Quem quer que se debruce atentamente sobre a expressão do rosto dos dois ficcionistas portugueses, a quem maior tributo se prestou nas últimas quatro décadas, detetará um amargor iniludível, cujas causas mais ou menos evidentes vale a pena averiguar. Ou porque Jeová se manifeste pela crueldade, distribuindo bordoada a tutti quanti, ou porque os camaradas de ofício constituam na sua maioria uma pandilha de medíocres que deveriam desaparecer do mapa, o fácies que nos apresentam é o de alguém que em perpétuo andasse a chupar uma rodela de limão, ou que sofresse de uma incessante dor de dentes. O fenómeno não contém aliás seja o que for de novo, e a agrura do escrevente corresponde a traço que caracteriza autores tão díspares como Bernard Shaw e Claudel, Moravia e Mark Twain, ou Camilo José Cela.
Uma espécie de paranoia profissional, não menos deletéria do que a silicose dos mineiros, marca de facto o escritor que alimenta a ânsia de se tornar, senão o único da sua casta, ao menos o primeiro, ocupando assim um trono mirífico a que mais ninguém se acha com legitimidade. Lembre-se a propósito a passagem da célebre carta, de resto jamais expedida, de Eça de Queirós a Camilo Castelo Branco, na qual o romancista de Os Maias dispara o seguinte, "(...) Adquiro o direito de rogar a V. Exa. que, quando se queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Exa. diz, ou que desdouram a sua glória, como eu traduzo, não se volte para mim e para os meus amigos - mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo, talvez."
Se quiséssemos investigar a origem remota da "patologia", encontrá-la-íamos porventura naquele continuado sedentarismo, e na falta subsequente de arejamento, que se revelam inseparáveis da lide literária. A isso escapariam tão-só os mais corriqueiros, e as personalidades femininas que cultivam as belas-letras, essas com certeza por tradicionalmente temerem mais do que os seus confrades que a má catadura lhes provoque a emergência de rugas. Quanto aos outros persistirão eles na sua acidez, abraçando-a como tábua de salvação, não vá reputá-los alguém, se espontaneamente sorrirem, de pertencerem à horda dos pataratas que apenas sabem apanhar bonés.
Aquele a quem se chama o Escriba Acocorado, obra-prima da escultura egípcia do terceiro milénio antes de Cristo, convida-nos a interessante reflexão. Não lhe detetamos na cara o menor sinal de acrimónia, parecendo-nos pelo contrário sujeito tranquilo e equilibrado. E porquê?, perguntaremos então. Está bom de ver, porque faz uma vida higiénica, trabalha em tronco nu, acomoda-se em cima de uma lage de pedra, o que lhe refresca os humores, e não se lhe avista nas cercanias adereço, ou fétiche. Desse modo, inteiramente livre do maço de tabaco, do retrato da querida, e do copo de whisky, e contando em exclusivo com a imaginária fímbria de palmeiras ao fundo, lá vai ele executando a sua tarefa diária, acalentado pelo oiro irradiante da impassível face de Âmon.