Um prancha, vontade e algum jeito são a fórmula base para ser surfista. Miguel Moreira achou que não bastava e acabou por se tornar no primeiro cientista desportivo a doutorar-se em surf em todo o mundo.
"O surf é uma modalidade aliciante para praticar e para estudar", diz o professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade Técnica de Lisboa, enquanto a ventania da Praia do Guincho lhe agita o cabelo.
Quase todas as outras modalidades desportivas podem ser transportadas para laboratório, mas o surf não, só se pratica no mar. "Só quando houver piscinas de ondas" será possível praticar aquele desporto longe do mar, afirma, com um manto de espuma em fundo e uma agitação das águas que desencoraja banhistas e surfistas.
Antes desse avanço, Miguel Moreira, 38 anos, concentra-se numa "luta" que não sabe quando terminará, mas que diz levar "com calma. "Ainda é mais forte o negócio do que o desporto", sustenta.
Uma das frentes dessa batalha é a que vem mantendo desde que decidiu adaptar ao surf, que praticava por lazer, alguns dos princípios da ginástica no trampolim, a modalidade que levava a "sério".
Quando os surfistas tinham quase como única característica a predestinação, o investigador desportivo quis demonstrar que a técnica e a sistematização que usava na ginástica ajudariam a concretizar aquelas habilidades à frente das ondas, de pé e em cima de uma singela prancha. Só que no surf "é mais complicado": o mar não pára e cada onda é diferente da anterior e da que a antecedeu, o tapete ou o trampolim estão sempre no mesmo local e estáticos.
Mas se na ginástica ninguém dá mortais com pirueta antes de mortais simples, o surf também deveria ter uma evolução, que começa obrigatoriamente quando o praticante se coloca de pé em cima da prancha e levanta as mãos.
O primeiro objectivo de Miguel Moreira começou até por ser a sistematização das diferentes manobras para facilitar a vida aos juízes, de modo a harmonizar critérios difusos e diferentes entre si. Só que depois concluiu que o desempenho dos surfistas era o objectivo da avaliação e esse também não tinha uma linha condutora - que manobras fazer e quando as fazer.
O culminar dessa fase seria a tese de doutoramento apresentada em Outubro passado, início de um autêntico ano de ouro para o surf nacional, na perspectiva teórica. No final do ano lectivo saíram da FMH os primeiros quatro licenciados na modalidade, quase ao mesmo tempo que Miguel Moreira via aprovado o seu projecto de leccionar uma pós-graduação na disciplina.
Na prática, afirma que os resultados visíveis já surgiram entre as camadas jovens: todos os campeões e vice-campeões das categorias abaixo dos 16 anos são treinados por técnicos que trabalharam consigo durante a fase de investigação para a tese de doutoramento.
Começaram com uma prancha com rodas a treinar o equilíbrio em terra, primeiro em piso plano e depois nos "half-pipes", onde os praticantes de skate fazem acrobacias. Deste modo "evolui-se mais rápido" quando se chega à água, porque já estão cumpridas as etapas iniciais de se colocarem de pé em cima da prancha e o equilíbrio já vai numa fase mais adiantada.
Em Janeiro, quando começar a pós-graduação, vai ser lançado um manual de surf para as escolas da modalidade, mas também para os competidores, feito com base nos oitos anos de investigação que originaram a tese.
Tudo somado, diz Miguel Moreira, obtém-se um "trabalho inovador a nível mundial", já que em nenhum outro país o surf foi abordado nesta perspectiva técnica por um investigador desportivo. Mas a tarefa nunca está concluída, são necessários "mais estudos", para se "obterem mais resultados", garante o "doutor do surf".