Resumidamente, poder-se-ão encontrar algumas razões da atual crise na Região do Douro nos seguintes vetores:
O chamado Vinho Generoso ou Vinho do Porto, contínua a resistir com a sua presença e afirmação junto dos mercados internacionais, não obstante a alucinante onda de perturbações, quer reais, quer puramente especulativas a que nos temos habituado e que, por verdadeiro milagre ainda não levaram (por enquanto) a Região a um coletivo e dramático suicídio económico.
Mas é, mesmo com todos os defeitos no sistema, o Vinho do Porto através do seu comércio exportador, que está ainda a "segurar" a Região e, não fossem as mais valias deste vinho e, este Douro, Património da Humanidade, já há muito estaria transformado num imenso matagal, o que virá fatalmente a acontecer, se não se encontrarem rapidamente soluções a curto prazo que consigam evitar a ruína económica, suster a inevitável fuga dos seus naturais, e travar a desertificação.
E de nada valerão os líricos programas e projetos turísticos que vão dando de comer embalando a imaginação inesgotável dos fazedores de ilusões que governam este pobre e abandonado país.
Sobressai como principal autor e responsável da tragédia que se anuncia, por negligência, ignorância, cumplicidades ou corrupções, o próprio Estado a quem competiria fazer respeitar e cumprir por exemplo, as Leis do Plantio e que, desertando ostensivamente dessa obrigação, facilitou, consciente, ou inconscientemente (falta saber), para que a Região fosse tomada de assalto com imensas e novas plantações, umas ilegais, outras de transferências vindas de todo lado e que vieram para aqui ao "cheiro do benefício".
Foi o Estado que autorizando as transferências de cadastros dentro da própria Região, secou as modestas fontes de rendimento de muitas aldeias que, vendendo os cadastros, ficaram sem meios de sobrevivência, abreviando o inevitável despovoamento;
Foi o Estado que desmantelou uma Casa do Douro ferida e descapitalizada por decisões aventureiras e fatais que fizeram desaparecer os milhões de contos que a tornavam independente, magestática, temível e inatacável, sem curar de em substituição garantir à Região um quadro institucional que protegesse milhares de viticultores da anarquia que fatalmente os viria a atingir;
Foi o Estado que esqueceu que, entre os sempre fragilizados produtores e os poderosos comerciantes, haveria ainda que, com algum sacrifício dos segundos, que legitimamente defendem os seus interesses comerciais, se mantivessem as prioridades de proteção aos primeiros e, o que aconteceu é que o Estado, arrasando na prática todo o quadro protecionista no sector da produção, lançando os viticultores no mesmo miserável quadro em que viviam nos princípios do século passado, estendeu por este Douro fora, uma encantada passadeira vermelha ao poderoso sector do Comércio, contra o qual, o próprio Estado, salvo a prosápia, não tem qualquer força ou influência, o que é verdadeiramente trágico e vergonhosamente humilhante.
E não devemos culpar o Comércio que, repete-se, se limita a defender os seus legítimos e naturais interesses se o Estado, pela mão dos seus ministros, lhes oferece domínios e lhe presta vassalagem.
É ainda o Estado que, ao que se consta, (será verdade?) vem recolher junto do IVDP os milhões de euros das taxas pagas pela produção para apoiar as campanhas de promoção dos seus vinhos, sacando-as para o Orçamento Geral do Estado (?).
Estamos pois perante um Estado que, abandonando a responsabilidade de zelar pelo nível de vida das populações do Douro, encargo que deixou à deriva, vem com rapacidade e esfomeado, esbulhar-nos das verbas indispensáveis à promoção da nossa economia;
Neste país do "Faz de Conta" e particularmente nesta Região há muito completamente abandonada dos poderes públicos, que, quando aqui metem as mãos o fazem sempre de forma atabalhoada e letal, como se tem visto, com a maior parte dos governantes, confrangedoramente ignorantes das realidades do Douro e pouco vocacionados também para matérias concretas, ninguém parece ter-se dado conta da imparável concorrência mundial dos vinhos.
E assim, com o Estado a "assobiar para o lado", por ignorância ou imbecilidade, certo é que temos a Região com duas vezes mais produção do que os seus mercados tradicionais, face à concorrência, podem absorver.
Ninguém se deu conta a tempo e horas, com tanta gente a comer da gamela do orçamento e pagos portanto para manter os olhos abertos, que países como o Chile, Argentina, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e os próprios Estados Unidos, começaram de há vinte anos a esta parte a preparar vinhos de muito boa qualidade, visando os mercados europeus, designadamente os mercados da Europa do Norte, onde foram conquistando os melhores mercados, entrando assim em mortífera concorrência com os vinhos europeus.
Por outro lado, e porque um mal nunca vem só, as campanhas anti-álcool em que a publicidade escolheu o vinho como o "criminoso" número um, também contribuiu para a descida do consumo.
Em França, por exemplo a crise é grave; menos porém que aqui no Douro.
Se levarmos em linha de conta que uma pipa de vinho em Bordéus fica em custos à produção na ordem dos 600€ pipa e estão a vender a 450€, com um prejuízo de 25% ; no Douro, em que a pipa fica em custos a 400€, está a vender-se ente os 75€ e os 100€, com um prejuízo a rondar os 80 % !
Como última nota, valerá a pena meditar de que há povoações no Douro que sempre tiveram falta de mão-de-obra, e que estão agora com falta de trabalho com um número crescente de famílias privadas do salário diário e sem proteção eficaz de ordem social e que estão sujeitas inexoravelmente a situações de fome, como já se não viam no Douro há muitas, mesmo muitas dezenas de anos, mais propriamente desde o decorrer e finais da 2ª. Guerra mundial.
E isto não é retórica nem demagogia, mas sim um alerta e um apelo a quem de direito, se é que esta entidade abstrata ainda existe neste desgraçado país, face à visão real de um quadro negro que se começa a instalar na que dizem ser a Região agrícola mais rica do país, slogan que, erradamente muita gente perfilha, a começar pelos senhores ministros que vêm algumas árvores, mas que, lamentavelmente, não conhecem a floresta.
*Viticultor