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O camião de cinza de Julian Barnes

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Henrique Raposo, A Tempo e a Desmodo - O camião de cinza de Julian Barnes

Tony Webster está no final da vidinha, já devidamente reformado, entretido com coisas que inventa para não sentir o tempo a passar. E esta reforma anódina reflete a sua vida: medíocre, sem grandes maldades ou bondades, sem grandes escolhas. Webster nunca escolheu nada, e, por isso, a sua vida não é terra queimada, não é aquela paisagem cheia de cinza que emerge das grandes ruturas, dos grandes choques eléctricos que damos na vidinha. Nada disso. A vida de Webster é um simples jardim de subúrbio: pacato, sem grandes flores, mas também sem cinzas. Tirou o curso mediano na universidade mediana, teve um emprego mediano, casou medianamente, teve sexo mediano, teve uma filha com quem mantém uma relação mediana. Não por acaso, diz-nos que a história não são as mentiras dos vencedores mas "as memórias dos sobreviventes, dos quais a maioria não é vitoriosa nem vencida". Porém, o passado bate à porta e as coisas começam a mudar. Webster inicia uma redescoberta do passado que o leva a questionar a sua mediania. Sem o saber, já vivia no meio da cinza.

No centro dessa redescoberta está Veronica, o primeiro e conturbado amor. Nos tais anos 60 (que só aconteceram nos anos 70), Webster nunca conseguiu compreender Veronica e a sua família. Devido a este lost in translation, o nosso narrador rompeu a relação. Pouco tempo depois, descobriu que Veronica passou a ser a namorada de Adrian, o seu melhor amigo do liceu. Tudo bem? Tudo mal. Na velhice, Tony Webster re-descobre que não lidou assim tão bem com a relação Veronica/Adrian. Aliás, o velho e bucólico Webster fica desarmado perante a maldade eléctrica do jovem Webster (há uma carta reveladora). Além disso, descobre que a sua maldade lançou uma maldição, um mar de gafanhotos, um mar de cinzas sobre a vida de Veronica e das pessoas que a rodeavam. Ou seja, já perto da morte, Webster descobre o peso da culpa (as cartas são para queimar).

Mas o pior nem sequer é esta culpa. O pior nunca é atirar cinza sobre os outros. O pior é perceber que, afinal, não vivemos num jardinzinho, mas numa paisagem lunar. O pior é perceber que lançámos cinza sobre nós próprios. É isso que o nosso narrador descobre. Tony Webster nunca conseguiu perceber os sinais de Veronica e, sobretudo, da mãe de Veronica. Resultado desta miopia no tacto e no trato? O nosso homem fez a escolha errada, abriu a porta errada, virou à esquerda quando tinha tudo para seguir em frente. Webster, no fundo, percebe que está a viver no futuro errado. E isso é tramado. É como ver chegar um camião cheio de cinza. É ver esse camião a despejar a sua carga lunar sobre o nosso jardinzito. 

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Passar "por cá ",não é bom
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 9:29 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Muita gente nasce,cresce e morre ,como quem "passa por cá".Mas isso não é bom e muito menos sinal de vida.É preciso olhar á volta e contribuir para a corrida coletivo,nos deveres,nos direitos, nos desafios.Como numa corrida de estafetas em que é preciso passar o "testemunho", também assim deve ser a vida de cada um, renovada todos os dias, em cada manhã, como "bola colorida nas mãos de uma criança".
 
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    A censura anda forte!! Malditos fascistas!    Ver comentário
ERA 2011 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:24 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
    A Educação é a base da Democracia    Ver comentário
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 16:37 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
    Re: A censura anda forte!! Malditos fascistas!    Ver comentário
desacomodado (seguir utilizador), 1 ponto , 19:46 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
talvez...
Jolitras (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 9:29 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
... a ver.

http://barbarraridades.bl...
 
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'A Aranha de Julian Barnes
jpafonso (seguir utilizador), 2 pontos , 10:49 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Depois da aranha tecer a sua teia, ela fica muito quietinha no canto. E se a mosca nunca vier?

O livro comentado parece interessante. Mas mesmo que ele não seja, a sua revista dele (a revista por HR) é-o. Seria delicioso se tivesse interpretado mal o livro, ou eu depois o estivesse a interpretar mal a si, ou tudo isto ao mesmo tempo, pensamentos e reflexões a nascerem de simples ruído pelo meio. E daqui nasce o meu pensamento em cima: Por vezes tomamos decisões que não nos agradam, decisões que revelam o nosso lado pior. Ou simplesmente acovardamos-nos de tomar as decisões corretas, que sabemos corretas, e por omissão, deixamos as erradas tomarem forma. Má decisão... mesmo que não o entendamos na altura como tal.

É esta a leitura que estou a fazer de Webster. Consigo adivinhar que ele não foi tão bom no passado como gostaria de ter sido, consigo imaginar que ele se enredou em atos por despeito de que não se orgulha depois, e para não ser notado pelos mesmos ou para não se confrontar consigo próprio, entra na "clandestinidade" da vida "normal" onde todos são iguais, onde ninguém se nota acima da mediania. Estes esconderijos nunca são perfeitos sem uma camuflagem do próprio pensamento, logo ele... esquece-se. Se não o conseguir, podia sempre tentar tornar-se um bêbado ou um drogado. Mas ao fazer isso transforma-se em alguém diferente, que na velhice se surpreende ao descobrir quem era.

A mosca era a felicidade, mas a teia estava mal feita.
 
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Temas
moncarapacho (seguir utilizador), 2 pontos , 16:52 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Na minha opinião HR ainda está muito novo para este tipo de reflexões.
  Quando se passa dos 70 (falo por experiência própria), começa-se a tentar fazer um balanço da nossa vidinha, o que podíamos ter feito, o sonho nunca realizado e é normal que apareçam sentimentos de culpa.
Não me parece nada grave a faz parte do processo de envelhecimento. Resta-nos a consolação de estarmos acompanhados por milhões e milhões, que por cá passaram, discretamente e de quem ninguém se lembra.

Os que vão da lei da morte libertando-se são uma minoria muito minoritária, a que podemos aspirar, mas que raramente alcançaremos.......
 
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O camião de cinza de Julian Barnes
Anthos (seguir utilizador), 1 ponto , 21:25 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011

Cada um de nós tem uma sua própria vida.

Ao grande final tiremos as nossas conclusões.
Alguns podem dizer com alegria: "Eu estou contente porque tive uma vida afortunada". Mas com frequência muitos dizem: "Eu não voltaria por atrás dum só dia. A minha vida foi um verdadeiro inferno".

Algumas pessoas têm lembranças boas, outras têm somente lembranças a esquecer para sempre.

Tugas, Boa Noite!

                          António, um Italiano.
 
 
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Falar e e escrever ... de tudo !
A.S.Duarte (seguir utilizador), 1 ponto , 21:37 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Um indivíduo que não é medico pode falar sobre uma doença,fazer um diagnóstico a partir dos sintomas e até estabelecer uma terapêutica? Pode,mas não é aconselhável que vá tratar alguém que está doente. Alguém que goste de futebol pode ter umas ideias em como escolher os jogadores, formar uma equipa,estabelecer uma táctica? Claro que pode, mas não sendo treinador reconhecido, não estou a ver um qualquer clube contratá-lo para orientar uma equipa.
          H.R. pode escrever sobre um livro que leu? Pode,evidentemente que pode, tem um blogue onde faz crítica política,social, cinematográfica... e porque não literária? Mas pode ser levado a sério quando, a propósito de uma obra que leu pode ir para além dos ,digamos, aspectos técnicos da mesma e do seu autor e falar da vida,da velhice, enfim... de tudo quanto é inerente a tal, isto é, com um saber de experiência feito? Acho que não. Mas H.R. fala de tudo, fala (escreve),H.R. sabe de tudo...
 
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