Tony Webster está no final da vidinha, já devidamente reformado, entretido com coisas que inventa para não sentir o tempo a passar. E esta reforma anódina reflete a sua vida: medíocre, sem grandes maldades ou bondades, sem grandes escolhas. Webster nunca escolheu nada, e, por isso, a sua vida não é terra queimada, não é aquela paisagem cheia de cinza que emerge das grandes ruturas, dos grandes choques eléctricos que damos na vidinha. Nada disso. A vida de Webster é um simples jardim de subúrbio: pacato, sem grandes flores, mas também sem cinzas. Tirou o curso mediano na universidade mediana, teve um emprego mediano, casou medianamente, teve sexo mediano, teve uma filha com quem mantém uma relação mediana. Não por acaso, diz-nos que a história não são as mentiras dos vencedores mas "as memórias dos sobreviventes, dos quais a maioria não é vitoriosa nem vencida". Porém, o passado bate à porta e as coisas começam a mudar. Webster inicia uma redescoberta do passado que o leva a questionar a sua mediania. Sem o saber, já vivia no meio da cinza.
No centro dessa redescoberta está Veronica, o primeiro e conturbado amor. Nos tais anos 60 (que só aconteceram nos anos 70), Webster nunca conseguiu compreender Veronica e a sua família. Devido a este lost in translation, o nosso narrador rompeu a relação. Pouco tempo depois, descobriu que Veronica passou a ser a namorada de Adrian, o seu melhor amigo do liceu. Tudo bem? Tudo mal. Na velhice, Tony Webster re-descobre que não lidou assim tão bem com a relação Veronica/Adrian. Aliás, o velho e bucólico Webster fica desarmado perante a maldade eléctrica do jovem Webster (há uma carta reveladora). Além disso, descobre que a sua maldade lançou uma maldição, um mar de gafanhotos, um mar de cinzas sobre a vida de Veronica e das pessoas que a rodeavam. Ou seja, já perto da morte, Webster descobre o peso da culpa (as cartas são para queimar).
Mas o pior nem sequer é esta culpa. O pior nunca é atirar cinza sobre os outros. O pior é perceber que, afinal, não vivemos num jardinzinho, mas numa paisagem lunar. O pior é perceber que lançámos cinza sobre nós próprios. É isso que o nosso narrador descobre. Tony Webster nunca conseguiu perceber os sinais de Veronica e, sobretudo, da mãe de Veronica. Resultado desta miopia no tacto e no trato? O nosso homem fez a escolha errada, abriu a porta errada, virou à esquerda quando tinha tudo para seguir em frente. Webster, no fundo, percebe que está a viver no futuro errado. E isso é tramado. É como ver chegar um camião cheio de cinza. É ver esse camião a despejar a sua carga lunar sobre o nosso jardinzito.