para o famoso "sprint" final de 200 m, as cargas de infantaria contra os persas que decidiram Maratona e Plateias, como treinavam os remadores para aplicarem o impulso máximo para o ataque com o esporão, ou as rápidas mudanças de direcção que caracterizavam os ataques das trirremes.Estas actuavam sempre em flotilhas, imitando, de alguma forma, "os processos de ataque das alcateias de lobos ou dos grupos de leões", com um navio a dar o primeiro golpe, o segundo a completar a imobilização do inimigo e, eventualmente, o terceiro a lançar a abordagem.Esta "plataforma de superioridade naval, equivalente na sua sofisticação e custos a um porta-aviões ou a um submarino atómico actuais", tinha, no entanto as suas limitações. Não podia fazer navegação oceânica porque não havia grande porão para mantimentos, nem capacidade para enfrentar vagas altas e seguidas. Era ineficaz como navio de escolta de veleiros comerciais. Actuava sempre à vista da costa, articulada com forças terrestres e, inclusivamente, combatendo sempre com um dos flancos da formação encostado a terra, para evitar o envolvimento pela frota contrária.

Batalha decisiva


Tudo isto foi aplicado exemplarmente pelos gregos em Salamina. A armada da coligação liderada por Atenas estava a evacuar a população da cidade para a ilha de Salamina quando a frota persa se aproxima. Temístocles, o almirante ateniense, escolhe combater num estreito onde não há espaço para a frota contrária se poder distribuir. Desta forma, no que respeita a barcos frente-a-frente, há maior equilíbrio. Enquanto a frota grega é toda constituída por birremes e trirremes com esporão, a persa é compósita, com veleiros e navios a remos, incluindo egípcios e fenícios. Mas, do lado de Xerxes, os navios com esporão não estão na linha da frente.O rápido ataque com os esporões deixa à deriva a linha da frente persa, contra a qual os navios da retaguarda, impotentes, continuam a avançar e a chocar. À volta desta massa desorganizada, as trirremes e birremes escolhem e abatem as suas presas, como uma alcateia à volta de um rebanho. A maior parte dos navios persas nem chega a entrar em combate mas retira, perdida a motivação e a unidade de comando."Ainda hoje não se sabe" - disse José Varandas - "através de que meios eram transmitidas as ordens do navio-almirante para a frota grega, se por vozes ou outros sinais. Mas é inegável que, tal como uma frota moderna, tinham comando, controlo e comunicações em tempo real. E isso explica boa parte da sua eficácia".

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