O desprezo de Lisboa pelo Norte, parte 34
Para sair do buraco, a sociedade portuguesa precisa de extinguir dois incêndios que estão a consumir, há muito, uma possível relação amorosa entre o nosso PIB e o crescimento. O primeiro é o défice externo, ou seja, temos de exportar mais e importar menos bens de consumo, a fim de acabarmos com a excessiva dependência do crédito externo, que, relembre-se, é a grande raiz da presente crise. E sabem que mais? Esta frente de combate está a correr bem, pois em breve o saldo do dinheiro que sai/dinheiro que fica será positivo. Razões para este sucesso? O comportamento das exportações e o lado positivo (menos importações e mais poupança) da queda do consumo e do consequente aumento do desemprego em certos sectores. O segundo incêndio é a brutal despesa pública. Ora, a atmosfera mediática de 'Lesboa' só dá atenção a esta segunda frente de combate, que, por acaso, é aquela que apresenta menos sucessos. Isto sucede por várias razões.
Em primeiro lugar, os média seguem à risca o queixume das corporações que estão instaladas no Estado. Os telejornais, por exemplo, parecem menus de queixas de sindicatos e corporações. É como se o país inteiro se resumisse ao funcionalismo, é como se não existisse mais nada numa sociedade de 10 milhões. No fundo, os nossos média são os média do Estado, no sentido em que só fazem notícias sobre os actores do Estado (partidos e corporações). Em segundo lugar, é notório que a 'Lesboa' mediática fica incomodada com as boas notícias. Há demasiada gente ansiosa por ver Atenas em Lisboa. Por que razão existe esta má vontade? É uma conversa para outras calendas. Em terceiro lugar, o motor exportador do país está situado acima do Mondego, e este sucesso com sotaque do norte não encaixa nas narrativas 'lesboetas'. A macrocefalia não é só uma questão material. Existe um abismo entre o país que trabalha para exportar e a auto-representação mediática de Portugal feita em 'Lesboa'.


