26/05/2012 atualizado às 13:05

O Desafio perdurável de Tiananmen

Wang Dan foi um dos líderes estudantis nas manifestações em Tiananmen. Exilado nos Estados Unidos, ele aconselha o governo chinês a tomar quatro medidas para convencer o mundo de que é uma "potência responsável".

Wang DanGlobal Viewpoint Network/Exclusivo Expresso
9:31 Quinta feira, 4 de junho de 2009
Wang Dan, hoje exilado nos EUA, foi um dos líderes do movimento de estudantes de há 20 anos
Wang Dan, hoje exilado nos EUA, foi um dos líderes do movimento de estudantes de há 20 anos
Chiang Ying-ying/AP

Há duas décadas, em Maio de 1989, eu era um jovem estudante de história de 20 anos na Universidade de Pequim. Em 13 de Junho, o meu nome encabeçava uma lista dos líderes estudantis "mais procurados" do movimento pela democracia de Tiananmen. Fui preso e passei quase quatro anos na cadeia, fui novamente preso em 1995 e depois exilado para os Estados Unidos em 1998.

Clique para aceder ao dossiê ESPECIAL TIANANMEN 20 ANOS

Acaba de ser divulgada uma autobiografia secreta de Zhao Ziyang, o secretário-geral do Partido Comunista que perdeu uma luta pelo poder contra os conservadores em 1989 e que morreu em prisão domiciliária. Nos seus escritos, Zhao revela a sua convicção de que as nossas exigências por uma reforma económica e de direitos humanos não só eram razoáveis como podiam ter acelerado a modernização da China.

Acreditei então e continuo a acreditar que as reformas que eu e os meus companheiros defendíamos constituem os desafios centrais que moldam hoje o destino da China.

Passaram vinte anos desde as históricas manifestações da Praça Tiananmen a favor da democracia e da liberdade de expressão e contra a corrupção. E durante este tempo, a China mudou substancialmente. As reformas económicas permitiram que milhões de chineses retirassem as suas famílias da miséria, e muita gente na China acha que a sua vida mudou para melhor.

Mas as causas centrais assumidas pela geração Tiananmen, tanto pelos estudantes como pelos cidadãos, continuam por resolver: corrupção, direitos dos trabalhadores, liberdade de expressão e reformas governamentais para responderem às necessidades dos 1,3 mil milhões de chineses.

Hoje na China a corrupção é endémica porque o Partido Comunista Chinês e a sua vasta rede de funcionários continuam acima da lei. Os trabalhadores continuam a ver os seus direitos violados, um problema que provavelmente aumentará à medida que a crise económica mundial afectar as fábricas, mandando para casa muitos milhões de trabalhadores que migraram das suas terras. A censura à liberdade de expressão imposta pelo governo chinês é uma preocupação central, quando o advento da Internet dá voz tanto a jovens como a críticos.

O crescimento económico da China não conduziu à liberdade, a uma imprensa livre ou à democracia. Pelo contrário, tal como aconteceu com Deng Xiaoping e Jiang Zemin antes dele, o Presidente Hu Jintao da China invocou o desenvolvimento económico para justificar a repressão das manifestações de Tiananmen e a manutenção do regime de partido único. Eivado de corrupção, o sistema beneficiou alguns privilegiados, com os secretários locais do partido a tornarem-se milionários de um dia para o outro e a usarem o seu poder político para acumularem grandes somas provenientes dos lucros das empresas estatais.

O momento de maior orgulho da história da China 


As nossas manifestações na Primavera de 1989 tiveram eco entre a população chinesa. Em poucas semanas, manifestações joviais e pacíficas tiveram lugar nas principais cidades, envolvendo não apenas estudantes mas também operários fabris, académicos e até funcionários de jornais e estações de televisão controlados pelo Estado. Para mim, foi o momento de maior orgulho na longa história da China. Pela primeira vez na nossa vida, o povo ousava exercer o direito humano mais fundamental de todos: a liberdade de expressão.

Na noite de 3 de Junho, o exército entrou na Praça Tiananmen para a desocupar e a violência militar que se seguiu manchou de sangue mais uma página da história tumultuosa da China. Ainda hoje não sabemos quantas pessoas foram mortas naquela praça. O governo disse que só morreram soldados e alguns cidadãos, mas temos fotografias de centenas de manifestantes trucidados ao longo da Avenida Changan e de corpos jazendo nas morgues dos hospitais de Pequim.

Na última década, vi de longe a China reafirmar o seu papel no palco mundial. O crescimento económico é impressionante. No ano passado, os Jogos Olímpicos de Pequim deram à China o perfil mundial de legitimidade que os seus dirigentes tão claramente desejam. Mas o que dizer da censura aos meios de informação, que contribuiu para o número de vítimas do escândalo do leite contaminado? E a corrupção governamental, que levou a práticas de construção fraudulentas em Sichuan e consequências devastadoras no sismo do ano passado? Ou o fosso cada vez maior entre ricos e pobres?

Estes problemas, todos abordados pelos estudantes da Praça Tiananmen há 20 anos, continuam por resolver.  O poder da China está limitado ao "yang" ou "hard power", o poder militar ou económico, ao passo que no século XXI o "yin" ou "soft power", baseado em princípios morais e direitos humanos, é igualmente importante.

O povo chinês anseia não só por benefícios económicos mas também por direitos humanos fundamentais. Um manifesto pro-democracia chamado Carta 08, divulgado online em Dezembro último, já reuniu milhares de assinaturas, apesar de todos os esforços das autoridades chinesas para impedirem a sua distribuição e punirem os seus autores. O eminente intelectual Liu Xiaobo, um dos subscritores da carta, foi detido em Dezembro e continua preso sem justificação legal. Liu, que passou quase dois anos na prisão depois das manifestações de Tiananmen, foi uma inspiração para nós em 1989 e continua a sê-lo hoje.

Por ocasião do 20º aniversário do massacre de Tiananmen, o governo chinês devia tomar quatro medidas, caso deseje convencer o mundo de que é uma "potência responsável". Primeiro, devia pagar indemnizações às mães de Tiananmen que perderam os filhos para sempre. Segundo, o governo devia permitir que eu e outros cidadãos chineses forçados ao exílio pudessem regressar à sua pátria. Terceiro, o governo devia libertar os restantes presos políticos que foram encarcerados por se manifestarem pacificamente na Praça Tiananmen e os presos mais recentes perseguidos pelas suas tentativas de encorajar uma reforma de direitos humanos. Finalmente, os dirigentes chineses deviam aproximar-se dos objectivos de longo prazo partilhados pelos estudantes de Tiananmen e os autores da Carta 08 - estabelecendo o Estado de direito, garantindo os direitos humanos fundamentais e pondo fim à corrupção.

Só então poderá a China começar a virar a trágica página de Tiananmen.

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