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O elo que faltava

Nuno Crato (www.expresso.pt)
9:00 Domingo, 4 de outubro de 2009

Na revista "Science" de ontem, um grupo de cientistas relatava uma das maiores descobertas científicas dos últimos anos: a de uma espécie que recebeu a designação de Ardipithecus ramidus (Ar. ramidus) e que é mais antiga que a dos Australopithecus, situando-se antes destes na longa evolução que nos conduziu até ao que hoje somos. Na realidade, o Ardipithecus foi descrito pela primeira vez em 1994, mas são os estudos agora publicados na "Science" que mostram a sua posição na nossa linhagem evolutiva e trazem a lume muitas das suas características, revolucionando o nosso conhecimento sobre as espécies que nos antecederam.

O Austrolopithecus, descoberto em 1924, tinha já alargado imenso a compreensão sobre a nossa linha evolutiva. Esse grupo, de que o espécimen Lucy é o achado mais famoso, apareceu, ao que se crê, há cerca de quatro milhões de anos e sobreviveu até há cerca de um milhão. O conhecimento do que anteriormente se passou era, até há pouco, muito fragmentado. Com a nova descoberta, esse conhecimento estende-se até ao antepassado que tivemos em comum com os chimpanzés, há cerca de seis milhões de anos, pois o Ar. ramidus terá vivido desde essa altura até há cerca de quatro milhões de anos.

A descoberta é fascinante para os especialistas e para todos nós. Mas o leigo, ao folhear as páginas da "Science", talvez fique sobretudo espantado com o manancial de informação que os especialistas conseguem retirar de meia dúzia de restos, necessariamente muito deteriorados, encontrados nos últimos anos. Comentário equivalente se aplica aos leitores do interessantíssimo livro de Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro, "O Património Genético Português", lançado há pouco entre nós. Só que este último está muito mais perto de nós no tempo e no espaço.

Por fósseis de sementes e de outros componentes orgânicos e pelo estudo geológico do local onde os restos foram encontrados, em sedimentos na região de Afar, na actual Etiópia, os especialistas concluem que o Ar. ramidus não vivia em savanas, como anteriormente se pensava que acontecia com os antepassados do Austrolopithecus, mas sim num ambiente mais húmido e fresco, com habitats florestais. Desse e de outros dados concluem que a anatomia e comportamento dos primeiros hominídeos não evoluíram em resposta a um ambiente aberto, que facilitasse a postura erecta.

Pela análise dos isótopos de carbono encontrados nos dentes, os cientistas tiraram conclusões sobre os hábitos alimentares destes nossos antepassados, concluindo que se tratavam de omnívoros colectores em que os frutos eram essenciais. Pelo estudo dos ossos das mãos, os especialistas perceberam como se locomoviam e seguravam às árvores. Tiraram ainda conclusões sobre a evolução das nossas mãos, que se terão diferenciado das dos antigos chimpanzés de forma diferente da que se admitia. Finalmente, pelo estudo do esqueleto concluíram que o Ar. ramidus terá evoluído para adoptar simultaneamente uma postura vertical e subir facilmente às árvores.

No total, a "Science" publica 11 artigos sobre estas descobertas. Significativamente, cada artigo é antecedido de um resumo de uma página perceptível para os leigos. É visível, como poucas vezes terá sido, a intenção de a revista se apresentar com uma vertente de divulgação em simultâneo com a vertente puramente científica. É bom que a ciência goste de se dar a conhecer.

Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009

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Elo perdido, elos perdidos...
maria odete madeira (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 11:23 | Domingo, 4 de outubro de 2009
Os critérios classificadores da categoria de humanidade incluem elementos determinantes, tais como a posição erecta, a “face curta” (termo de André Leroi-Gourhan) e a mão livre durante a locomoção: a “mão que liberta a palavra” (Leroi-Gourhan) com consequências ao nível do desenvolvimento neurocognitivo.
A evidência de que o desenvolvimento de marcadores humanos determinantes “possam” não ter “passado” por mecanismos enactivos em que o ambiente savana/floresta “possa” ter tido um papel fundamental, em termos de critérios constituintes “pode” remeter para algum tipo de “singularidade” com exigências explicativas que “podem” “exigir” construções de cenários conjecturais bem mais “complicados”.
A expectativa é a de que o “elo perdido” não demore a “fazer” a sua aparição evolutiva.
 
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    Re: Elo perdido, elos perdidos...    Ver comentário
teixeiranet (seguir utilizador), 1 ponto , 19:01 | Sábado, 10 de outubro de 2009
Elos e teorias
Utente (seguir utilizador), 1 ponto , 17:35 | Segunda feira, 5 de outubro de 2009
Não sou cientista e, portanto, limito-me a "ouvir" o que vai sendo afirmado ou suposto sobre a origem ou carasterísticas dos nossos avoengos.
O que noto é que as teorias sobre o assunto andam sucessivamente a "revolucionar-se" umas às outras.
 
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O elo perdido
teixeiranet (seguir utilizador), 1 ponto , 22:51 | Sábado, 10 de outubro de 2009
Nunca a ciência irá descobrir o elo perdido pela simples razão de que não existe!!!
Se porventura Deus tivesse decidido fazer surgir o Homem de uma sequência de não-humanos, a transiçao para o Homem exigiria sempre uma singularidade contendo elementos não finitos. Assim sendo, o elo perdido não existe porque entre dois conjuntos disjuntos nunca encontraremos um elemento que pertença aos dois!!
 
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