23 de maio de 2013 às 18:36
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O espelho da realidade

É a crise: os emigrantes lusos em África enviam mais, ao invés dos imigrantes africanos lusófonos em Portugal.
Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)

Há vinte anos que por esta altura se reúnem no Banco de Portugal as delegações dos bancos centrais dos PALOP, acompanhadas mais recentemente de Timor-Leste. Na ocasião é divulgado o relatório 'A Evolução das Economias dos PALOP e de Timor-Leste'. Este documento é composto de duas partes, uma primeira sobre a situação económica daqueles países e uma segunda que aborda as relações bilaterais comerciais e de investimento entre Portugal e os seis. A balança de pagamentos e a dívida oficial são igualmente apresentadas. Uma leitura de alguns itens da balança corrente, nomeadamente o saldo dos rendimentos e as remessas dos emigrantes e dos imigrantes, espelha bem a crise atual, que afeta todos estes países, incluindo Portugal. É usual centrar a atenção no desemprego português e na procura de alternativas naqueles mercados, com destaque para Angola.

Mas o desemprego atinge igualmente os imigrantes e disso mesmo dá conta a evolução das suas remessas. Começando pelas dos emigrantes portugueses, constata-se que de Angola os valores são crescentes. Nem mesmo as políticas de contenção das despesas neste país desencadearam uma diminuição das remessas. Aliás, este padrão é igual ao que se verificou, por exemplo, entre 1981-82, quando medidas de austeridade nas importações e gastos com o exterior foram impostas pela primeira vez após a independência, culminando no Plano de Urgência de 1983. As importações oriundas de Portugal diminuíram, mas as remessas dos 'cooperantes' portugueses mantiveram o ritmo de crescimento. Pouco depois, com o programa SEF de 1987, novamente as exportações portuguesas diminuíram e, agora sim, as remessas foram paulatinamente caindo.

Os dias de hoje dão sinais semelhantes, com as exportações a estagnarem mas as remessas a crescerem. Eventualmente os dados de 2010 já não serão assim. Mas a análise estas rubricas espelha a procura de alternativas de trabalho fora de Portugal. Em todos os países africanos lusófonos as remessas dos portugueses aumentaram de 2008 para 2009, invertendo a tendência de diminuição. Contudo, o outro lado da moeda é menos feliz e espelha a crise em terras lusas: as transferências dos cidadãos desta África lusófona diminuíram, invertendo a tendência até aí de crescimento. Finalmente, uma curiosidade quanto ao saldo da rubrica 'rendimentos'. Como seria a priori de esperar, ele é positivo para Portugal. Excetua-se Cabo Verde, o qual, a partir de 2004 e falhando 2005, vê estes fluxos serem-lhe favoráveis... Mas o destaque vai para o caso de Angola.

Os vários investimentos portugueses neste país têm permitido desde sempre ter um saldo positivo e acima dos 100 milhões de euros desde 2004. Entretanto os interesses de empresas angolanas em Portugal têm aumentado vertiginosamente. E, em 2009, o balanço tornou-se deficitário para Portugal em 78 milhões de euros. Sinal dos tempos? Capital e trabalho sofrem...

Manuel Ennes Ferreira , professor do ISEG

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de outubro de 2010

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